Pastoral Afro/racismo

Supressão e conservação do homem branco.

head_and_talesUma visão retrospectiva do colonialismo e do anticolonialismo no limiar do século XXI1

1. Quando todos concordam unanimemente a respeito do carácter questionável de um fenómeno social, quando este se torna alvo mesmo da crítica oficial, em geral ele já deixou de ser uma presença efectiva para se converter em objecto da história. Que político, ainda hoje, pode ser chamado de “colonialista”? Que país pode ainda adquirir colónias? O mercado mundial já superou esse problema há várias décadas, mesmo que ainda haja pequenas contendas na retaguarda. Seria inútil, portanto, continuar chutando um cachorro morto ainda que este tenha sido, em vida, incrivelmente feio e intolerável. Com isso, contudo, estamos longe de ter concluído o acerto de contas com a história passada, que continua a atuar sobre nós e sobre nosso futuro. Talvez só mesmo agora seja possível começar a compreendê-la, pois devemos lançar um olhar retrospectivo sobre uma época que não pode mais ser alterada e que permanecerá para sempre fora do nosso campo de acção.

obra de Ynka Shonibareobra de Ynka Shonibare

A humanidade europeia não produziu até hoje nenhuma crítica definitiva acerca do acontecimento ao qual deu o nome de “descoberta da América”. As missões jesuíticas já haviam legitimado, de antemão, o mundo europeu como o único verdadeiro. Essa elevada auto-estima, ao ser secularizada, ganhou uma vigorosa continuidade com as ideias do iluminismo, até hoje determinantes tanto para a ideologia oficial burguesa como para a teoria crítica de sua Intelligentsia. Em seu alvorecer, a modernidade ocidental deveria expor a verdade Última, por fim descoberta, acerca do espírito e da sociedade. O pensamento burguês, com seu racionalismo abstracto, e a civilização dos livres e iguais proprietários de mercadorias, passaram a encarnar a ideia mesma de razão e civilização. Em contraposição a ambos, tanto os povos naturais do Pacífico e das florestas tropicais quanto as culturas avançadas da Ásia, da África e das Américas podiam ser sempre desqualificadas como “bárbaras”, seguindo a velha e gasta tradição europeia.

Essa perspectiva ganhou novo reforço teórico a partir do – final do século XVIII, com o surgimento das teorias evolucionistas. Assim como Hegel reduzira todo o mundo antigo e medieval a meros estágios preliminares, justamente da monarquia esclarecida prussiana -definida por ele de modo inabalável como último estágio evolutivo da cultura humana também as culturas que se encontravam fora do universo europeu foram definidas, no interior de uma espécie de escala civilizatória, como graus distintos e preliminares de um estado evolutivo pré-europeu pelas teorias histórico-genéticas nascentes. Augusto Comte, o fundador da sociologia e do positivismo, formulou em meados do século XIX uma teoria evolutivo-filosófica dos estados, que se estendia de um fictício estado de natureza a um patamar ainda não alcançável, que nomeou “estado positivo”, no qual a ciência finalmente deveria triunfar. Comte não deixava dúvidas de que essa escala, ao mesmo tempo, exibia um juízo de valor, na medida em que designava expressamente a “raça branca” e as “nações europeias” como as “escolhidas” e a “vanguarda da humanidade”.

Portanto, é o progresso, aquele conceito então criado e hoje em desgraça, o que conduz ao domínio do homem branco, que, com sua racionalidade, não apenas coroa a história humana, mas supostamente também lhe põe termo com a edificação do “estado positivo”. Sem sombra de dúvida, uma tal interpretação da história facilita em muito a equiparação dos povos e culturas desconhecidas a coisas ou objectos naturais, passíveis enquanto tal de “descobrimento”, a exemplo das espécies animais ou vegetais. Ora, se os povos que se encontravam fora da Europa eram meros representantes de estágios evolutivos inferiores, já deixados para trás pelo homem branco, então de fato eles não eram seres humanos no sentido exacto do termo, podendo ser tratados, no melhor dos casos, como uma espécie “infantil” particular, no pior dos casos, como bestas. Com a mesma indiferença dispensada hoje, em geral, às reses e às cobaias, que talvez suscite indignação às gerações futuras, ao longo de toda a história colonial, os chamados “nativos” foram definidos por princípio como seres distintos dos humanos, animais utilitários, instrumento, ou até mesmo como caça.

Essa revoltante crueza, porém, não deveria ser simplesmente condenada de um ponto de vista moral e superficial, mas, antes, compreendida em sua historicidade. Ela indica, sobretudo, que o próprio homem branco se encontra ainda em um estágio tosco de desenvolvimento, a despeito de ter se imaginado no topo do género humano. É sabido que o colonialismo faz parte daquilo que Marx chama “forças propulsoras do capital”2. O ouro que havia sido roubado nos séculos XVI e XVII em quantidades massivas, sobretudo das culturas indígenas da América Central, de pronto destruídas, contribuiu enormemente para estimular a circulação monetária na Europa e, consequentemente, a expansão de sua produção mercantil. Aos poucos, as colónias aumentaram o comércio mundial e, no trato com os núcleos de colonização de ultramar, surgiram os primeiros embriões de um mercado mundial. Novos estimulantes e condimentos passaram a ser consumidos em massa, como é o caso do proverbial chá inglês, que obviamente provinha da Índia, e da pimenta, que passou a ser disponível em grandes quantidades, enquanto na Idade Média era vendida a peso de ouro e permanecia reservada à nata da sociedade. Se as matérias-primas, importadas a preços módicos, estimularam o modo de produção industrial, o tráfico e o trabalho escravo nas grandes propriedades coloniais impulsionaram o capitalismo agrário.

Assim, do início do século XVI até o fim do século XIX, o colonialismo contribuiu para desencadear o modo de produção capitalista. Foram soltas as Fúrias do interesse monetário abstracto e, pela primeira vez, a multiplicação do dinheiro em função de si mesmo se converteu em princípio universal da produção e da vida social. Não é de se admirar que os europeus, a princípio ainda imersos no universo medieval e apartados, em virtude de suas próprias conquistas coloniais, das arraigadas estruturas feudais, tenham se comportado no novo mundo de uma maneira que correspondia a seu próprio desarraigamento e incerteza. O horizonte se tornara muito vasto para a visão de mundo feudal, mas a nova liberdade, que começava a ser prometida pelo pensamento ilustrado, tinha como base social real a pressão valorativa do dinheiro e o cálculo abstracto de rentabilidade. Fustigado por essa coerção cega e auto-imputada, por muito tempo o homem branco conduziu seu império mundial com a crueldade inerente às relações coercitivas inconscientes.

obra de Ynka Shonibareobra de Ynka Shonibare

Ora, se na história colonial o capitalismo veio ao mundo, para usar uma expressão de Marx, “sujo e encharcado de sangue”, e legitimou com o iluminismo sua própria superioridade civilizatória, é claro que as contradições geradas por esse processo não podiam passar desapercebidas. Uma das primeiras testemunhas da insensata crueldade da colonização é o famoso manifesto do bispo Bartolomé de Las Casas, publicado pela primeira vez em 1552, que traz o árido título de “Brevíssimo relato sobre a destruição das Índias Ocidentais”.

Ele descreve o massacre levado a cabo pelos conquistadores e documenta uma quantidade sufocante de atrocidades, extorsões, roubos e assassinatos. Vê-se nesse relato que, na busca do ouro, os indígenas foram torturados e queimados vivos, tiveram mãos, olhos e narizes decepados enquanto suas crianças tinham o crânio esmagado.

Calcula-se que a colonização espanhola sozinha massacrou e mutilou dessa maneira mais de 20 milhões de pessoas. Decerto, o saque e o massacre, enquanto origem mais crua da capitalização, estavam em patente contradição não apenas com os ideais abstractos da religião cristã e do lluminismo, mas também frente ao cálculo de rentabilidade do próprio capital. As sanguinárias campanhas de extermínio e a escravidão brutal reduziam a longo prazo a força produtiva do material humano e, por isso, precisavam ser superadas em nome da pretendida continuidade da exploração europeia. O próprio Las Casas não se opunha de modo algum à colonização em si, sendo, ao contrário, um súdito fiel da coroa espanhola e leal dignitário da Igreja Católica. Também os críticos posteriores, que censuravam a colonização evocando o progresso e os direitos humanos, partiam do então inquestionável pressuposto de que as nações europeias haviam sido destinadas a civilizar o mundo. Mesmo Marx e Engels falavam sem qualquer embaraço em “povos semicivilizados”, ao passo que o emergente movimento operário social-democrata europeu não obteve qualquer consenso para condenação do colonialismo. Nos congressos Socialistas internacionais, anteriores à 2ª Guerra Mundial, eram recebidas, sem qualquer estranheza, propostas como a formulada em 1907 pelo social-democrata alemão David, que via numa política colonial reformada e purificada um “componente indispensável das aspirações culturais universais da Social-democracia”. Por iniciativa da delegação britânica, uma resolução oficial de 1904 chegava ao ponto de reivindicar expressamente “o direito dos habitantes de países civilizados a se estabelecerem em países cuja população se encontre em estágios menos avançados de desenvolvimento”.

2.

A crítica isolada das atrocidades coloniais, que toma como ponto de partida justamente a visão europeia do ser humano, ao mesmo tempo que se atém à ideologia de uma civilização europeia superior, deu origem a um fenómeno curioso que um crítico de língua afiada chamou de “soluçar hipócrita do homem branco”. Sempre que os colonizadores europeus logravam devastar uma civilização, suas ruínas eram colocadas sob protecção, como monumentos, e eram choradas suas belezas perdidas. Já no século XVIII, surgira, desse modo, o mito do “bom selvagem “, sob influência da glorificação rousseauísta da natureza. Aos povos naturais e às culturas avançadas fora do perímetro europeu foram conferidas atitudes e feitos morais, dos quais o homem branco podia extrair seu bocado.

Numa notável inversão da ideologia europeia da superioridade, os subjugados e martirizados, que antes haviam sido rebaixados a seres infantis ou animalescos, apareciam agora subitamente como seres humanos melhores, justamente por serem tão graciosamente menos desenvolvidos. E quanto mais distante se torna a época colonial, quanto mais silenciosas as incontáveis vítimas do passado, tanto mais parece se espalhar na consciência europeia o romantismo à la Karl May3. Hoje em dia, chega-se a falar que o conjunto de sabedorias dos povos indígenas exterminados poderia impedir o colapso ecológico do nosso mundo monetarizado e dar um basta à máquina de utilização abstracta dos seres humanos e da natureza, movida por abstractos cálculos de rentabilidade. Ou, ainda, que a mística de culturas orientais há muito destruídas pode suscitar novos comichões, dar fomento espiritual e amparo ao adormecido homem branco. Essas reverências frente aos objectos da própria sanha destrutiva nunca foram motivadas por uma efectiva auto-crítica do Ocidente. Pelo contrário, essas esferas desconhecidas de vida, há muito descarnadas materialmente pelo homem branco, são agora objecto de uma segunda e francamente necrófila exploração, na categoria de mundos ideais, passíveis, aliás, de sistemática inserção no mercado.

No entanto, a representação dos povos pré-coloniais ainda intocados pela Europa, como habitantes de terras idílicas e bucólicas e portadores de uma sabedoria humana primeva, comum a todos os homens, não mente apenas por converter com voz dissimulada o mal-estar frente ao potencial destrutivo da própria civilização em algo facultativo e afirmativo, que, enquanto tal, poderia ser comparável às notórias filosofias populares sobre a pretensa inocência da infância perdida ou os melhores dias de anos dourados. Ela mente, sobretudo, por fazer dessas culturas um produto kitsch e aprazível, recoberto de glacê açucarado, tornando-as, assim, grotescamente inofensivas. De fato, a grande maioria dessas sociedades trazia traços destrutivos. As ideologias de legitimação dos colonizadores não surgiram por acaso.

Mesmo os históricos povos naturais eram tudo menos benignos e despreocupados filhos do amor, libertos de relações sexualmente coercitivas. Há muito foi comprovado que a entusiástica exposição das culturas dos Mares do Sul, feita pela antropóloga Margaret Mead nas décadas de 30 e 40 e frequentemente citada, repousa sobre questionáveis métodos científicos e corresponde mais às próprias projecções que à realidade das sociedades polinésias. “Eles encontravam o que conheciam” – essa sentença crítica sobre a moderna interpretação de descobertas arqueológicas cabe como uma luva para a interpretação dos povos primitivos e suas relações sociais. Só nas últimas décadas, sobretudo a partir da discussão suscitada pelos trabalhos de Claude Lévi-Strauss, a etnologia conseguiu, por fim, desenvolver um aparato crítico para a reflexão acerca do próprio modo de aproximação e abordagem de culturas desconhecidas.

Os supostos filhos da natureza eram, na verdade, regidos por relações coercitivas extremamente rígidas, e suas guerras e rituais -com inclusão dos “bons costumes patriarcais”, tais como o sacrifício humano, o escalpo, a vingança de morte e o canibalismo – em muitos aspectos não ficavam nem um pouco atrás das atrocidades dos colonizadores. As sabedorias indígenas, que de perto soam a segredos de avó, tampouco os impediam de se massacrarem reciprocamente da pior maneira possível. Não foi preciso a chegada dos europeus para que fosse introduzida a prática de mutilar narizes e orelhas, e os colonizadores teriam ainda muito que aprender sobre a arte de escalpar com os representantes da sabedoria natural. As culturas astecas e incas, destruídas pelos colonizadores, eram elas mesmas potências coloniais sanguinárias que já haviam seviciado e explorado povos inteiros. E longe de viver em harmonia com a natureza, a cultura maia, muito antes da chegada dos europeus, já havia conseguido provocar uma catástrofe ecológica, provavelmente através da cultura exaustiva do solo, selando assim seu próprio ocaso.

Mesmo o cristianismo dos missionários, a despeito de seu carácter risível, não era apenas um golpe desfechado por recalcados inimigos da sexualidade contra costumes supostamente livres, mas também, ao mesmo tempo, uma libertação frente às obrigações irmãs impostas pelas religiões naturais e pelos sistemas totêmicos. A religião europeia não teria podido nunca ser implementada apenas com base na violência colonial policial. Como observou acertadamente Nietzsche, nesse processo ocorreu uma inversão no modo de ver o mundo. Para os povos primitivos e civilizações recentes, os poderes da natureza eram um mundo despótico, que tudo abarcava, e no qual o ser humano só podia se afirmar através de um rígido sistema de regras que, por assim dizer, deviam determinar todos seus passos. Para o pensamento europeu que os domina, ao contrário, a natureza mesma é um sistema de regras e leis cognoscíveis, ao qual o ser humano pode recorrer conscientemente por meio de seu próprio arbítrio. O deus abstracto do cristianismo distendeu os limites do sistema obrigatório de regras de maneira nada inoportuna – abrindo, com isso, espaço para que o humano4 respirasse.

Também frente às culturas orientais, asiáticas e africanas, o colonialismo era uma faca de dois gumes. O modo de produção asiático e seu império teocrático, por exemplo, se apoiava em uma tirania inimaginável e em um despotismo certamente muito sentido e sofrido, que não podia ser apenas integrado sem deixar rastros na cultura. A cortesia proverbial dos chineses nasceu do temor de um domínio omnipresente e total que se inclinava de maneira quase rotineira à prática de atrocidades de dimensões holocáusticas. E muito antes dos europeus, os árabes, eles mesmos mais tarde colonizados, haviam se lançado sobre os reinos africanos e os destruído. Esses reinos, por sua vez, promoviam entre si, e no combate com povos menos poderosos, as mais sangrentas carnificinas. Nessa medida, as amplas anexações do colonialismo europeu, a despeito de sua extrema violência, promoveram em muitas regiões uma certa pacificação interna. Nestes casos, a estrutura colonial talvez tenha tido uma função semelhante à do absolutismo europeu, que por meio de seu poder centralizado apaziguou os poderes feudais particulares, em eterno conflito: o que era condição prévia para o efectivo surgimento das nações modernas.

obra de Ynka Shonibareobra de Ynka Shonibare

Ora, essa pérfida ambiguidade de um desenvolvimento que significava ao mesmo tempo destruição, massacre e exploração devia produzir de ambos os lados profundas deformações de consciência. Os homens brancos, munidos com seu cristianismo e seus ideais esclarecidos, não tinham esclarecimento algum acerca de si mesmo e, em sua superioridade bruta, não podiam chegar a qualquer compreensão que reconhecesse o valor próprio das culturas que lhe eram estranhas. No fundo, se confrontavam desse modo apenas dois diferentes estágios de selvajaria, incapazes de qualquer intercâmbio consciente. A partir do encontro com as relações fetichistas e coercitivas não-européias, os europeus, enquanto selvagens para quem o dinheiro em seu movimento fechado sobre si mesmo havia se tornado um fetiche, só poderiam pôr em marcha um processo de desenvolvimento patológico.

3.

o índice mais claro da patologia europeia talvez seja o fato do homem branco ter também precisado colonizar a si mesmo ao longo do processo colonizador. O desencadeamento da moderna economia de mercado e sua rentabilidade compulsiva passou a subjugar mesmos os supostos senhores desse modo de produção. Seus próprios corpos e sentidos precisaram ser confinados no interior de uma couraça de abstração a fim de abstraírem a si mesmos. Surgiu assim a triste figura de uma natureza mascarada, movida por uma ambição cega às emoções; a imagem do sempre contido e concentrado guardião de uma soma de dinheiro, que tem por objectivo multiplicar a si mesmo, subjugado por seu próprio cálculo abstrato. O vencedor e conquistador teve também, ele mesmo, desvirtuada e destruída sua capacidade sensível de fruição.

Quanto mais avançava na colonização do mundo exterior, tanto mais o homem branco precisava ajustar a si mesmo, e quanto mais assim se ajustava, mais precisava colonizar o mundo. Os senhores do autodomínio, que tinham vertido sangue no Novo Mundo, lançavam agora seu olhar abstrato e utilitário para o continente europeu. A colonização externa das culturas não-européias se reverteu directamente em colonização interna do próprio mundo. Na medida mesma em que promovia a capitalização da produção e a industrialização, o colonialismo também destruía o modo de produção agrário da antiga Europa e impelia a parcela empobrecida da população para as fábricas, então com jornadas de trabalho de 14 horas e bárbaro trabalho infantil. A minoria dos homens brancos, que havia se convertido em órgão de execução política e económica do princípio de rentabilidade, transformou a própria massa de homens brancos em uma nova espécie de nativos sem nome, novas mônadas de força de trabalho abstracta.

Mas como mesmo a raça branca de senhores, em seu estado altamente abstrativo de selvajaria, não podia permanecer sem acesso ao mundo da sensualidade e dos sentidos, a colonização interna teve de ser levada a seu ponto mais extremo: a degradação da mulher branca e de sua corporeidade. Porque havia degradado a si mesmo enquanto máquina social insensível, o homem branco colonizou a mulher como um animal hipersensível. Ela deveria responder por tudo que ele não mais podia sentir ou desfrutar: pelos sentimentos e pela dedicação afetiva, pela estética cotidiana e pela mobilização da sensualidade, enclausurada na prisão de segurança máxima da célula familiar modernizada em sua privacidade abstracta. Com isso, foram atribuídas à mulher as mesmas características reservadas aos selvagens, às pessoas de diferente cor de pele, à criança e aos culturalmente subordinados: a imprevisibilidade e o capricho, a ausência de concentração e autodomínio, o cultivo da voluptuosidade e a posse de uma sexualidade desenfreada deveriam ser os elementos constitutivos de seu ser.

Por um lado, o homem branco cobiçava as qualidades sensíveis da mulher ajustada a tais padrões sociais, pensando em mantê-la junto a si como “ente natural domesticado”. Por outro lado, no entanto, ele também temia essas qualidades, que já haviam se tornado algo estranho a si mesmo, as quais precisava repelir sempre, até mesmo com violência excessiva, como um poder que punha em xeque sua couraça de abstracção. Esse processo de colonização interna da mulher se estendeu da queima das bruxas, que não por acaso coincidiu com o início da história colonial, até o século XX, e em matéria de atrocidade não ficou nada atrás da guerra colonial externa. Não raro, ambas as formas andaram de braços dados. Em sua análise do sistema colonial francês, Frantz Fanon descreve, por exemplo, o caso de um oficial de polícia na Argélia que teve de ser conduzido a uma clínica psiquiátrica por ter começado a torturar seus próprios filhos e esposa.

Contudo, a despeito de seu carácter patológico, a colonização interna não foi menos ambígua que a externa. O processo de enfermidade interna da sociedade europeia sempre significou, ao mesmo tempo, a superação das barreiras de carência e pobreza vigentes no mundo feudal agrário. A transformação do camponês servo em trabalhador assalariado se mostrou incompatível com um status de dependência pessoal. Precisaram ir pelos ares as antigas relações entre senhor e escravo. Mesmo a degradação social e sexual da mulher, convertida em um corpo feminino para o sexo, paradoxalmente andou ao mesmo passo que os momentos de sua equiparação formal-jurídica. Assim, se o processo que Jürgen Habermas chamou “colonização do mundo de vida” foi sempre, simultaneamente, um meio passo rumo à emancipação, isso significa que, durante muito tempo, a emancipação só pôde ser pensada no horizonte mesmo do processo de colonização externa e interna. É por isso que todos os movimentos emancipatórios dos últimos dois séculos nunca reivindicaram simplesmente o retorno à situação pré-colonial, mas reclamavam para si as abstrações sociais do iluminismo ocidental.

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O exemplo mais claro e menos contraditório, nesse sentido, era o histórico movimento operário do Ocidente. Os trabalhadores masculinos, que haviam sido submetidos pelo incipiente capitalismo às formas mais brutais de exploração e falta de direitos, exigiam apenas seu “direito” próprio enquanto homens brancos. E, sob esse prisma, eles podiam ser amplamente atendidos por meio de reformas sociais e através de seu reconhecimento como sujeitos livres perante a lei e o Estado. O movimento anticolonialista dos povos não europeus, ao contrário, era cindido por uma profunda contradição interna. Já durante a Revolução Francesa os trabalhadores escravos das plantações haitianas haviam se rebelado em nome das bandeiras importadas da “liberdade” e da “igualdade” e se proclamavam uma república autónoma. Porém, a contradição de modo algum residia apenas no fato destes serem metralhados pelos nada fraternos canhões franceses, pois, no fim das contas, a Revolução Francesa só tinha sido concebida para o homem branco. Na verdade, a própria exigência emancipatória dos negros, na medida em que só podia ser formulada nas categorias do homem branco, devia produzir uma profunda crise de identidade.

A dor causada por essa crise até hoje não pôde ser atenuada. Todas as tentativas dos povos colonizados de, ao menos culturalmente, reencontrar a si mesmos ricochetearam inevitavelmente no muro de concreto da ocidentalização inevitável. A cultura da negritude africana, por exemplo, tal como criada pelo poeta e presidente senegalês Leopold Sedar Senghor, permaneceu sempre exterior ao real processo de desenvolvimento social e corre o risco de decair, degenerando em mero ornamento. Mesmo o fervoroso pregador do poder de libertação anticolonialista Frantz Fanon, a despeito de sua crítica militante à cultura europeia, resvala involuntariamente em conceitos genuinamente europeus ao recorrer à “nação” e à “democracia”.

Nos movimentos emancipatórios femininos, a contradição aflora talvez de maneira ainda mais gritante. Também as mulheres durante muito tempo só puderam combater sua própria situação colonial em nome daqueles princípios que o homem branco havia forjado para si e com os quais engendrara sua própria identidade. Todavia, a questão central da relação entre os sexos praticamente não aparece no plano desses princípios. A sensualidade banida do processo mundializado do trabalho abstrato tampouco pôde ser apaziguada por meio da completa equiparação jurídica da mulher quanto o foi a natureza mesma, ainda que continuem a ser necessárias, hoje, reformas imanentes das relações entre os sexos – da revogação do parágrafo 2185 até a regulamentação de cotas para as mulheres. Porém, na atual crise do status feminino, há mais coisas em jogo do que a mera distribuição de papéis e poderes entre os sexos no interior das formas sociais ocidentais ou ocidentalizadas. Essa crise aponta, antes, para o fim da própria colonização, tanto externa quanto interna e, com isso, também para o fim daquele processo contraditório de modernização que fora outrora o realejo do homem branco.

Ora, a possibilidade de uma utilização abstracta dos seres humanos e da natureza, conforme a lei da rentabilidade, tinha como condição básica a colonização interna da mulher. Sua domesticada e colonizada responsabilidade compulsória pelo sensível era o pressuposto para que o homem branco pudesse dominar a si mesmo e, com isso, o mundo à sua volta. No entanto, o constructo inteiro vem abaixo se as mulheres passam a se emancipar de maneira crescente, segundo os abstractos princípios iluministas do homem branco. Tão logo as mulheres se tornam elas mesmas sucedâneos dos homens brancos, vem à tona o déficit fundamental desse modo de produção e de vida. As mulheres carreiristas, do tipo Margaret Thatcher, desmentem duplamente a si próprias. Em primeiro lugar, porque elas involuntariamente minam a base familiar do sistema de mercado, pois mesmo com toda a boa vontade mulheres profissionalmente ativas, ou mesmo empresárias e políticas, não podem mais responder, como castas donas-de-casa, por um ninho aconchegante capaz de sanar o déficit sensitivo do trabalho masculino abstrato. Em segundo lugar, porque essas mulheres sentem na própria pele o que significa ter que dominar a si mesmas como máquinas abstratas de trabalho. Quando ninguém mais é responsável pela sensibilidade desviada, esta irrompe violentamente no universo das relações e dos sentimentos na forma de crise. E não é nenhum pouco casual que, ao mesmo tempo, a natureza externa comece a se rebelar, deitando por terra, na forma de um processo de crise e catástrofe ecológica, o cálculo abstrato de rentabilidade. As forças produtivas, extravasadas pelo próprio sistema de mercado, intervêm de modo tão profundo na natureza interna das necessidades humanas e na natureza externa do mundo vegetal e animal no solo, na água e no ar que estes conteúdos sensíveis não podem ser reprimidos e violados por muito tempo.

Com isso, contudo, os movimentos de emancipação dos trabalhadores assalariados e dos antigos povos colonizados esbarram em seus limites. Estes também não irão longe se continuarem a adotar a forma social do homem branco. Enquanto livres sujeitos monetários do cálculo abstrato, só lhes resta cortar na própria carne. As mesmas forças produtivas que produziram, na forma do sistema de mercado, a crise ecológica e a crise das relações entre os sexos são responsáveis por um desemprego em massa, crescente e global. Não faz mais sentido tentar obter ganhos, enquanto homem branco, às custas da própria força abstracta de trabalho. Mesmo porque essas mesmas forças produtivas engendraram o mercado mundial totalizado, enredando globalmente a humanidade. O velho nacionalismo libertador do movimento anticolonialista gira em falso. É evidentemente uma loucura, de incalculáveis consequências ecológicas, acabar com todas as reservas de água do Saara para forjar uma produção independente de alimentos, como quer o líder revolucionário líbio Kadafi, enquanto a vizinha Comunidade Europeia afoga em mares de leite e é sufocada por seu excedente de carne e cereais. No entanto, esta loucura não passa da loucura mesma do homem branco que, em um mundo feito à sua imagem e semelhança, retroage sobre ele próprio em todos os planos possíveis.

Os próprios critérios de êxito do sistema ocidental conduzem ao absurdo, tanto na relação entre os sexos, quanto nas relações entre os grupos sociais e as nações. A guerra dos sexos, as catástrofes sociais e ecológicas, o fundamentalismo pseudoreligioso e a guerra civil étnica mostram que o mundo ocidentalizado sai dos trilhos. Hoje, depois de meio milénio de desenvolvimento ambíguo e contraditório, o processo de colonização interna e externa começa a estrangular a si mesmo. As formas sociais ocidentais, formadas na era dos descobrimentos, não são suficientemente avançadas para poder incorporar o mundo único que é seu próprio produto. Se, no mais alto grau pensável, todos os seres humanos se tornaram homens brancos, então ninguém mais pode sê-lo. Nenhuma emancipação é mais possível na forma patológica até então vigente.

Com isso, pela primeira vez, se aposenta a própria identidade ocidental, ainda que o Ocidente oficial não queira saber de seu próprio fim e prefira sempre definir a crise como “crise do outro”. No entanto, à humanidade, globalmente enredada, não restará nada senão superar a forma europeia do fetichismo da mercadoria e do dinheiro, convertida em forma totalizada e universal. Os selvagens ocidentais, assim como os ocidentalizados, precisam implodir a couraça da abstração do sistema de mercado, sob pena de sucumbirem com ela. Querer continuar subjugando a si mesmo, sob as ordens do princípio de rentabilidade, se tornou algo insensato e ameaçador à própria vida, tanto para europeus quanto para não-europeus, tanto para empresários quanto para trabalhadores, tanto para homens quanto para mulheres. Não é possível voltar a uma situação anterior ao mercado mundial, à democracia ocidental e ao iluminismo, mas deve existir uma perspectiva capaz de sobrepujá-los. As mulheres e os antigos povos coloniais só poderão resolver suas patológicas cisões de identidade quando for rompida, enquanto tal, a patologia do autodomínio viril e abstrato, quando razão e sensibilidade novamente se reconciliarem após uma longa história de dissensão. Nessa medida, o fim efetivo da colonização externa e interna ainda se encontra à nossa frente e, enquanto meta para o século XXI, pode ser resumido em uma fórmula curta: Supressão e conservação do homem branco.

originalmente publicado no beco

http://www.exit-online.org/

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