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Meninas Black Power

black-powerCom mais de 27 mil seguidoras, um grupo de meninas propagam no Facebook o orgulho de ter cabelo crespo. Além de assumirem suas madeixas crespas em seu dia a dia, incentivam todas as leitoras a se livrarem da ditadura do cabelo alisado.

Ingrid Rosa, Ana Flávia, Silvana Inácio e Luana Serena

Diante de uma época dominada pelas escovas definitivas e progressivas, as Meninas Black Power fazem o caminho inverso, querem tornar crespos os cabelos agredidos pelas químicas. Criada pela estudante carioca de enfermagem e obstetrícia Élida Aquino, a fanpage refaz o itinerário iniciado ainda no Orkut. “Meninas Black Power era uma comunidade no Orkut, e reunia quem estava descobrindo o cabelo crespo, a maioria em transição para o natural”, afirma Élida. Ao se lembrar de como descobriu a beleza dos crespos, Élida diz que enxergar a beleza do cabelo crespo natural é um processo para além da questão capilar. “Não é só estético e não só usamos os cabelos naturais por beleza. Esse processo vem junto com a reconstrução e aceitação da sua própria identidade. Ter modelos e referências na sociedade, que comunguem a mesma ideologia, facilita muito a desconstrução do modelo de beleza vigente. Posso dizer que entre as Meninas da equipe o que aconteceu foi um retorno ao que somos. A motivação começa quando você passa a se identificar com aquilo que questiona. Assim passamos por processos que nos levaram a cogitar o natural diante de tantas opções para domar e modificar o que já era nosso. Vimos, por exemplo, as norte-americanas que fizeram o movimento transition explodir, assistimos os vídeos, lemos os textos, olhamos para os cabelos e nos enxergamos naquilo. Somos tão semelhantes na aparência, e qual o motivo de não sermos livres como elas?”

Devido o grande sucesso, a página Meninas Black Power não é administrada somente por Élida: “temos, de fato, um coletivo, e dividimos nossos grupos de ação em diferentes Estados. Nossa intenção é alcançar todo o Brasil, mas por enquanto temos 14 integrantes no Rio, 13 em São Paulo, 3 em Minas, uma em Porto Alegre , uma na Bahia e uma no Espírito Santo. Minas, Bahia, Espírito Santo e Porto Alegre estão escolhendo mais meninas”, explica Élida.

Para elas, ao contrário do que muitos pensam, Meninas Black Power (MBP) não existe para pregar a tal “ditadura do cabelo natural”. “Acontece que há um fenômeno recorrente e vivemos nele desde muito tempo (algumas durante toda vida): obrigação de estar dentro do padrão pra sermos aceitas; ou melhor, toleradas”. “Contra tudo, nosso movimento se soma aos outros núcleos que se espalham por aí e dizem que ‘cabelo ruim’, ‘duro’ e ‘inaceitável’ é invenção pra dominar o pensamento. Sim, nós podemos libertar os nossos e os de muitas outras. Já passou da hora, meninas! Então não damos crédito ao ouvir que há ditadura aqui”.

“Nós não gostamos da química que aprisiona e faz pensar que só somos lindas com pouco volume, cabelos ultra sedosos ou cachos soltos (mas se você usa química e está por aqui, não precisa sair, viu?!); vamos contra a ideia de que não podemos ser crespas nas salas de entrevistas, de aula ou dentro da empresa; nós reinventamos o conceito de perfeição no momento em que espalhamos que tudo pode ser perfeito como é.”

“MBP é um centro de inspiração e apoio pra quem se sentiu presa a vida toda, mas agora decidiu que pode soltar o cabelo e as ideias. Há algo de errado em ajudar? Estamos abertas para as que amam seus cabelos e quem compreende que ditadura, de verdade, é não se satisfazer com o que realmente pode ser. Estamos soltas.”, afirmam as meninas.

Jacqueline Soares é uma das seguidoras das Meninas Black Power, e conta o que mais a motivou a abdicar da química e da chapinha e passar a manter o cabelo em sua “versão” natural: “Sempre fui vaidosa, relaxava meu cabelo sempre que os primeiros fios “rebeldes” começavam a surgir. mas não me sentia AUTÊNTICA. E com tanta química os cachos foram se perdendo e optei pelas Tranças, uma fase que gostei demais, mas ainda não me sentia realizada. Até que um dia, em um desfile para o salão Beleza Negra vi uma Negra Linda de cabelo Black Power – hoje uma das minhas melhores amigas e mentora do black Fernanda Ross.”

Para Nilma Lino Gomes, Reitora da UNAB e autora do livro Sem perder a Raiz, “Pensar a passagem da manipulação do cabelo do negro e da negra, do estilo político ao estilo de vida, abre um leque de possibilidades para o entendimento das expressões estéticas negras da atualidade, que não se limita à conscientização política. Coloca-nos no cerne da construção social e cultural da questão racial numa sociedade que, cada vez mais, privilegia e estimula a individualidade, a auto-expressão e uma consciência de si estilizada”.

LEVANTANDO A BANDEIRA CONTRA O PRECONCEITO
Em janeiro, a marca de cosmético Cadiveu publicou em sua fanpage um álbum de fotos de uma ação de divulgação para o estande da marca na Beauty Fair 2012, feira internacional sobre cabelos que aconteceu em São Paulo. Na ação, visitantes foram convidados a posarem usando perucas gigantes, que lembram um penteado black power, e mostrando uma placa com os dizeres: “Eu preciso de Cadiveu”. As Meninas incentivaram seguidoras a publicarem fotos com as mensagens #eunaoprecisodecadiveu, #blackpowercontraopreconceito e #duroeoseupreconceito. Na plataforma de blogging Tumblr, foi criada também a página “Não preciso de Cadiveu”. A repercussão foi tão grande que a ação foi publicada nos principais jornais do país.

“MUITO MAIS QUE SÓ UMA MUDANÇA DE PENTEADO, ELAS ESTÃO SE MOVIMENTANDO NUMA DIREÇÃO, OUSANDO, SE EXPONDO; E MAIS QUE TUDO ISSO, ABRINDO CAMINHOS PARA A ESCOLHA.”

MUITO ANTES DAS MENINAS
O Cabelo Black Power, também considerado por alguns como afro, foi considerado um estilo político pelo movimento de contestação dos negros desencadeado a partir da década de 60. Esse momento, ao atribuir ao cabelo crespo o lugar da beleza, representava simbolicamente a retirada do negro do lugar da inferioridade racial, no qual fora colocado pelo racismo.

A originalidade de assumir o cabelo crespo passava pelo pensamento da consciência negra que, segundo Nilma, era: “Tudo isso era para desvelar a introjeção de inferioridade – não só intelectual como estética – do negro, pregada pelo apartheid. A ideia central era de que o negro oprimido se libertasse dos valores racistas inculcados pela dominação branca, resgatando a riqueza da cultura africana. A consciência enfatizada por esse movimento incorporava e dava destaque à valorização do padrão estético negro, na tentativa de liquidar o mal-estar vivido pelo negro em relação à sua própria imagem. Esse movimento de estetização negra se propaga e atinge negros e negras de vários países, inclusive, do Brasil.”

CABELO, CABELEIRA, CABELUDA…
Por que o cabelo é algo tão importante para a mulher, e para as negras, em particular…? Quem disse que cabelo não sente – ou que não se sente pelo cabelo? Quem foi que disse que cabelo crespo é feio? Quem foi que disse que cabelo crespo é duro, ruim…? Quem foi que disse que cabelo crespo precisa de pente?

Toda mulher negra tem uma epopéia para contar acerca do seu cabelo. Como a mãe cuidava, como começou a usar na adolescência, o que fez, se alisou, se tingiu, se se rebelou, se caiu… Todas podem dedicar preciosos minutos a tais relatos, basicamente porque o cabelo sempre foi um aspecto importante, diretamente ligado à forma como cada uma se sente aceita e aprovada no mundo. No caso do cabelo crespo, foi sistematicamente negado até bem pouco tempo e, em muitos casos, ainda o é. Por isso mesmo, vem carregado de representações que acendem ou apagam a autoestima e a identidade de cada uma de nós.

Fotos Acervo Pessoal/Etiene Martins
Cheias de entusiasmo as meninas buscam alcançar todo o Brasil

E OS HOMENS COM ISSO?
De diversas formas, grande parte do que se sabe, pensa ou se sente a respeito do cabelo de negros e negras, é o que foi dito pelos colonizadores europeus e usado como traço de distinção, em particular por conta da miscigenação. Por isso mesmo, o cabelo se apresenta como um estigma desde que ainda se é uma criança. É ali que se inicia “o fazer a cabeça” de cada um de nós, negras e negros, que nascemos em um mundo ocidentalizado.

É bastante comum vermos os homens que alcançam dada projeção social e econômica estarem associados ou casados com mulheres brancas e/ou de cabelos lisos ou alisados. Por quê? Mesmo que eles mesmos não alisem seus próprios cabelos, suas companheiras, em geral, acabam apresentando esse visual. Esportistas famosos já destacaram episódios, por eles considerados constrangedores, da mulher negra saindo “descabelada” da piscina, ou afirmando que “meu cabelo é muito feio”, ou a sistemática “preferência” por estar ao lado de mulheres brancas, loiras e/ou de cabelos lisos.

O uso do cabelo crespo, rastafari, enrolado etc. permeia outros valores na atualidade, como os apresentados pelas Meninas Black Power e outras manifestações no mesmo estilo. Trata-se, obviamente, de um movimento político – no sentido de transformar esquemas padrões e sensos comuns. Trata-se ainda de ver a beleza negra como ela é, ou como ela também pode ser.

AUTOS E BAIXOS DA QUESTÃO
Por outro lado, falar de cabelo de negro, particularmente de negras, é mexer com aspectos cheios de contradições. Especificamente no Brasil, o modo pelo qual as pessoas classificam a si mesmas e às outras, do ponto de vista racial, não se baseia unicamente na aparência física. Aspectos como classe social, renda e educação, também desempenham um papel importante na auto identificação e nas avaliações que permeiam o comportamento social. Um jovem negro que resolva usar dreads e trabalhe num banco, pode ser convidado a cortar o cabelo; o mesmo pode ocorrer com uma jovem estagiária a quem seja sugerido alisar o cabelo para permanecer na função, ou conseguir uma promoção. A relação que se estabelece é logo direta entre o corpo, sua pele, o cabelo e seu pertencimento sócio-racial.

No entanto, outra contradição se apresenta: seria equivocado querer fazer uso do cabelo liso? Não teriam as mulheres negras o direito de querer e mudar seu visual, assim como a mulher branca teria o direito de encrespar ou cachear seus cabelos lisos? Poderíamos acabar criando uma ditadura do cabelo crespo, assim como agora já existe a tendência de que todo cabelo deva ser alisado?

No Brasil, o cabelo e a cor da pele são as mais significativas no âmbito étnico. As várias gradações de negrura, a ascensão social, identidade, estigma podem gerar níveis de insatisfação que tanto podem desembocar na adequação aos padrões vigentes, quanto na necessidade de mudanças, na tentativa de sair do lugar da inferioridade para ter um sentimento de autonomia; daí as formas ousadas e criativas de usar o cabelo, mesmo que seja alisado.

Como já citado, essa é uma questão cheia de complexidade e que mexe diretamente com aspectos importantes como a identidade, que é construída historicamente, além de outras mediações que constituem e são constituintes da cultura. Para além de qualquer determinação, é necessário que se tenha compreensão dos valores envolvidos e fazer escolhas, respeitando os próprios limites, preferências e posicionamentos. É também entrar numa zona de tensão, ressignificar o padrão de beleza para algo que seja mais saudável (psicológica e socialmente) para cada pessoa.

por Eliene Martins e Redação

fonte:  revista Raça

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