Pastoral Afro

Afinal, o papa Francisco veio para que???

El-Papa-FranciscoDepois de todos os eventos que aconteceram na cidade do Rio, em torno da JMJ, surgiu uma pergunta muito banal e talvez retórica sobre este evento que tem ocupado a atenção do mundo inteiro: Afinal, o papa Francisco veio para que??? ou tal vez devêssemos dizer: para quem???
Não tem dúvida que, pelo jeito, este Argentino sabe cativar o carinho e a atenção do povo, brasileiro e não, justamente pela forma de se relacionar e de se comunicar.
Desta vez não vimos um “rei” descer de um avião privado beijando o chão e nem ouvimos  muitas noticias sobres encontros privados entres os palácios do poder e esta figura chamada a ser o exemplo da fé´cristã.
Quem desceu, foi um homem no meio do povo, mas ele não é um simples homem, e nem um bispo qualquer: “E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá”. Lucas 12:48
O homem que desceu do avião comercial no dia 22 de Julho de 2013 é o Papa Francisco, chefe supremo do Vaticano e cabeça dos Bispos da Igreja Católica Apostólica Romana. Portanto, não um turista, mas um homem bem informado sobre a realidade, os caminhos, os desafios de um país e um continente, as Américas, que ele deve conhecer muito bem. Um continente marcado, ainda hoje, pelo desenvolvimento desenfreado do capitalismo que, desde a chegada dos colonizadores até o presente, gera sua riqueza com base na exploração e na alienação daqueles cuja riqueza e capital estão sendo retidos em prol de poucos. Um chefe cuja atuação e sua visita está planejada há mais de um ano e que devia conhecer, nos mínimos detalhes, tudo o que ia acontecer nesta semana “carioca”. Mesmo assim, o espetáculo que realizou-se pelas ruas do Rio de Janeiro foi a demonstração mais clara de que este continente e a Igreja ainda vivem hipnotizados pela idolatria ao  hemisfério norte deste planeta e que o mito das culturas “brancas”  continua sendo imposto às populações nativas, além daqueles  trazidos sob o jugo da escravidão e pela morte. Foi impressionante assistir aos eventos oficiais pela televisão  e perceber que num país onde 52% da população declarada negra apareceu só às margens dos quadros da telinha (como ocorre no Carnaval de Salvador na área denominada pipoca, isto é, longe dos espaços de poder). Ao perceber  que anos de luta pela inculturação foram simplesmente desconsiderados em nome de uma visão ideológica,de poder e privilêgios, vê-se claramente que o clero nega suas raízes culturais , para garantir um lugarzinho mais próximo ao chefe supremo, simplesmente para mostrar que ele chegou lá.
Os discursos “bonitos” do Papa Francisco, a exemplo de: “bote fé”, “Entre a indiferença egoísta e o protesto violento (quando todo o mundo, e não sou o Brasil sabe disso, a violência foi desencadeada pela policia), há uma opção sempre possível: o diálogo”, “E povo brasileiro, sobretudo as pessoas mais simples, pode dar para o mundo uma grande lição de solidariedade,”…etc…palavras bonitas, mas que à atenção de um ouvinte mais critico soam como: “Descobrimos a água quente!!!”.
Num país, e continente, onde milhões de consciências são (de)formada pela mídia, a qual está sobe o controle de poucas famílias ou grupos privilegiados; onde os direitos humanos são constantemente pisoteado e custam a vida e a dignidade de milhões, inclusive de católicos; onde as “favelas, vilas, periferias” são paisagens INACEITÁVEIS  e continuam sendo excluídas e abandonas pelas autoridades; onde as minorias e a maioria negra são aniquiladas, invisibilizadas, criminalizadas pelos detentores do poderes locais, esperava-se uma postura mais comprometida por parte do Papa Francisco.
Sonhava-se com alguém que, por ser desta terra, não se limitasse a fazer gestos populares, a ecoar discursos de “nossa culpa, nossa grande culpa” sem apontar os verdadeiros motivos de tantos horrores que acontecem aqui como no resto do mundo. Parece estarmos defronte à passagem evangélica da entrada de Jesus na cidade de Naim: “Logo depois, Jesus foi a uma cidade chamada Naim, e com ele iam os seus discípulos e uma grande multidão.  Ao se aproximar da porta da cidade, estava saindo o enterro do filho único de uma viúva; e uma grande multidão da cidade estava com ela.  Ao vê-la, o Senhor se compadeceu dela e disse: “Não chore”. Depois, aproximou-se e tocou no caixão, e os que o carregavam pararam. Jesus disse: “Jovem, eu digo, levante-se!”  O jovem sentou-se e começou a conversar, e Jesus o entregou à sua mãe.  Todos ficaram cheios de temor e louvavam a Deus. “Um grande profeta se levantou dentre nós”, diziam eles. “Deus interveio em favor do seu povo.”  Essas notícias sobre Jesus espalharam-se por toda a Judeia e regiões circunvizinhas. (Lucas 7,11-17)
Jesus faz a diferença, como papa Francisco se aproxima, porém Jesus assume a dor e a dificuldade da viúva (lembro que tocar o corpo do jovem morto era mais que um gesto de compaixão, era assumir a causa da morte, era tornar-se participe do mesmo destino) e transforma essa realidade em vida.  Papa Francisco chegou até a viúva, falou para ela não desanimar, mas parece que não tocou no “morto”. Ele voltou para sua multidão porque tocar no “morto” te leva a sentir na pele as causas da morte do menino e te obriga moralmente a não ficar calado diante dos que provocam tais injustiças. Ler os evangelhos siginifica lê-lo nas entrelinhas, portanto a luz dessa leitura , a visita do Papa para a JMJ nos põe de frente de algumas questões:
1) Como podemos pretender que os gestos e as palavras de Papa Francisco mudem alguma coisa se em lugar de sentar e ouvir o clamor dos últimos ele aceitou participar de uma recepção cujo gasto foi de 850.000mil reais (1253,687 salários mínimos, 1253, 687 pessoas que precisam de 30 dia de trabalho para ganhar nem se quer um desse salários) e ao visitar os “pobres afavelados” fez os mesmo gestos dos políticos que aparecem somente nas horas das eleições sem denunciar o descaso e a brutalidade da ação denominada “pacifica”???
2) Como  acreditar numa evangelização verdadeira se o clero formado e escolhido nega a cultura e a identidade local substituindo-a por manifestações religiosas de forte cunho europeu/norte-americano com a Igreja de Roma aceitando e abençoando tudo isso (e assim contradizendo a pauta dos seus documentos)?;
3) Como  dar credibilidade a um papa que sabe do massacre que a população negra vive neste país e da situação de vários povos indígenas do Brasil e nem se quer menciona essa realidade e seus mártires?

Parece bastante claro que quem visitou o Brasil nesta JMJ 2013 não foi um papa Latino Americano, que aprendeu o jeito de falar, de abraçar, de lutar pela justiça, de transmitir carinho pelas populações que já viviam nestas terras e que foram trazidas de longe. Ficou evidenciado ali, que estávamos diante de um descendente de europeus que nasceu neste continente educado a não ver, a não assumir e a fazer uma leitura unilateral e folclórica das Américas .
Deve ser por isso que em todos esses dias não ouvimos falar de abuso da mídia (que deve ter faturado muito com os copyrights do evento), da truculência e do uso violento e indiscriminado das policias por partes dos governadores, da praga que é o racismo no mundo e nas Américas em particular e que é a causa das favelas, da violência e da injusta distribuição da renda, da dependência cultural colonial criada pelos colonizadores que ainda hoje se manifesta e  quer dominar as culturas locais. Não, o papa Francisco quis conquistar o mundo e os jovens mais ingênuos, e são muitos por aí, com gestos bonitos e com palavras suave porque ele não é negro, não é índio, não é…..Então ele veio para que??? ou para quem??? a nossa resposta: veio para nos lembrar quanto é bom passar a mão na cabeça das pessoas necessitadas, e que o caminho de integração e valorização da diversidade está sendo barrada por uma “lobby”(palavra em voga) dentro da Igreja Católica Romana que confunde o poder com o chamado ao serviço dos Evangelhos.
Muita Paz e muito Axé, e Viva Papa Francisco!!!!!

pe. Arturo

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