Pastoral Afro

EXPRESSÕES CORPORAIS AFRICANAS NOS CULTOS NEOPENTECOSTAIS

protestantes-pentecostais-cultos-multidoes-19960106-03-size-598Os cultos neopentecostais afloram nos bairros de maioria preta em Salvador, e reinventam uma teologia distante dos cultos das igrejas históricas da reforma protestante. Notamos uma rica liberdade dos movimentos corporais semelhantes a alguns cultos de matriz africana nas Américas.
Sem uma análise mais acurada do quesito fé e respeitando a liberdade de culto, o que me chamou a atenção é que o bairro da Liberdade na cidade do Salvador-Bahia, considerado como exemplo de pretitude e resistência contra a discriminação racial, surgem diversas comunidades religiosas de cunho cristão evangélico os quais divergem de tudo que foi ensinado pelas igrejas tradicionais.
As expressões corporais observadas quando comparadas aos cultos de matriz africana evidenciam o conhecimento ancestral dos moradores da Liberdade. Os conhecimentos repassados dos ancestrais, as vivencias religiosas anteriores se manifestam inconscientes da sua essência preta.
Apesar de negarem a ancestralidade das suas expressões corporais e considerarem os cultos de matriz africana como bruxaria. Em um dos vídeos os fieis são servidos com um liquido em objetos “parecidos” com as quartinhas.
 Abaixo vocês assistirão vídeos da Bispa Joselita, que é líder de uma comunidade na Liberdade/Largo do Tanque. Interessante é a auto declaração da mesma na maioria dos seus vídeos:
– “APÓSTOLA JOSELITA foi arrebatada por Deus durante quarenta dias e quarenta noites, o Senhor a transportou ao mais profundo do céu e do inferno para que na terra falasse aos homens. Dada como morta durante dois dias, Deus pode mostrar o mais profundo do “mundo” espiritual. Usada em revelação, profecia, e maca celestial.
Muitas pessoas já foram abençoadas pelo Senhor através dessa mulher, casamentos foram restituídos, famílias restauradas, empregos concebidos e muitos milagres, prodígios e maravilhas, para glória do nome de Jesus.
FAÇA-NOS UMA VISITA:

End: LARGO DO TANQUE OA LADO DO POSTO DE GASOLINA MENOR PREÇO, NO INICIL DO BAIRRO GUARANI.- Salvador-BA”

As manifestações corporais africanas nos cultos pentecostais e neopentecostais não são meras imitações ou ofensas programadas contra os praticantes de cultos de matrizes africanas, como insistem alguns.  Tal ocorrência vem sendo estudada por diversos antropólogos desde o início do século XX (vale à pena conferir os proeminentes estudos do estadunidense  Melville J. Herskovits, nas décadas de 20-60 do século passado).

Importante é tecer algumas considerações, dado o momento histórico no qual vivemos de intolerância religiosa dos chamados grupos evangélicos,  porque as ilações e comentários sobre aquelas manifestações pentecostais e neopentecostais são observadas com olhares simplórios e falares imediatistas desprovidos da seriedade e tecnicidade necessárias para análise desse fenômeno.
As manifestações religiosas com expressões corporais e incorporações espirituais (conhecidas como o ato  de “receber o Espírito Santo”) nas Igrejas Históricas (Batistas e metodistas) dos USA e Caribe, bem como nas Igrejas Pentecostais e Neopentecostais na África e nas Américas não é recente.  Aquelas manifestações espirituais  ocorrem desde a evangelização de africanos e seus descendentes em continente americano.
Há muito tempo, as observo “in loco”.  Tanto assim, que minha falecida mãe dizia que era “coisa de Santo” – alusão a expressão “santo” para denominar as forças da natureza e os ancestrais cultuados nas religiões de matrizes africanas -.  Ainda, algumas amigas praticantes do candomblé afirmam que orixás, vodunsis ou inkices se manifestam naqueles cultos, corroborando com os estudos já desenvolvidos sobre os corpus dos africanos-americanos e suas manifestações, independente da religião que professem.
Em minha infância, o pastor presbiteriano José Walmir Lafene pregou em um terreiro de Umbanda, na cidade de Queimados/RJ, cuja zeladora chamava-se Mãe Lourdes, uma senhora preta e forte. O pastor foi acompanhado de membros adultos da igreja. Recordo-me, ainda, que todos os adolescentes e crianças (presbiterianas) foram proibidas de acompanhar os demais membros e  deveriam ficar em oração porque a palavra (leitura bíblica e pregação) iria ser levada a “Casa do Satanás”.
Registra-se que Mãe Lurdes, no entanto, nunca foi convidada à igreja para falar da Umbanda.
Esses dias, essa situação ocorreu mais uma vez.
Após a publicação de Expressões corporais africanas nos cultos neopentecostais, me chamou a atenção um vídeo (com mais de 180 mil visualizações) da Prª. Ana Lúcia realizando um culto no candomblé da Mãe Dorinha na cidade de Vitória/ES:
Analisando singelamente o conteúdo,  considero magnífica a atitude de mãe Dorinha abrir sua “roça”  – denominação comum para Terreiros de Candomblé, na Bahia –  para a celebração do culto cristão. No mesmo sentido, resta a crítica à Pastora por deixar de convidar a sacerdotisa do Terreiro para que vá, também, à sua Igreja e celebre aos orixás, vodunsis ou inkices.
Outra questão, de essencial relevância e até então ignorada, é a manifestação  das lideranças pretas neopentecostais a respeito da discriminação racial. Almejo conhecer o que pensa a Prª. Ana Lúcia acerca da maldição que paira sobre a África, os africanos e seus descendentes ao redor do mundo – interpretação recentemente publicizada pelo também Pr. Marco Feliciano e defendida pela maioria dos evangélicos.
O que torna essa manifestação da Pastora Ana Lúcia interessante, é o fato de ela assumir publicamente sua origem africana e, ainda, ressaltar que foi vítima de racismo, relatando inclusive que vizinhos seus no bairro de Coelho da Rocha, na Baixada  Fluminense, chamavam os membros da sua família de  “Planeta dos Macacos”.
Diante disso, entendo, que a luta contra a discriminação racial tem que surgir de todas as frentes, englobando todos os grupos afetados pelo racismo. Assim, não se pode querer desprezar a importância de milhões de evangélicos pretos por causa da opção religiosa. Acredito que a consciência e respeitabilidade pelos cultos de matrizes africanas surgirão quando os pretos evangélicos descobrirem que não podem se “livrar” da abençoada herança africana. Porque quando cultuam a África se manifesta neles através dos cânticos, danças e manifestações espirituais.

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