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2 de Julho: a independência está por vir.

ImagemOs laços formais de dependência política que nos unia a Coroa portuguesa foram quebrados com a proclamação da independência nas primeiras décadas do século XIX. Num episódio por demais conhecido da grande parte da nossa população, o então príncipe-regente declararia o rompimento dos laços que ainda nos ligava ao governo português. Mas ninguém morreu, nem a independência aconteceu. O lema “independência ou morte” ficou, assim como hoje, para o príncipe regente e seus súditos.

O tradicional 07 de setembro, como ficaria gravado no imaginário brasileiro, contudo, deve ser visto com as devidas ressalvas que se fazem imprescindível a qualquer pessoa que busque perceber e analisar os fenômenos além daquilo que superficialmente nos é apresentado. “Nem tudo é o que parece ser”, e isto óbvio, tanto ontem quanto hoje.

 Com a proclamação da independência- digam-se mais uma vez: de natureza política – os problemas econômico-sociais que afligiam a maioria da nossa população continuaram a existir, ressaltando-se a manutenção das mesmas estruturas que sustentavam o espírito dominador e opressor da Metrópole sobre a sua Colônia aqui na América como a escravidão, abolida 66 anos depois, último recurso na tentativa de salvação do Império ante a proclamação da República.

Por outro lado, a proclamação da independência tornou mais aguda com os conflitos internos envolvendo brasileiros e portugueses, e que somente viriam finalmente a ser aplacados com a participação dos baianos no tradicional dois de julho de 1823, quando as nossas forças conseguiram vencer as tropas portuguesas. Concretizava-se na Bahia a verdadeira independência do Brasil, com a participação decisiva do povo do Recôncavo Baiano, primordialmente Cachoeira, São Francisco do Conde e Santo Amaro da Purificação, baluartes nas lutas pela independência com intensa participação popular e lideranças negras que protagonizaram o marco de 1823, antecipado pelos movimentos de libertação colonial como a Revolta dos Alfaiates (Bahia, 1798-1799) e da Sabinada (Bahia, 1837-1838), contradizendo a omissa historiografia oficial sobre a participação do povo negro na luta pelos direitos humanos no Brasil. Segundo a professora Joseane Maia Santos Silva [diálogo, ano XIII, nº 49] “apesar de ser considerada massa escravizada indispensável ao enriquecimento das classes abastadas, o negro não foi passivo e muito menos resignado durante o período da escravidão, nem tão pouco depois. A procura por cidadania plena é a marca do movimento social negro no Brasil”.

O simbolismo do dia 07 de setembro, entretanto, deve servir para que façamos uma análise dos processos de independência que ainda estão por concluir-se. Num país com quase 200 milhões de habitantes, é inadmissível que a maioria deles seja colocada à margem, à espera das migalhas oriundas das estruturas de poder e que acabam por tentar transformar essa mesma parte da população em figurantes de uma trama, onde os supostos protagonistas auto intitulam-se concessores das dádivas, sendo o povo refém dessas concessões, preso a essas amarras.

 

São Francisco do Conde, ao longo da sua história, tem demonstrado a sua participação na desconstrução do mito do opressor. Foi assim nas lutas que tornaram a Bahia e o Brasil totalmente independentes dos portugueses; tem sido assim na resistência que tem empreendido através da sua cultura, mantendo-a viva através dos tempos; deverá ser assim no cotidiano do seu povo, através de decisões que levem em conta a sua história de lutas, muitas vezes abortada por interesses escusos, que não dizem respeito aos interesses da cidade.

           Os vinte e dois anos de reabertura e redemocratização política, após 21 anos de ditadura militar, não constituíram progressos ou desenvolvimento para a nossa cidade. As formas de opressão perpetuam-se, como se mortos continuassem vivos; como se as chibatas ainda batessem nas nossas costas. São Francisco do Conde é uma cidade de nome forte, de um povo forte, que tem resistido bravamente aos processos históricos, construindo redes de sobrevivência e contrapondo-se as condições adversas que contradizem a lógica de que “o povo não quer nada”.

Diante dos fatos expostos, precisamos repensar seriamente os rumos da cidade, buscando suprimir das práticas políticas nocivas; as formas de opressão e retaliação que tanto compromete o processo democrático, buscando reintegrar São Francisco do Conde no cenário nacional no âmbito da respeitabilidade política e administrativa que ela merece, com novos modelos de gerir a coisa pública, garantindo a todos a possibilidade de construir suas vidas com dignidade e respeito.

São Francisco do Conde, 07 de setembro de 2008.

                                                                                 186 anos da Independência do Brasil/ 185 anos da Independência do Brasil na Bahia.

Antonio Vilas Boas – Historiador e professor de História formado pela UEFS, pós– graduado em Metodologia do Ensino Superior e pós-graduando em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira, com vasta experiência em prática pedagógica e ensino de História. Atualmente é professor da UNEB – Universidade Estadual da Bahia.

Renato Soares – Historiador e professor de História formado pela UCSAL, pós-graduado em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira, militante do Movimento Negro e de gênero, estudioso sobre relações étnico-raciais e legado africano no Brasil. Também estuda sobre a aplicabilidade da Lei 10.639/2003 no currículo escolar – Perspectivas e desafios.                                                                                   

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