Mídia/Pastoral Afro

Jornais brasileiros separam violência e racismo

jornal_impresso_noticiasConfirmando algumas previsões, a pesquisa Imprensa e Racismo: uma análise das tendências de cobertura jornalística, realizada pela ONGANDI – Comunicação e Direitos, sediada em Brasília, analisou as coberturas realizadas por cinco jornais diários de circulação nacional e 40 de abrangência regional ou local, e trouxe surpresas: um jornal de circulação regional, A Tarde, da Bahia, lidera em termos quantitativos o debate sobre racismo, seguido pelo O Estado de São Paulo.

Realizado com apoio das fundações Ford e W. K. Kellogg, o trabalho mostra que durante o período analisado os jornais impressos discutiram racismo, impulsionados, entre outras coisas, pela ação do movimento social brasileiro e, particularmente, do Movimento Negro, com um debate tecnicamente qualificado, embora nem sempre favorável às políticas públicas de combate ao racismo implementadas pelo Estado brasileiro. Além disso, constatou, na cobertura realizada pelos jornais, uma clara desvinculação entre as violências físicas praticadas contra a população negra e o debate sobre o racismo.

FOTO: DIVULGAÇÃO
Veert Vivarta, diretor executivo da ANDI

Para se ter uma ideia da dimensão dessa tendência, entre as 1.602 notícias analisadas pela ANDI, apenas 3,30% citam homicídios ou chacinas contra a população negra. A grande relevância dessa constatação levou a entidade a realizar uma análise adicional sobre as características dos espaços editoriais reservados ao noticiário sobre racismo e aqueles destinados ao registro de homicídios. A pesquisa identificou que esta violência letal, que muita vezes está na capa da publicação ou ocupa espaço grande nas seções ou páginas policiais, geralmente envolve a população negra, porém, sem que essa associação seja feita. A ampla maioria dos textos não identifica o agressor como pertencente a grupamentos populacionais específicos, sendo que os brancos são citados em 1,2% e negros (pretos + pardos), em 0, 7%. Segundo o relatório, nos espaços noticiosos em que se debate racismo, as violências físicas não são suficientemente problematizadas, enquanto nos espaços reservados ao registro de violências físicas não se debate racismo, omitindo-se até mesmo a referência às características socioeconômicas ou étnico-raciais das vítimas mais frequentes desse tipo de ocorrência.

De acordo com o estudo, apenas 0,2% das notícias que traziam uma abordagem racial foram publicadas nas páginas policiais. Nos cadernos/seções artístico-culturais e nos espaços reservados a assuntos de interesse nacional, esse percentual alcançou 12,2%; no noticiário político, foi de 5,6%; e nas páginas econômicas, de 3,5%. “Há uma naturalização: nós não temos racismo, ele não existe”, ironiza o diretor executivo da ANDI, Veert Vivarta, “Lamenta-se que uma pessoa tenha sido morta, mas a explicação para este crime vai ser encontrada em qualquer outra questão, menos em uma que envolva o fato racial. Não estamos propondo que se resuma a isso, mas que se inclua a vertente do fator racial como um dos elementos que explica esse fenômeno.” Segundo Vivarta, é esse um dos aspectos mais perversos do mito da democracia racial, que impede o jornalista de, ao olhar para um fenômeno dessa gravidade, identificar o racismo como um fator a ser tomado em consideração e enfrentado.

TIPO
SEÇÕES/EDITORIAS/CADERNOS/PÁGINAS/ESPAÇOS NOTICIOSOS
%
Citadinos
“Cotidiano” “Cidade”, “Gerais”, “Dia-a-dia”, “Rio de Janeiro”
“Vida e Cidadania”, “Metrópole”, “Minas”, “Direto da Baixada
17,2

DE 1.602 NOTÍCIAS ANALISADAS PELA ANDI, APENAS 3,30% CITAM HOMICÍDIOS OU CHACINAS CONTRA A POPULAÇÃO NEGRA

COTAS: UM DEBATE QUALIFICADO
O relatório final da pesquisa Imprensa e Racismo afirma que um dos indicadores que atestam a qualidade técnica da cobertura jornalística são a abrangência e o nível de abordagem dos textos.

O estudo mostra que, diferentemente das narrativas jornalísticas sobre violência física, centradas, sobretudo nas ocorrências, a maioria dos textos sobre racismo publicados pelos jornais brasileiros é contextualizada (73,9%), o que significa dizer que vai além da exposição de fatos, reunindo elementos importantes à compreensão da problemática. “Questões importantes da agenda da igualdade racial, de enfrentamento ao racismo, entraram na pauta dos veículos brasileiros ao longo dos últimos anos com uma qualidade bastante interessante”, afirma Vivarta.

Segundo ele, foi encontrado nas páginas dos jornais um debate que, além de espaço concreto, físico, contém alguns elementos no processo de construção da notícia, que qualificam a informação fornecida ao público: muitos dados estatísticos, bastante referência à legislação, elementos de contexto, acima da média de outras pesquisas que a ANDI costuma realizar. Isso talvez tenha acontecido por causa da polarização, do questionamento de alguns setores da sociedade brasileira e até da própria mídia. O relatório da pesquisa afirma que este noticiário tecnicamente qualificado ocupa espaços e gêneros narrativos considerados nobres dos jornais e se insere no debate sobre mecanismos de enfrentamento ao racismo, como o sistema de cotas. Boa parte dessa cobertura revela posicionamento contrário ao sistema: 21,5% dos textos sobre o assunto apresentam argumentos radicalmente contrários ao uso desse tipo de dispositivo – o que expõe o caráter ideológico do debate.

AVALIAÇÃO GERAL
%
Favorável
27,1
Contrário
21,5
Favorável e contrário, mas com um claro peso dedicado à primeira opção
5,6
Contráeio favorável, mas com um claro peso dedicado à primeira opção
9,4
Equilibrado: favorável e contrário na mesma proporção
7,6
Não emite opiniões sobre o tema, linitando-se a descrevê-lo
28,8
Total
100

Tabela válida apenas para as matérias com foco em ações afirmaticas e cotas (288)

 

JORNAL LOCAL LIDERA COBERTURA
Ao analisar a presença dos temas relacionados ao racismo nos jornais brasileiros, a pesquisa apurou que os veículos de abrangência nacional (Correio Braziliense, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico) costumam abrir maior espaço a essa discussão. A média encontrada utilizada pela ANDI é de 99,4 textos publicados por jornal, enquanto nos diários regionais/locais foram identificadas 27,6 notícias, em média, por veículo, entre os 45 analisados. Essa tendência é confirmada pelas tabelas apresentas no estudo, porém com duas exceções significativas: o Valor Econômico (nacional), um dos que menos publicaram notícias sobre racismo (19 textos, correspondendo a 1,2% do total da amostra); e o jornal A Tarde (Salvador), o que mais inseriu a temática em seu espaço editorial, com 210 textos coletados no período (13,1% da amostra). Isso significa dizer que, contrariando a tendência geral da cobertura, e diferentemente do verificado nas séries históricas da ANDI, é um veículo regional/local que vem puxando o debate sobre racismo no País, seguido por um meio de comunicação de alcance nacional: O Estado de S.Paulo, com 134 textos (ou 8,4% do total analisado).

FOTO: REPRODUÇÃO DA CAPA

Quando se compara o desempenho quantitativo entre as regiões, verifica-se a liderança do Nordeste, responsável por 24,9% dos textos, seguido pelo Sudeste, com 17,4%. Em último lugar está a região Norte, que responde por apenas 3,9% das notícias analisadas. Outra característica que chama a atenção nesse tipo de cobertura é o baixo desempenho quantitativo dos chamados “jornais populares” nos espaços editoriais em que se debate o racismo: os sete veículos desta categoria que foram analisados respondem por apenas 1,0% do total de textos. O dado ganha maior relevância quando comparado ao alto desempenho quantitativo desse tipo de veículo nas seções em que se noticiam violências físicas.

Com relação ao foco central dos textos, os dados demonstram que o noticiário se concentra na discussão sobre os dispositivos de enfrentamento ao racismo (ações afirmativas e, dentro delas, cotas para ingresso em universidades) e em dados e reflexões sobre igualdade/desigualdade de raça/etnia. A temática da violência ocupa a terceira posição neste ranking – mas com um percentual pequeno, que abarca violências físicas, verbais e de outras formas, uma vez que sob esse conceito foram classificadas matérias sobre violência racial em geral, que não é necessariamente física.

Ações afirmativas e cotas estão presentes em 18,0% de todos os textos sobre o assunto. A pauta da igualdade/desigualdade de raça- etnia responde por 16,5% das notícias, trazendo dados e reflexões sobre a problemática do racismo. O relatório ressalta que esse tipo de conteúdo abriga reflexões gerais sobre o tema em foco, não se detendo em fatos específicos. Já a violência (ou violências) foi mencionada centralmente em apenas 9,3% dos textos que discutem a questão racial, lembrando que todo texto analisado deveria conter uma menção explícita ao universo do racismo não sendo, portanto, contabilizados casos de violência que não fizeram menção específica à população negra. Outras questões importantes, como comunidades quilombolas, acesso a terra (6,9%) e mercado de trabalho (6,2%), também mereceram menor atenção da cobertura.

A ideia de realizar um estudo sobre mídia e racismo começou a ser discutida por organizações do movimento negro e outras entidades da sociedade civil no começo de 2010, em reuniões realizadas na sede da Fundação Ford, no Rio de Janeiro. A ANDI, que até 2011 se chamava Agência de Notícias dos Direitos da Infância, participou desses encontros para os quais foi convidada justamente pela experiência que possui em análise de mídia.

Criada em 1993 com o objetivo de estudar e fazer diagnósticos sobre a cobertura da mídia a respeito dos direitos da infância, a organização desenvolveu nesses anos metodologias que passaram a atrair a atenção de organizações de outros campos da agenda social. Já na virada do ano 2000, ela passou a aplicar essas metodologias em outros temas, por exemplo, a questão ambiental, até que em 2011, diante da nova realidade de trabalhar com vários temas para além da temática da infância, mudou o nome para ANDI – Comunicação e Direitos. “A ANDI foi convidada – explica Vivarta – exatamente pelo seu conhecimento em análise de mídia, e esse tema, de uma avaliação mais detalhada do comportamento da imprensa diante desta agenda do racismo, foi uma das questões que estiveram ali em discussão. A partir disso se caminhou para a construção desse projeto”, informa o diretor. (A íntegra da pesquisa pode ser acessada em www.andi.org.br)

QUANTIDADE DE TEXTOS POR CATEGORIA DE VEÍCULO

VEÍCULOS
%
TEXTOS
JORNAL
TEXTOS POR JORNAL
Regionais/ locais*
69,0
1.105
40
27,6
Circulação nacional
31,0
497
5
99,4

*Aqui está inserida a categoria “Jornais Populares”.

DE 2007 A 2010:
19 TEXTOS SOBRE RACISMO FORAM PUBLICADOS PELO VALOR ECONÔMICO (CIRCULAÇÃO NACIONAL)
210 TEXTOS SOBRE RACISMO FORAM PUBLICADOS PELO A TARDE, DA BAHIA

POSICIONAMENTOS SOBRE O SISTEMA DE COTAS RACIAIS NOS TEXTOS OPINATIVOS

Tabela válida apenas para os textos opinativos com foco em ações afirmativas e cotas (116).

Fonte: revista Raça

Um pensamento sobre “Jornais brasileiros separam violência e racismo

  1. Prezados Senhor@s,

    Sou brasileira e vivo na Espaa, aqui saiu uma convocatoria para projetos internacionais financiado pela prefeitura do municipio que vivo, temos uma associaao intercultural de brasileiros e Canarios/Espanhois e atraves dela podemos solicitar esta financiaao para elaborar um projeto em pases de tercero mundo ou seja tambem podemos tentar para o Brasil e queremos tentar, por isso escrevo para saber se voces tem algum projeto social para empreender pode ser para construir algum espao fisico de produao ou outro com fins sociais.

    Me mandem um numero de telefone para que possa chamar-los e um horario levando em consideraao que aqui sao 4 horas mais que a.

    Asociacin BRASILCAM_NARIAS

    Date: Wed, 29 May 2013 10:28:16 +0000 To: luecyvera@hotmail.com

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