Fatos e acontecimentos/Pastoral Afro

O pilar que sustenta um continente

mulher africanaElas são cerca de 500 milhões, espalhadas pelos 54 países que formam o continente africano. Em diversas áreas, enfrentam, com coragem e sensibilidade, problemas cotidianos que atingem a todos que vivem por lá, homens inclusive. São o esteio de culturas ancestrais, que desejam seguir em frente e se modernizar, com paz, justiça social, desenvolvimento econômico e educação. A política, a vida em comunidade, o comércio, a paz (e a falta dela em muitos casos recentes) têm como principal base de sustentação as mulheres, que se orgulham em lutar para defender seus países e comunidades. Elas, de forma silenciosa, porém verdadeira, estão escrevendo um novo capítulo na trajetória africana.

A história de vida destas mulheres é o fio que conduz o documentário Mulheres Africanas – a Rede Invisível, que estreou em março nos cinemas. O filme centra os depoimentos em cinco mulheres de grande representatividade em seus países: a moçambicana e ativista política Graça Machel; a liberiana Leymah Gbowee, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2011; a tanzaniana Sara Masari, empresária; Luisa Diogo, ex-primeira-ministra de Moçambique; e a sul-africana Nadine Gordiner, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura (1991). Porém, mais do que traçar um perfil destas importantes figuras, o documentário usa a visível trajetória delas para traçar um panorama da atuação de milhões de mulheres que, mesmo anonimamente, fazem a diferença.

É como se todas elas pudessem falar por meio da voz de Graça, Leymah, Sara, Luisa e Nadine. A ideia de contar esta história partiu da produtora pernambucana Monica Monteiro, uma apaixonada pela riqueza da cultura e do povo africano que, desde 2007, desenvolve trabalhos com emissoras de TV em Moçambique e outros países da região. Ela conta que ao conhecer mais o continente e suas características ficou impressionada com a importância da mulher naquela sociedade. “A gente escolheu cinco mulheres e queríamos mostrar como elas chegaram ao patamar em que estão. São poucas vozes femininas no mundo, não apenas na África.” E para esta missão, Mônica convidou o cineasta Carlos Nascimbeni, responsável pela edição e pelo roteiro do documentário. “Quando cheguei, levei um choque porque a África que eu imaginava era outra. Passada a crise inicial, comecei a compreender a vida em comunidade, as semelhanças com o Brasil. Entrei em um processo de entender esse universo que é muito diferente daquele que estamos condicionados a perceber. Foi um grande aprendizado”, contou ele.

Mônica afirma que também aprende a todo momento: “A África me deu muito mais do que eu poderei dar a ela. Ela me ensinou a ser solidária, a ser generosa. Eu aprendo a cada dia com o povo africano. Quero que o documentário possa contribuir na multiplicação dessas vozes e que inspire as mulheres a transformarem o meio onde vivem”, deseja Mônica.

TRAMANDO O TECIDO SOCIAL
Com uma narrativa contada pela atriz Zezé Motta, o documentário, de forma sensível, mostra as distintas nuances que formam a África hoje, algo que transcende o estereótipo da África selvagem, pobre e violenta. Por meio da história destas cinco mulheres, o filme fala de um continente diverso, com características, culturas, religiões, comidas e hábitos que diferem de país para país, mas que em comum têm a força e a determinação da mulher, que, nas palavras da moçambicana Luisa Diogo “sustenta metade do céu”. Impossível não se deliciar com a história, contada por ela, de seus avós. O avô, grande líder comunitário em sua aldeia em Moçambique, aconselhava a todos que o procuravam. Porém, os problemas mais graves ficavam para serem opinados no dia seguinte. Isso porque quem os resolvia, de fato, era a avó de Luisa. Ela sim, a grande conselheira da aldeia.

Difícil também não se emocionar com o relato da guerra na Libéria feito por Leymah Gbowee, que liderou um movimento pacífico que culminou com o fim do conflito armado no país. “O que Martin Luther King, Gandhi e Nelson Mandela fizeram, as mulheres africanas fazem todos os dias em suas comunidades. E isso deve ser celebrado. Somos poderosas”, diz ela no filme.

A importância da educação neste processo de visibilidade das mulheres fica bem nítida nos depoimentos, principalmente no de Graça Marchel. As africanas estão estudando mais, mas é preciso confrontar as tradições e os ritos, não para que elas se acabem, mas que se transformem para que não sejam elementos que impeçam as mulheres, em sua fase adolescente, de seguirem estudando.

Mulheres Africanas – A rede invisível é uma produção estritamente pertinente. Um filme que, além de visto, deve ser sentido porque comprova que o berço da humanidade pode ser também o futuro dela. Coragem e determinação para que isso aconteça, os milhões de guerreiras africanas têm de sobra.

QUEM SÃO ELAS:

Graça Machel
Moçambicana, iniciou sua militância política em Portugal, quando estudava filologia na Universidade de lisboa. Por conta de sua militância política, teve de fugir de Portugal. lutou na guerrilha contra as tropas portuguesas em moçambique, onde conheceu samora machel, com quem se casou. Foi ministra da educação e teve um papel fundamental na reconstrução do país. Possui também intensa militância internacional na questão das criançassoldado e no casamento precoce de meninas. hoje, vive na África do sul e é casada com Nelson Mandela.
Fotos: Divulgação
Leymah Gbowee
Ativista liberiana, responsável por liderar um movimento pacifista de mulheres que acabou com a segunda Guerra civil liberiana, em 2003, e resultou na eleição da primeira presidente mulher do continente africano, Ellen Johnson Sirleaf. em 2011, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua luta pela segurança e pelos direitos das mulheres.
Fotos: Divulgação
Luisa Diogo
A moçambicana era executiva do Banco mundial quando foi chamada para integrar o governo de Moçambique após a Guerra Civil. Passou por diversas funções até chegar ao cargo de primeiraministra. atualmente, é deputada e faz parte da assembleia da república. além disso, fundou em 2011 o Instituto de Desenvolvimento e Empreendedorismo Tiri Pamodzi, que trabalha com associações comunitárias e luta pelos diretos da mulher. durante três anos consecutivos (2005, 2006 e 2007) luisa diogo foi incluída na lista das cem mulheres mais poderosas do mundo, elaborada pela revista norte-americana Forbes.
Fotos: Divulgação
Nadine Gordimer
Escritora sul-africana, com mais de 30 livros publicados em todo o mundo. Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 1991 e da Legião de Honra, da França, em 2007, é ativista política e literária. Ficou conhecida por temas localizados durante o Apartheid, o regime racista da África do Sul.
Fotos: Divulgação
Sara Masasi
Líder empresarial da Tanzânia, um verdadeiro expoente do mundo dos negócios. Em um país muçulmano, é reconhecida e ouvida como uma liderança importante no mundo político e econômico e tratada carinhosamente como “Mama Sara”. Atua também na educação, e propõe como tema fundamental a importância da mulher para o desenvolvimento do país.
Fotos: Divulgação

fonte: revista raça

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