Escola e educação

Da base para o topo

i376965Não é de hoje que pesquisas mostram a mulher negra como membro da base na pirâmide social brasileira. Não é para menos. Em um país onde elas seguem na luta por condições igualitárias em relação ao homem, as negras vivem situação ainda mais preocupante. Dentre as taxas de homicídios que crescem ano a ano, as afrodescendentes permanecem como as maiores vítimas da violência. Quando o assunto é educação, que pode ser re etido em melhores oportunidades de emprego e, consequentemente, em melhores salários, mulheres negras seguem em baixa. No entanto, uma nova geração, aos poucos, está transformando essa realidade e obtendo cargos importantes na construção civil, arquitetura e design.

A engenheira civil Andressa Grazielle dos Santos Teixeira, 30 anos, é uma das pro ssionais que conquistaram seu lugar ao sol em um mercado que se encontra em pleno estado de expansão com a proximidade da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016. “Passar diante de uma obra era uma tortura para mim. Sempre tinha que ouvir gracejos e  ngir ser surda. Ficava super nervosa com a falta de respeito. Hoje, a situação é diferente, pois faço parte da obra. O pessoal que mexeria comigo me olha de forma diferente”, diz.

 

Foto: Roniel Felipe
Após início difícil, a goiana Lorena Silva brilha na cidade grande como arquiteta

 

Foto: Roniel Felipe
Marcela Honório fora das obras: “respeito é necessário, pois os homens vivem nos desa ando

De origem familiar humilde, Andressa conta que, quando criança, já sonhava ser engenheira. Porém, antes dechegar ao departamento de projetos estruturais de uma obra de 10 mil metros quadrados, no município de Resende, no Rio de Janeiro, a paulistana batalhou bastante. “Se eu não fosse aprovada em uma universidade pública, não iria ter o diploma. Eu estudei em colégio público, mas sempre me cobrei bastante.”

Com planos bem traçados, Andressa viveu uma intensa rotina: acordava cedo para trabalhar como operadora detelemarketinge depois rumava ao cursinho. Como o salário era gasto com mensalidades do curso pré-vestibular e auxílio nas despesas do lar, à noite, ela fazia bolos e doces para vender e, assim, complementava a renda. Após muita insistência, conquistou o objetivo tão almejado. “Fui aprovada na Unicamp, mas o curso de Engenharia Civil era em Limeira, no interior. Não pensei duas vezes. Larguei a vida que levava e corri atrás do meu sonho”, relata Andressa, que hoje estampa o diploma de MBA em Gestão de Projetos.

A Técnica em Segurança do Trabalho, Marcela Honório, é outra negra que vivencia a realidade das obras de construção. Moradora de Campinas, interior paulista, ela diz que a escolha da pro ssão veio de forma inesperada. “Fiz algumas pesquisas sobre o ofício que estava em alta em 2007. Acabei me identi cando,  z inscrição para o processo seletivo de uma escola técnica do estado e fui selecionada”, relembra, frisando que na época recebeu mais críticas que incentivos por sua decisão. Após o período de adaptação ao mundo da construção civil, Marcela, hoje com 31 anos, tornou-se experiente a ponto de lidar com o assédio e a relação com homens. “Eu possuo uma comunicação muito boa com os demais trabalhadores. Sempre procuro impor respeito e ser educada. Já me apelidaram de Globeleza em algumas obras, mas levo na esportiva.”

Quando questionadas sobre as maiores di culdades para uma mulher no dia a dia de uma obra, Andressa e Marcela têm opiniões parecidas. “Enfrento os mesmos obstáculos que as mulheres em outras pro ssões. Sempre tenho que provar capacidade e mostrar que a minha feminilidade não vai interferir no trabalho”, explica Andressa, que, mesmo com os materiais de segurança e o macacão, não abandona a maquiagem discretae o brinco.“O maior desa o é estar sempre sendo testada. Como os homens são maioria na área da construção civil, eles testam a minha capacidade”, conclui Marcela que, em quatro anos de pro ssão, jamais conheceu ou trabalhou com engenheiras negras.

Foto: Helbert Coutinho
Letícia Gurgel era uma das poucas designers negras de sua turma

ARQUITETANDO UM FUTURO MAIS DIGNO
Após obter o diploma universitário, Lorena Silva Pereira, como todo recém-formado, saiu em busca de emprego e de uma vida melhor. Nascida e criada em Ipameri, município localizado a quase 200 quilômetros de Goiânia, a tímida jovem foi buscar a sorte em Brasília. Após se esforçar para concluir o curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Lorena esbarrou no machismo em sua primeira entrevista de emprego. “O entrevistador perguntou se eu era casada. Desconversei. Logo em seguida, ele me disse que mulheres bonitas não  cam sozinhas quando trabalham em obras. Fiquei muito desanimada e revoltada com a situação”, recorda.

Após sete anos da fatídica entrevista, a ainda tímida goiana tornou-se uma arquiteta de sucesso. “Estava formada há dois anos e, para minha surpresa, fui aprovada no mestrado em Engenharia Civil da Universidade Federal de Goiás (UFG). Quando estava para terminar o curso, vim para São Paulo fazer alguns trabalhos e, quando dei por mim, já estava completamente envolvida em obras na maior cidade do Brasil.” Com um currículo dinâmico e a participação em projetos de destaque, como a reforma de uma luxuosa loja da Rua Oscar Freire, região nobre de São Paulo, hoje, aos 32 anos de idade, Lorena viaja o Brasil como supervisora de instalações, prestando serviços para uma das maiores lojas de departamentos de roupas e calçados do País. “É um trabalho dinâmico e que dá uma oportunidade maravilhosa de conhecer outros estados. Atualmente supervisiono obras nas cidades de Manaus, Macapá e Marabá”, relata a arquiteta que, além de admirar a obra de Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Paulo Mendes da Rocha, é fã da arte de J. Max Bond Jr., famoso arquiteto negro americano, falecido em 2009.

 

ESSA NOVA GERAÇÃO DE MULHERES NEGRAS, AOS POUCOS VEM TRANSFORMANDO A REALIDADE E OBTENDO CARGOS IMPORTANTES NA CONSTRUÇÃO CIVIL, ARQUITETURA E DESIGN.



A paulistana Kaísa Isabel Santos, 32 anos, é outra arquiteta negra que tem conquistado seu espaço no mercado. Formada pela Universidade Braz Cubas em 2005, Kaísa atua como arquiteta e urbanista na área de legislação, paisagem urbana e questões de reassentamento. Aos interessados pela área, ela adverte: “Para ser arquiteto e urbanista é necessáriobagagem e gosto por atualização. Sem isso, vocêcorre o perigo de estagnar-se emalgum cargo por anos ou serescravo desalários irrisórios e contrataçõesduvidosas.”  Trabalhadora de um ramo no qual a maioria esmagadora é composta por brancos e estudantes oriundos de colégios particulares, ela chama a atenção para uma realidade que costuma vivenciar. “Na Universidade nãohavia outro aluno negro na sala de aula na maior parte do curso. Quando digo que sou arquiteta, algumas pessoas me parabenizam e recebo cumprimentos de mulheres negras que abandonaram os estudos. Sempre digo a elas que nunca é tarde para recomeçar.”

 

DESENHO SOLITÁRIO
Estranhamento. Essa é a sensação que alguns clientes demonstram quando descobrem que a design de interiores contratada é negra. Acostumada a esse tipo de reação, muito comum em clientes com maior poder aquisitivo, a mineira Letícia Carolina Gurgel de Almeida, 27 anos, aprendeu a driblar a situação com jogo de cintura e pro ssionalismo. “Tem gente que acredita que gosto re nado só pertence à classe A. Projetar quando não existe limite orçamentário é muito fácil. O segredo é fazer um projeto bonito e funcional com custo baixo. É aí que o designer da classe média ou baixa mostra toda a sua criatividade e consegue imprimir identidade no resultado  nal”, ensina. Apaixonada pela arte do desenho, mas sem muitas habilidades com o lápis e simpatizante de construções, Letícia se encontrou como design de ambientes. “Gosto muito do que faço. Além do mais, é muito grati cante ver os olhos do cliente brilhando ao perceber que sua casa  cou mais agradável, bonita e prática. O trabalho re ete no bem-estar das pessoas.”

Graduada pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), em 2008, Letícia se vê praticamente sozinha quando o assunto é o número de negros neste mercado. “Dos 40 alunos que entraram no curso, oito deveriam ser negros, de acordo com o edital de cotas. Eu não sou cotista e na minha turma só havia dois negros. Acredito que, ao longo do exercício da minha pro ssão, ainda sobram dedos na mão quando paro para contar quantos designers negros eu conheço”, lamenta. Mas as experiências destas mulheres mostram e comprovam que não há lugar proibido quando se tem talento e oportunidade.

Fonte: revista Raça

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