Mídia/Pastoral Afro

Fé afro-brasileira, em filme.

fé afro-brasileiraNa minha aldeia / lá na Jurema / ninguém faz nada sem ordem suprema…”, com esse ponto de Caboclos, o mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, Ademir Barbosa Júnior, apelidado de Dermes, desde a adolescência, se autodefine como “apenas um aprendiz”. Graduado em Letras na mesma USP, autor de vários livros, conferencista e, atualmente, cineasta autodidata, ele explica: “A postura mais interessante na vida é a de aprendiz.” E é com esse pensamento que ele tem apreendido todas as infomações técnicas necesssárias para produzir seus curta-metragens.

“Ouço orientações e ensinamentos, ouço minha intuição e sigo. As dificuldades – questões emocionais, roubos, acidentes, problemas materiais – são muitas, mas persistimos. É preciso ter, literalmente, a cabeça firme e não ter o ego inflado. Caso contrário, não há Orixá que consiga irradiar sua força benéfica”, explica Dermes, cuja frustração ao assessorar um grupo teatral na montagem do espetáculo Águas da Oxum, quando a equipe de desfez, o levou a pensar na possibilidade de filmar os curtas. “Tem sido uma epopeia, pois todos os envolvidos são voluntários e cada produção tem sido mais intensa, cara e cheia de detalhes. Mas as pessoas desejam se aperfeiçoar e continuar.”

Desta forma, pela Adjá Produções foi feito o curta Águas da Oxum, sobre esse orixá feminino com referências a Oxalá. Depois, criou-se a Bom Olhado Produções, que viabilizou fazerem Mãe dos Nove Céus, que fala de Iansã, numa relação com Oxum, Obá e Obaluaê. E no próximo mês de março deverá ser lançado, pela mesma produtora, Mãe dos Peixes, Rainha do Mar, sobre Iemanjá, e aparecem também a Oxum, a Iansã e a Nanã.

Paralelamente, Dermes está envolvido no projeto de montagem de uma versão teatral da história de Oxum, orixá das águas doces, que ele descreve como “mais lírica, mais poética e livre, até mesmo nos figurinos e no gestual. Diria até menos didática”. E conta que a Cia. Tupinambá, da cidade paulista de Salto, manifestou interesse em montar esse espetáculo.

NEM TUDO SÃO FLORES
Os filmes, segundo o projeto de Dermes, são baseados em iatãs – relatos mitológicos transmitidos oralmente e sobre os quais já existem registros escritos com fontes diferentes e diversificadas -, mas o diretor admite que também lança mão do que poderia ser chamado de “licença poético-narrativa”, para dar um maior conteúdo artístico aos curtas, mas que não interfira na força e no sentido do ita: No caso de Mãe dos Nove Céus, por exemplo, a festa dos Orixás foi substituída por uma festa das esposas de Xangô, com três atrizes, interpretando Oxum, Obá e Iansã.

No entanto, já no primeiro curta, depois do filme pronto, elogiado e de receber convites para exibição em várias localidades do País, houve um desentendimento entre parte do elenco. Alguns membros da equipe, inclusive o Dermes, abandonou a Adjá e criou a produtora Bom Olhado. O diretor passou a usar, então, o seguinte lema: “Se alguém quiser queimar seu filme, que faça um mais bonito!” Por conta disso, considera seu primeiro curta “um balaio (oferenda) para Oxum. Ele já foi entregue e muito bem entregue.”

Em compensação, o filme sobre Iemanjá ganhou uma participação de luxo: um depoimento exclusivo de Leci Brandão. A cantora-deputada fala sobre a importância da participação social do “povo de santo”, da lei de sua criação que institui o Dia de Iemanjá (hoje integrado ao Calendário Oficial do Estado de São Paulo), de como os orixás são presentes em sua vida, entre outros temas. “Emocionado e grato, Dermes ressalta que o carisma, a simplicidade e a humildade, são legítimos nela.”

Se no primeiro filme o elemento masculino não aparece (é apenas simbólico), no seguinte, Mãe dos Nove Céus, essa concepção foi mudada com a introdução ao orixá Obaluaê. Mas isso não se tornou uma regra, pois em Mãe dos Peixes, Rainha do Mar foi retomada a linguagem anterior com o elemento masculino sendo mostrado apenas simbolicamente. No próximo curta, conforme revela o diretor, o orixá masculino estará em primeiro plano, pois será um filme sobre Xangô.

Ninguém tem dúvida sobre o quanto é alto o custo de se produzir cinema, mesmo que seja um curta. Por isso, além de trabalhar sem remuneração, a equipe toda contribui para bancar os gastos. Todos são parceiros e quem não contribui diretamente com dinheiro, providencia transporte, alimentação durante as filmagens, criação e elaboração dos figurinos, objetos de cena, captação e edição das imagens em digital, além, claro, dos custos da festa de lançamento. Técnicos doam seu conhecimento e tempo. Enfim, tudo é compartilhado voluntariamente, da concepção à distribuição. Isso sem contar que os apoiadores doaram material, cederam espaço para locações, estúdio e edição e outros mais. E para quem pensa que se trata de uma dedicação por motivos religiosos, Dermes garante: “Nem todos são umbandistas ou candomblecistas. Alguns são músicos, outros têm formação em teatro e há quem está ouvindo falar de Orixá pela primeira vez. Mas todos se encantam com os itãs, com os figurinos, o gestual e topam a parada.”

Aos interessados pelos curtas em DVD, o diretor avisa que eles são vendidos e enviados pelo correio, o que ajudará no ressarcimento dos gastos. Os interessados podem obter mais informações pela página de Ademir Barbosa Júnior, no Facebook.

CAMINHADAS POR VÁRIOS CAMINHOS
Ex-seminarista salesiano, a dijina (título) de Dermes no candomblé de Angola, onde foi ogã, é Tata Obasiré, que pode ser traduzido por “rei da brincadeira” – nessa linha do candomblé, Tatá também pode significar “pai” que, no candomblé de Keto, é “Baba” -, segundo ele, porque é muito brincalhão e descontraído. Hoje ele é filho da Tenda de Umbanda Caboclo Pena Branca e Mãe Nossa Senhora Aparecida. Porém, além da formação acadêmica, também é terapeuta holístico, mestre em Reiki, tarólogo e numerólogo. Indagado se todas essas atividade não acabam se tornando conflitantes, Dermes nega.
“Em tudo o que faço, seja na área acadêmica, na produção literária, nas terapias, na religião e na espiritualidade, enfim, o faço com método, cronograma, disciplina, como tem de agir um pesquisador. Creio que o eixo central de todas as atividades é esse”, afirma.

Ele também mantém uma coluna sobre espiritualidade no site Mundo Aruanda e diz estar sempre aberto para o diálogo ecumênico e inter-religioso.

O produtor faz questão de apontar o que a Umbanda e o Candomblé têm em comum: “O culto aos Orixás, o respeito à natureza, a consciência da força da família de santo como núcleo social, a prática do bem, da caridade e o respeito ao livre-arbítrio.” Por isso, já lançou os seguintes livros sobre a temática: Xirê: orikais (orikis em forma de haicais); Curso Essencial de Umbanda – cujo título original era Umbanda: a Bandeira de Oxalá -, e O Essencial do Candomblé. Neste mês, será lançado Para conhecer a Umbanda. “Todos procuram apresentar a Umbanda e o Candomblé, respeitando-lhes a diversidade de formação e seus fundamentos.” Se nas obras ele se mostra aberto à amplitude de princípios religiosos, admite que, na prática, segue os fundamentos da casa de santo da qual é filho.

Paralelamente, Dermes organiza o Fórum Municipal das Religiões Afro-brasileiras de Piracicaba, que atualmente conta com o apoio do Conselho Municipal de Desenvolvimento e Participação da Comunidade Negra, recém-criado e eleito, do qual faz parte. O fórum reivindica a criação do Dia Municipal de Oxum, a ser celebrado no 4º domingo de maio. “Também pretendemos, coletivamente, conquistar um terreno próprio para os cultos das religiões afro-brasileiras, legalizado e mantido como reserva ecológica”, explica, afirmando ainda que há outros projetos que circularam individualmente ou foram abandonados, mas que, com a força do coletivo, têm mais chance de serem realizados.

Voltando a falar do filme Mãe dos Peixes, Rainha do Mar, Dermes revela que a primeira vez em que ele viu o mar, ainda criança, foi numa festa de Iemanjá, levado por sua tia Nair, dirigente espiritual do antigo terreiro de umbanda Caboclo Sete Flechas, em Piracicaba, e por outra tia, a Luísa”. Depois de acreditar que tinha vocação sacerdotal, encontrou eco para sua religiosidade e ritmo no candomblé, no Ilê Iya Tunde, de onde saiu Ogã para se tornar filho do terreiro de umbanda do caboclo Pena Branca. Segundo ele, ambas casas dirigidas por mulheres fortes e guardiãs dos saberes e fundamentos dessas religiões de matriz africana. Agora, Dermes volta ao mar para homenagear sua “rainha”, por meio da arte cinematográfica. “Impossível não estabelecer um elo entre aquela primeira visita e esta, e na presença feminina ao longo dessa minha caminhada. Por isso, a essas mulheres muito especiais, o meu amor, minha gratidão e o pedido para que orem sempre por este filho de santo e aprendiz. Axé!”

fonte: revista Raça.

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