Pastoral Afro

Da batina ao fardão!

Dom+Silv%C3%A9rio+1Nascido em 1840, em Congonha do Campo, distrito de Ouro Preto, na época, capital da província de Minas Gerais, Silvério Gomes Pimenta tornou-se padre, depois bispo, arcebispo e, mais tarde, ingressou na Academia Brasileira de Letras. Foi o primeiro arcebispo negro do Brasil e também o primeiro membro do alto clero brasileiro eleito imortal da ABL. Segundo seus biógrafos, o pai, Antônio Alves Pimenta, teria origem lusitana e a mãe, Porsina Gomes de Araújo, africana. Vale lembrar que a Lei do Ventre Livre, que garantiu a liberdade aos filhos de escravizadas, só foi assinada em 1871. O que nos leva a concluir que ou ele não tenha nascido livre ou a mãe já fosse alforriada.

O pai morreu quando ele era muito pequeno e Porsina com seus filhos viviam em estado de miserabilidade, conforme Silvério relatou numa conferência episcopal internacional: “… às angústias da pobreza, e não qualquer pobreza, senão uma indigência, na qual correram parelhas a fome, a nudez e o desagasalho”.

Aos nove anos foi trabalhar no comércio e, a pedido de um tio paterno, foi admitido no colégio lazarista local. O mesmo tio conseguiu que o bispo de Mariana, Dom Antônio Ferreira Viçoso, Conde da Conceição, se tornasse padrinho de crisma do sobrinho e que o admitisse, aos 14 anos, no seminário da mesma ordem, uma vez que o colégio havia encerrado suas atividades. Dois anos depois, o aluno começou a dar aulas de latim naquele mesmo seminário, além de trabalhar como ajudante de um sapateiro da cidade. Tornou-se também professor de Filosofia e de História Universal. Dom Viçoso foi quem o ordenou, aos 22 anos, na matriz de Sabará, e também tomou uma série de decisões que o ajudaram a evoluir na carreira sacerdotal.

SILVÉRIO FOI RECEBIDO EM AUDIÊNCIA PELO PAPA PIO IX, QUE INDAGOU SOBRE A LÍNGUA QUE UTILIZARIAM PARA CONVERSAR. “EM LATIM, OU GREGO, HEBRAICO, FRANCÊS OU ALEMÃO…”. ENTUSIASMADO, O PONTÍFICE O CONVIDOU A FAZER O SERMÃO DE UMA MISSA NO VATICANO. SURPRESO COM SUA ELOQUÊNCIA E CONHECIMENTOS TEOLÓGICOS, UM CARDEAL TERIA COMENTADO EM LATIM: “NIGER, SED SAPIENS!” (NEGRO, PORÉM SÁBIO!).

NEGRITUDE E SABEDORIA
Logo após a ordenação, Silvério foi enviado a Roma, na companhia do padre João Batista Cornagliotto, com quem foi recebido em audiência pelo papa Pio IX, que indagou sobre a língua que utilizariam para conversar. E o papa se surpreendeu com a resposta: “Em latim, ou grego, hebraico, francês ou alemão…”. Entusiasmado, o pontífice o convidou a fazer o sermão de uma missa no Vaticano. Surpreso com sua eloquência e conhecimentos teológicos, um cardeal teria comentado em latim: “Niger, sed sapiens!” (Negro, porém sábio!).

Ao retornar ao País, Silvério ocupou vários cargos religiosos até ser sagrado bispo titular de Cámaco e também assumiu o cargo de bispo auxiliar de Mariana, em 1890. Foi o primeiro religioso a se tornar bispo, no País, após a proclamação da República. Em 1906, a diocese de Mariana foi elevada a arquidiocese e novamente ele foi pioneiro: desta vez o primeiro Arcebispo negro do Brasil. Não lhe faltaram inimigos, principalmente, que o caluniaram com acusações amparadas tanto na cor de sua pele, quanto em sua origem paupérrima. Contam que durante uma visita à basílica de Nossa Senhora de Lourdes, na França, o pároco local o impediu de ingressar na igreja. Informado de que estava diante de um arcebispo brasileiro, o vigário sentiu-se na obrigação de pedir-lhe perdão pela atitude racista.

No ano que se tornou bispo, começou a escrever uma célebre série de cartas pastorais, que só se encerrou ao morrer, em 1922. Antes disso, porém, já havia publicado algumas obras como O papa e a revolução, sermões (1873); A prática da confissão, estudos de moral e dogma (1873); D. Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana, Conde da Conceição, biografia (1876); e Peregrinação a Jerusalém (1897).

Graças ao talento literário, foi eleito, em outubro de 1919, para ocupar a cadeira 19 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono era Joaquim Caetano da Silva e que estava vaga com falecimento do escritor Alcindo Guanabara. Desta forma, ele se tornou novamente pioneiro, pois foi o primeiro prelado brasileiro a ingressas na ABL. Depois dele, ocuparam também cadeiras naquela academia o arcebispo D. Francisco de Aquino Correa, o monge beneditino D. Marcos Barbosa e o arcebispo D. Lucas Moreira Neves.

Além das atividades pastorais e dos livros publicados, Dom Silvério também foi jornalista e criou alguns periódicos, nos quais, ao lado do noticiário e dos ensaios cristãos, colocava suas poesias e combatia o sistema escravocrata:
“A escravidão, encarada pelo lado dos costumes, é vulcão a deitar torrentes de imoralidade no país onde existe. […] Ajuntem-se mais as tentações continuas entre senhores e escravas, achando aqueles que o domínio pleno lhes dá direito ao abuso e à violência, e diminuindo nestas a sujeição às forças para a resistência; ajuntem-se a cobiça dos donos interessados, e talvez empenhados nas desordens das escravas, porque com frutos criminosos aumentam a fazenda e a riqueza, e faremos idéia de quão poderosa agente é a escravatura para estragar os costumes de um povo […] Acostumam os ânimos das crianças e dos adultos com os escândalos, desata-lhes o pudor, e os dispõe a praticar sem pejo o que viam sem reprovar desde os mais tenros anos. Donde procede ser o Brasil um dos países, em que menos se estranha a imoralidade pública…”

É óbvio que os escritos de Dom Silvério Gomes Pimenta transbordam moral católica apostólica romana, porém, ao analisá-los sob a ótica de nossa história político-social contemporânea, não resta dúvida de que ele tinha razão ao apontar a escravidão como corruptora dos costumes brasileiros.

fonte: revista raça!

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