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Debate inacabado

raçaDocumentário Raça, de Joel Zito Araújo e Megan Mylan, cumpre bem o papel de captar a questão racial no Brasil. O desafio é conquistar o público e fazê-lo refletir

Joel Zito Araújo é um dos maiores cineastas brasileiros, principalmente ao abordar questões de gênero e, mais ainda, a racial, nitidamente intencional em suas obras. Foi assim em O efêmero estado, União de Jeová (1999), história de Udelino de Matos, homem que tentou formar um estado camponês no norte do Espírito Santo na década de 1950 com a população majoritariamente negra. Em 2001, A Negação do Brasil jogou luz sobre a invisibilidade do negro na dramaturgia brasileira (o filme, com pesquisa primorosa do cineasta, virou um livro referência no assunto). Em 2004, Filhas do Vento fez história, ganhou vários prêmios, entre eles, oito Kikitos em Gramado. No elenco, atores experientes como Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Léa Garcia e Zózimo Bulbul dividem com outros jovens e promissores talentos (entre eles, Taís Araújo, Thalma de Freitas e Rocco Pitanga), personagens cheios de nuances, ricos em suas construções e bem diferentes daqueles estereotipados e ‘reservados’ a atores negros. A abordagem gira em torno do amor e de conflitos familiares, retratando dramas femininos comuns a qualquer mulher, mas acentuados pela sombra do racismo e da escravidão.

Em 2009, com Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado, Joel Zito botou o dedo na ferida em um assunto até muito explorado pela mídia: o turismo sexual nas regiões Norte e Nordeste do Brasil e, como consequência, a pedofilia e o racismo -, mas que ganhou uma conotação mais humana do diretor.

Com currículo enxuto, mas extremamente respeitado e premiado, ninguém melhor que Joel Zito para explorar, de forma mais direta, a questão racial no Brasil nos últimos anos. O documentário Raça (produzido em parceria com a premiada documentarista norte-americana Megan Mylan) apresenta temas que se completam, especialmente em relação à política: a “batalha” de dez anos até aprovação do Estatuto da Igualdade Racial no Congresso Nacional; a legitimidade quilombola e o respeito às tradições e culturas negras, e a invisibilidade do negro nos meios de comunicação pela ótica da criação da TV da Gente, canal de televisão cuja maioria dos profissionais era negro.

Cada um dos assuntos abordados tem seu personagem principal, acompanhados pela produção do filme entre 2005 e 2011. No conjunto da obra, os três pilares atestam com clareza as muitas conquistas da população negra brasileira nas áreas da educação, da cultura, da política e da religião. Mas, se analisados isoladamente, deixam no ar alguns questionamentos pela forma como cada personagem é colocado e, principalmente, entendido pelo público.

A LUTA PELO ESTATUTO, PELO DIREITO E PELA VISIBILIDADE

Os esforços do senador Paulo Paim – autor do projeto original do Estatuto da Igualdade Racial – para que o mesmo fosse aprovado é um dos pontos altos do filme. Na mídia em geral, o assunto sempre foi tratado em notas de rodapé, portanto, vale muito acompanhar os meandros dessa negociação política, algo que Joel Zito e sua equipe tiveram o privilégio de registrar. “Eu não quero nada.
Só deem oportunidade para um povo que foi sempre excluído. Só quem é negro sabe o quanto que é difícil essa caminhada”, diz Paim, com ênfase, em uma de suas falas marcantes reproduzidas no documentário. Destaque também para as cenas de bastidores, das conversas ao pé do ouvido entre os envolvidos e dos calorosos discursos que deram o tom para a aprovação do Estatuto. Chama a atenção algumas aparições do então senador Demóstenes Torres (contrário à discussão) e, mais ainda, a fala sem noção – prontamente rebatida por Paim – em que Demóstenes afirma “que a miscigenação brasileira não ocorreu pelo estupro das mulheres negras na época da escravidão, pois tudo era feito de forma consensual.”
O recorte é, sem dúvida, uma ótima oportunidade de vermos um político sério e combativo em pleno exercício de sua profissão. Coisa rara nessa esfera…
Do outro lado da luta por igualdade e respeito, está Miúda dos Santos, neta de africanos escravizados, moradora do Quilombo de Linharinho, no Espírito Santo, outra personagem do filme Raça. A briga por lá, diretamente falando, é contra a poderosa Aracruz, do ramo de celulose.
A empresa, desde a década de 1970, vem invadindo as terras do Linharinho, limitando o espaço para a cultura, a prática religiosa de matriz africana e costumes tradicionais.
“Ficamos confinados”, relembra Miúda em trecho que mostra a preparação e a execução de um protesto quilombola em uma rodovia. Com a estrada fechada, fica fácil perceber pela lente da câmera o quanto surpresos ficam os motoristas ao saberem o real motivo do protesto. Algo desconhecido e até legítimo para muitos, desde que possam logo acelerar seus carros e seguir em frente. Mas a questão quilombola é mostrada no documentário com a importância que merece ter. Cenas da terra, da simplicidade do povo, da dança e da religiosidade afro-brasileira dão o tom da legitimidade (insisto na palavra) do tema que, diga-se de passagem, avançou em termos de direito, preservação e demarcação de terra nos últimos anos.
A invisibilidade do negro na mídia vem pela figura de Netinho de Paula e os bastidores da criação de seu canal, a TV da Gente, mas que teve vida curta. No entanto, é possível perceber, principalmente nas imagens da inauguração do canal, a emoção da comunidade negra pelo pioneirismo da iniciativa. As lágrimas da veterana Zezé Motta chamam a atenção. Muitos parecem nem acreditar naquilo. Mas a importância do assunto se perde um pouco ao amarrar tal conquista no visível deslumbramento de Netinho diante de seu feito. As cenas do hoje titular da Secretaria de Igualdade Racial de São Paulo, em visita aos Estados Unidos, e também em um de seus shows culpando os “brancos” pelas dificuldades que a TV da Gente já apresentava, são, no mínimo, desnecessárias e provocativas, porém, do ponto de vista de Joel Zito, podem ter sido intencionais.

FOMENTO NECESSÁRIO
Esses três assuntos que permeiam o documentário Raça, mostrados e misturados sem roteiros em cortes e definições de cenas feitas por quem realmente sabe de cinema, são o trunfo da obra que, creio, não se propõe a ganhar prêmios e menções honrosas. Em suas produções, Joel Zito tem como marca principal mexer com a cabeça de quem as vê, provocar questionamentos, colocar a sociedade em movimento pensante e contínuo diante de assuntos históricos e polêmicos. Com Raça não será diferente! Vou torcer muito para que o filme ganhe a visibilidade que merece, que conquiste muitas salas de projeção, que seja exibido nos quase 300 festivais de cinema que temos por ano no país, que ganhe destaque e que faça o mesmo ‘barulho’ dos blockbusters enlatados e das comédias pastelões que hoje dominam o mercado cinematográfico e que repercutem nas ruas. Na primeira exibição do documentário Raça, realizada no Cine Odeon, na Mostra Prémiere Brasil do Festival de Cinema do Rio de Janeiro, a casa estava cheia. Foi bacana ver olhos atentos na telona em busca da visibilidade de sua gente, de sua história, de suas raízes… Bem, no final da sessão, merecidos aplausos ecoaram pela sala, mas um ponto me deixou inquieto. Netinho declarou que o filme “era o primeiro reality show negro do Brasil”, afirmação que veio acompanhada de mais e mais aplausos. A simples definição desses programas, já popularizados por aqui como algo de gosto duvidoso, já soa em minha cabeça como um grande oba-oba. A obra de Joel Zito passa longe desse conceito. Não é reality, é debate! Não é diversão, é informação! E quero crer que esse rico material mostrado por meio da magia do cinema possa sim fomentar, de forma mais efetiva, a discussão racial e social no Brasil (principalmente entre os jovens) e, de quebra, limpar algumas poeiras políticas e empresariais que foram escondidas debaixo do tapete.

fonte: Raça

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