Candomblé

Meninas de Axé, Jovens contam sua realidade dentro e fora do candomblé

menina do axéLetícia Paola dos Santos tem 17 anos e há onze participa de religiões de matriz africana. Primeiramente com a umbanda, influências da mãe e do irmão, e há dois anos, é adepta do candomblé. A jovem é “abian”, designação de quem ainda não deu obrigação na religião, o que ela pretende fazer até o fim do ano. Letícia faz parte do terreiro, ou roça (como dizem os adeptos) Recanto de Oxalufan.

Estudante do ensino médio no período noturno, a jovem dá os primeiros passos rumo ao sonho de cursar uma faculdade de Direito. Ela conta que as atividades desempenhadas no terreiro não atrapalham sua rotina normal, como pensam outros jovens. “Adoro sair com os amigos para conversar e me divertir. Neste momento estou mais focada nos estudos, mas adoro dançar, ir às festas como qualquer um dos meus amigos que são adeptos de outras religiões. Sou uma pessoa muito brincalhona, que interage rápido e faz amizade com facilidade.” Na prática, a religião nunca a impediu de nada. “Sempre trabalhei, estudei e isso nunca me atrapalhou dentro da minha religião, sempre soube dividir as coisas, na hora da risada, na hora de fazer brincadeira, eu estou sempre ali, mas, na hora de fazer minhas obrigações dentro do ilê, sou uma pessoa séria”, afirma.

Letícia entrou na religião por influência da família. Cresceu dentro das religiões de matriz africana. No início era a umbanda. Foram nove anos acompanhando e participando com a mãe, que sempre esteve ao seu lado e lhe deu muita força. Depois, por incentivo do irmão, que é ogã, passou para o candomblé. Seus orixás regentes são Iansã com Ogum, que ela respeita e demonstra um amor incondicional. “Eu amo minha mãe Iansã e meu pai Ogum, faço tudo por eles, tenho um amor enorme pelo meu santo, pela minha religião, eu acredito muito neles, tenho uma fé muito grande e não troco os orixás por nada nesse mundo”, diz.

“NUNCA LARGUEI OU DEIXEI DE LADO A MINHA RELIGIÃO POR CAUSA DE NAMORADO PORQUE, SE ELE ME CONHECEU ASSIM, TEM QUE FICAR COMIGO DO JEITO QUE EU SOU. NÃO VOU MUDAR O MEU JEITO E NEM A MINHA RELIGIÃO POR CAUSA DE UM HOMEM” – Letícia Paola

PRECONCEITO E FALTA DE INFORMAÇÃO
Muitos jovens relatam as dificuldades de expor, no espaço escolar, sua religiosidade. Com Letícia não é diferente. Ele não fala muito de sua vida pessoal, pois já sofreu preconceito. “Sei lidar bem com isso, porém, poucas das minhas amigas sabem da minha religião, mas essas respeitam muito”, conta. Em algumas oportunidades, resolveu levá-las para conhecer o candomblé. Umas gostaram e até entraram para a religião. Outras não curtiram, mas Letícia afirma que a experiência foi válida para ambas as partes. “Elas tiraram aquela visão preconceituosa que tinham.” Com relação a namorados, a jovem cita um ditado: Cada um crê naquilo que lhe fortalece, e explica. “Nunca larguei ou deixei de lado a minha religião por causa de namorado porque, se ele me conheceu assim, tem que ficar comigo do jeito que eu sou. Não vou mudar o meu jeito e nem a minha religião por causa de um homem.”Muitas de suas amigas do candomblé já se afastaram da religião por causa dos namorados, porém, depois de um tempo, quando a paixão acaba, voltam decepcionadas a arrependidas. Para Letícia, tanto preconceito não passa de puro desconhecimento. “As pessoas, antes de julgar alguma coisa, precisam saber o que é essa religião”, ressalta.

RELAÇÕES NA UNIVERSIDADE
“Era tudo meio exótico para mim, meu olhar era de estranhamento. No segundo ano do curso de ciências sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR) eu ouvia alguns amigos falando de terreiros em Curitiba e resolvi ir a algumas festas com eles”, conta Andressa Ignácio, 24 anos, yawo no Ilê Ase Aira Kiniba. Filha de Oxum, é um exemplo de jovem que participa da religião a partir dos primeiros passos de uma pesquisa universitária. A aproximação foi pautada na acadêmica. Em 2009, durante uma atuação com contexto político, Andressa conheceu seu atual babalorixá, pai Jorge Kibanazambi. “Foi a atuação política dele e a forma como se expressa ao falar que o tornaram o grande guia nesse processo da minha iniciação. Ele tinha uma sabedoria ao responder as minhas perguntas que conseguiu instigar a minha curiosidade.”

Depois deste primeiro contato, Andressa começou a frequentar e ajudar no ilê, tornou-se a abian da casa (como chamam os adeptos), até se iniciar na religião, em 2010.

Viver no candomblé é aprender a conviver com o coletivo, cumprir funções e obrigações e respeitar os mais velhos. Andressa explica que sua função como yawo faz com que ela contribua com as rotinas de um asé. Auxilia na organização, na cozinha, nos espaços comuns e ajuda a preparar comida de santo. A universitária é uma atuante nas funções políticas do asé, ponto relevante na busca de direitos e combate à intolerância religiosa.

Quando se iniciou no candomblé, os colegas não sabiam, mesmo diante de algumas práticas da religião que são visíveis, por exemplo, o uso de guias e de roupas brancas nas sextas-feiras. Para Andressa, o processo foi tranquilo, ou melhor, quase tranquilo. O cabelo raspado provocou certo estranhamento. Quando questionada, explicava que era uma das ações no processo de iniciação, mas, segundo ela, não houve nenhuma situação de discriminação. Essa aceitação mais tranquila é atribuída ao curso de Ciências Sociais em que, segundo Andressa, é mais natural na busca pelo exótico. “Infelizmente as religiões de matriz africana ainda são consideradas assim, exóticas, e meus colegas estavam mais preparados ou abertos às minhas mudanças de rotina e ao meu comportamento devido à religião”, avalia a universitária que, embora não tenha sofrido discriminação, é consciente da grande luta existente para muitas crianças e jovens em admitir sua religiosidade em ambientes escolares. Como conselho, ela diz que é preciso, em primeiro lugar, manter a fé nos orixás. “Eles sempre nos fortalecem para enfrentar os desafios. Em segundo é preciso ter conhecimento da sua religião e sobre suas práticas. Isso é importante para poder combater a ignorância, que muitas vezes é a mãe do preconceito. E por fim ter conhecimento dos seus direitos, e se for necessário, conhecer os meios legais para enfrentar essas situações.” Andressa é mãe de Lauryn, de um ano e meio e do recém-nascido Wesley. Sobre o futuro dos filhos em relação à religião, ela garante que ambos só serão do candomblé se esta for a vontade de Olodumare. “É claro que meus filhos terão o direito de escolher, mas vão conhecer os princípios da minha religião desde pequenos. Se um dia desejarem, ou os orixás pedirem, serão iniciados. Caso contrário, não. Eles são livres para escolher a religião que os complete e responda as perguntas e dúvidas que tenham. Eu já encontrei a minha!”, reforça.

A MULHER DE ASÉ NA SOCIEDADE
Muitos jovens relatam as dificuldades de expor, no espaço escolar, sua religiosidade. Com Letícia não é diferente. Ele não fala muito de sua vida pessoal, pois já sofreu preconceito. “Sei lidar bem com isso, porém, poucas das minhas amigas sabem da minha religião, mas essas respeitam muito”, conta. Em algumas oportunidades, resolveu levá-las para conhecer o candomblé. Umas gostaram e até entraram para a religião. Outras não curtiram, mas Letícia afirma que a experiência foi válida para ambas as partes. “Elas tiraram aquela visão preconceituosa que tinham.” Com relação a namorados, a jovem cita um ditado: Cada um crê naquilo que lhe fortalece, e explica. “Nunca larguei ou deixei de lado a minha religião por causa de namorado porque, se ele me conheceu assim, tem que ficar comigo do jeito que eu sou. Não vou mudar o meu jeito e nem a minha religião por causa de um homem.”Muitas de suas amigas do candomblé já se afastaram da religião por causa dos namorados, porém, depois de um tempo, quando a paixão acaba, voltam decepcionadas a arrependidas. Para Letícia, tanto preconceito não passa de puro desconhecimento. “As pessoas, antes de julgar alguma coisa, precisam saber o que é essa religião”, ressalta.

A antropóloga Elena Andrei, professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e adepta do candomblé, fez uma análise de como os jovens chegam às religiões de matriz africana. Uma das coisas que percebe em seu ilê (AséÔpoOmin I), que atrai os jovens, são os projetos sociais. Das 100 pessoas que circulam por mês nas festas e no processo dos jogos e obrigações, 40 têm menos de 30 anos, sendo que 1/3 delas tem de três a 11 anos. Outra questão observada por ela é que 10% dos jovens vêm de universidades. “Eles se aproximam para fazer pesquisas e com o tempo abraçam a religião, tornando-se yaôs, ogans e ekedis (funções do candomblé). Veja outros pontos interessantes:

– Alguns jovens vêm ao asé pela própria família da yalorixá ou babalorixá. Se, por um lado, a entrada desses jovens na religião é praticamente automática, principalmente quando são crianças (primeiro nos braços das mães, depois atraídos pela música, pelos toques e vestimentas), quando crescem, se reconhecem como parte da mesma cultura de todos os outros jovens e sofrem a atração pela moda, pelos comportamentos “descolados” que, muitas vezes entram em choque com a realidade familiar e religiosa que estavam acostumados;

– Alguns se afastam do processo religioso – ainda que mantendo os fortes vínculos familiares – vivendo em dois mundos ao mesmo tempo. Para estes jovens, o choque entre a tradição ancestral e a pós-modernidade é muito forte, provocando, muitas vezes, profunda angústia (como acontece, porém, em todas as culturas tradicionais, nos tempos atuais);

– Muitos jovens vêm da Universidade, seja em função de alguma observação de cunho antropológico ou por curiosidade pessoal;

– Crianças e jovens que são trazidos pelas iniciadas mais antigas, e moradoras do bairro tendem a fazer parte do ilê pela proximidade;

– A não ser nos casos em que a iniciação é necessária por risco de doença, sua inclusão é mais branda. A maioria participa também de projetos sociais e culturais, formando, com as crianças da comunidade, um grupo que se sente menos pressionado e mais livre para escolher, em termos pessoais, se permanece na religião ou se vai buscar outras opções;

– Não é incomum que algumas dessas crianças frequentem as atividades e até as festas, mas se identifiquem como católicas, fazendo até com que os horários das atividades levem em consideração a hora do catecismo;

– Mesmo que a yalorixá ou babalorixá tenha conquistado a comunidade, a maioria das crianças e jovens não se atrevem a dizer nas escolas que é de religião de matriz africana, por medo de serem ofendidas ou sofrerem alguma espécie de bulliyng;

– Professores e diretores das escolas (apesar de todos os trabalhos desenvolvidos) ainda têm atitudes profundas e, às vezes, agressivamente discriminatórias. É um preconceito que se soma ao racismo, quando a criança ou jovem é negro(a). Esta atitude é um dos maiores entraves para que as crianças desenvolvam sua religiosidade com a calma e profundidade que precisam, pois o preconceito da escola e o assédio de alguns adeptos de religiões cristãs neo-petencostais provocam uma inquietação e desconforto permanente.

“PARA ESTES JOVENS, O CHOQUE ENTRE A TRADIÇÃO ANCESTRAL E A PÓS-MODERNIDADE É MUITO FORTE, PROVOCANDO, MUITAS VEZES, PROFUNDA ANGÚSTIA – COMO ACONTECE, PORÉM, EM TODAS AS CULTURAS TRADICIONAIS, NOS TEMPOS ATUAIS” – Elena Andrei, antropóloga

EM PORTUGAL…
O candomblé é uma religião brasileira, segundo o pesquisador Nei Lopes, de matriz africana que foi recriada pelos grupos iorubas e jejes vindos do oeste africano, e que hoje começa a ganhar o mundo. Em Portugal, encontramos Raiane Hortêncio Ribeiro, baiana de 19 anos que vive na cidade de Marinha Grande (a capital do vidro portuguesa). Filha de Odé, é chamada de Mãe ekedji de Odé.

A jovem é ekedi (cuida dos orixás no ilê) do terreiro Ilê Asé Alakety Oyá Ladê, e está em Portugal desde 2008. Segundo ela, a participação dos jovens na comunidade candomblecista em Portugal ainda é pequena. “Estamos falando de um país cujas raízes são extremamente católicas. Todo culto fora do catolicismo é considerado por alguns como bruxaria. Por esse motivo, não há grande aceitação ainda do culto pelos jovens daqui.” Para Raiane, é necessário expor mais a religião para que as pessoas passem a ter um pouco mais de amor pelos orixás. O respeito vem por meio do conhecimento. “Percebemos nas festas as pessoas se encantando pelo nosso culto”, afirma a baiana, que garante nunca ter encontrado problemas em conciliar suas funções dentro ilê, a vida social e os estudos em Portugal. “Existe uma grande diferença entre os jovens candomblecistas daqui para os do Brasil.

Em Portugal, somos muito mais discriminados por participar do culto aos orixás. No Brasil, as pessoas enxergam isso com a mente um pouco mais aberta. Aqui, se formos a uma feira popular vestidas de baianas com um balaio de pipocas, por exemplo, é capaz até de alguém chamar a polícia”, relata.

“QUANTO MAIS PRÓXIMOS DO TERREIRO ESTIVEREM NOSSOS JOVENS, MAIOR SERÁ A DISTÂNCIA DELES DO CRIME E DAS DROGAS” – Pai Neto de Oya


A baiana Raiane e Pai Neto de Oya

A FÉ NOS ORIXÁS E A DISTÂNCIA DAS DROGAS
Pai Neto de Oya é o sacerdote do Ilê Asé Alakety Oya Ladê, casa aberta em Portugal e legalizada desde 2006. Ele explica que o culto é igual ao que ocorre em cidades como Rio de Janeiro ou São Paulo, e que a aceitação dos jovens, quando passam a conhecer a religião, é muito grande. Pai Neto destaca também a participação em seu terreiro de, aproximadamente, 20% do público sendo de 15 a 22 anos. “Observo nos jovens que participam do candomblé, que cumprem suas funções verdadeiramente, que eles têm um compromisso mais firme com sua escola e com suas vidas sociais. E eu tenho uma teoria: quanto mais próximos do terreiro estiverem nossos jovens, maior será a distância deles do crime e das drogas”, diz, enfático.

As festas que ocorrem no candomblé de forma periódica são um dos principais atrativos para crianças e adolescentes. “Eles ficam atraídos pelo convite, gostam e ficam. Os garotos, por exemplo, não resistem ao som dos atabaques, ficam fascinados. E as meninas, com as roupas e a beleza dos brilhos, das cores. Após este momento, o amor pelos orixás, pelos ancestrais, conquista.” Ao pedir uma palavra sobre Raiane, pai Neto não faz rodeios. “É um presente de Oyá para mim.”

fonte: revista Raça

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