Fatos e acontecimentos

Copene, o encontro da intelectualidade negra

Fotos: Eli Antonelli

Conferências, simpósios, mesas redondas, pôsteres de iniciação científica, minicursos, oficinas, apresentações culturais e a presença de parte dos maiores pensadores do mundo na temática etnicorracial deram o tom da sétima edição do Congresso de Pesquisadores Negros (Copene), realizado pela Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e Negras (ABPN). O evento impactou a bela Florianópolis. “Estou encantado com esse universo cultural que vi. Quero trazer minha família aqui para conhecer mais”, encantava-se um expositor local, que trouxe suas peças de couro para integrar a feira de produtos durante os cinco dias frios que marcaram o encontro.

E o encanto foi além. Para diversos pesquisadores, o Copene representa uma oportunidade de estar frente a frente com as fontes de pesquisas. Era possível cruzar pelos corredores com Petronilha Beatriz Gonçalvez e Silva, Nilma Lino Gomes e Maria Conceição Evaristo de Brito, além de intelectuais de vários países que trouxeram uma análise aprofundada da temática africana e da diáspora, entre eles, Molefi Kete Asante (um dos maiores estudiosos da atualidade, com mais de 70 livros publicados e cerca de 400 artigos); Robert Lee Adamns, da University de Chicago/EUA; George Eliot Clark, da University of Toronto/Canadá; Boubacar Barry, da University Cheikh Anta Diop/Senegal; Jean-Michel Mabeko Tali, da Howard University, nos EUA; Elikia M. Bokolo, da Universidade de Kinshasa Congo, e Shirley Campel Barr (Costa Rica).

“Estamos criando novos parâmetros para nortear a política pública e fazer com que contemplem nossas perspectivas. Criando uma nova ciência, que é sensível aos nossos sofrimentos, mas que também é sensível aos nossos sonhos”, disse o professor e doutor Paulino de Jesus Francisco Cardoso, coordenador do Copene e atual presidente da ABPN. Ele também comentou a escolha de Florianópolis como sede do evento. “Sempre que falamos em presença africana, pensamos no Rio de Janeiro, na Bahia e em São Paulo, o que é bem importante, mas, o Brasil é muito grande e pensamos em Santa Catarina para integrar e mostrar isso às pessoas. E claro, também o nosso frio”, brincou.

DESDOBRAMENTOS DO CONGRESSO
Com o tema Os desafios da luta antirracista no século XXI, os participantes interagiram não somente em debates e reflexões. Era possível perceber articulações efetivas para que o conhecimento direcionasse para novas políticas públicas. Entre as várias ações práticas, houve reuniões com a SEPPIR e seminário com o Ministério da Saúde. Outra ação em destaque – que faz do COPENE referência de evento dessa natureza – foi sem dúvida a escolha do congresso para a realização de uma importante reunião da Unesco, MEC e especialistas para tratar do 9º volume da Coleção História Geral da África. “O volume está previsto há 50 anos, e este foi o momento de conjunção política ideal para trabalharmos nele. Este encontro em Florianópolis lançou a pedra fundamental para o andamento da obra”, disse o consultor da Unesco, professor Valter Silverio, que acrescentou que a obra sairá em português, contemplando os países de língua portuguesa e, principalmente, levando em consideração o trabalho que os brasileiros vêm fazendo na luta antirracista.

Fotos: Eli Antonelli
Mauricio Pestana durante o debate Comunicação, Mídia e Racismo Hélio Santos e Elisa Larkin

GRANDES HOMENAGEADOS
A sétima edição do Copene homenageou Lélia Gonzalez, professora, antropóloga e ativista política; Vicente do Espírito Santo, ex-funcionário da Eletrosul que se tornou exemplo na luta contra o racismo institucional; Abdias Nascimento (que dispensa apresentações) e Kabengele Munanga, professor e antropólogo da República Democrática do Congo. Todos contribuíram ativamente durante décadas com sua história, sua força e o exemplo de luta no processo antirracista. “Quando cheguei ao aeroporto, fiquei emocionada ao ver o rosto dele no cartaz, espero que a obra que ele deixou seja útil para que as pessoas deem continuidade. O Ipeafro deixa disponível os itens documental dele, e os materiais do Museu de Arte Negra para fortalecer a luta”, disse Elisa Larkin, viúva de Abdias. Kabengele Munanga (único dos homenageados ainda vivo) se aposentou no mês de junho, após 43 anos de sala de aula, mas adiantou que isso não significa que deixará de atuar. “Deixei de dar aulas, mas vou continuar orientandos teses e dissertações na USP. Continuo a frequentar os encontros intelectuais. A participação intelectual sobre a questão negra é para a vida inteira. Fiquei feliz pela homenagem desta grandeza. Estamos evoluindo com novas abordagens, há uma dinâmica e um discurso cada vez mais qualificado.”

REVISTA, RACISMO E MÍDIA
E a RAÇA BRASIL também se fez presente no VII Copene. O diretor executivo Mauricio Pestana integrou a mesa redonda Comunicação, Mídia e Racismo, ao lado da professora Sátira Machado, da PUC/RS. Durante o debate, reafirmou a proposta atual da revista (mais focada em cultura, política e educação), levou reflexões sobre a presença do negro nas redações, contou sua experiência de 30 anos como cartunista e as dificuldades ao longo dos anos na análise de como o negro era exposto em livros didáticos e na grande imprensa. “A visibilidade do negro nas obras didáticas, hoje caminha rumo ao atendimento à lei 10.639/2003”, disse. Pestana também dialogou com o público sobre a representação do negro na publicidade e das mudanças e dos desafios que ainda existem.

UM OLHAR NO FUTURO
A luta antirracista no Brasil e a busca pela valorização da população negra têm alcançado cada vez mais vitórias ao longo dos anos. Ainda falta muito, claro, mas diante desse quadro, a revista RAÇA BRASIL propôs um desafio para alguns especialistas presentes no evento, o de pensar numa perspectiva para daqui a dez anos, no Copene 2022. Veja as opiniões:

“Durante o Copene discutimos a questão da branquidade. Quem é branco no Brasil e como este debate da identidade do branco pode colaborar nas discussões das relações etnicorraciais. Outra questão é que estamos num caminho rumo à criação de uma área no CNPQ. Será uma vitória importante, para isso temos que ter mais programas de pós- graduação. Com a criação da área, teremos maior autonomia, distribuição de bolsas, representações nas instâncias de pesquisa de pós-graduação no Brasil e outras ações.” Paulo Vinicius, da Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Fotos: Eli Antonelli

“Espero que a gente consiga avançar na luta contra o racismo institucional. A ABPN já tem seu reconhecimento, fazemos parte da World Education Research Association (WERA). Em 2022, teremos uma representação bem maior, não mais um ou dois representantes por universidade em postos de decisão, mas, pelo menos a metade. O número de especialistas tende a aumentar cada vez mais.” Petronilha Beatriz Gonçalves Silva, relatora da lei 10.639/2003

“O Copene mexe com as estruturas de pensamentos do sistema de racionalidade e pode contribuir para desarticular este pensamento do poder constituído no Brasil, para criar as possibilidades que cientistas brasileiros encarem o passado e o presente de uma maneira diferenciada. Por exemplo, não se discute racismo no período escravocrata, só depois da abolição, e aí vemos vícios de pensamento e conhecimento que acabam estruturando a criação científica nacional. Espero que em 2022 tenhamos como ouvintes um número significativo de pessoas que estão em postos de comando do país.” Luis da Silva Cuti, escritor e crítico literário

Fotos: Eli Antonelli

“O Copene 2022 vai impactar politica e academicamente a produção do conhecimento do Brasil, prioritariamente nas áreas de ciências sociais e humanas, mas não somente ampliando a área de saúde, tecnologia e engenharia. Junto com a produção já existente, outra com enfoque na questão etnicorracial. Isso vai fazer esta sociedade avançar.”

Nilma Lino Gomes, professora e coordenadora-geral do Programa Ações Afirmativas da Universidade federal de Minas Gerais (UFMG)

fonte: revista raça

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