Candomblé/Escola e educação

“Os Doze Obás de Xangô”, uma história Africana de Justiça!

Assim como o vento que sopra e ninguém vê, o tempo passa transformando tudo, às vezes sem ninguém notar…

O que fica é o que o vento traz, e o tempo nos deixa impressos a sabedoria e o conhecimento vindos de outras épocas, como que trazidos pelo vento…

Foi assim que cheguei nestas terras: trazida pelo vento. Venho de outra época para deixar aqui um relato de minha missão. Vim predestinada: descendente de africanos, nascida em Salvador, escolhida pelos orixás. Chamo-me Eugênia Anna Santos – Mãe Aninha.

Vou contar a todos minha história, que começa muito antes de meu nascimento… Há muitas gerações passadas, em tempos incontáveis, havia uma terra chamada Oyó. Lá havia um rei.

Xangô era rei de Oyó. O mais temido e respeitado de todos os reis. Mesmo assim, um dia, seu reino foi atacado por um grande número de guerreiros que invadiram sua cidade violentamente, destruindo tudo, matando soldados e moradores numa tremenda fúria assassina.

Xangô reagiu e lutou bravamente durante semanas. Um dia, porém, percebeu que a guerra tornara-se um caminho sem volta. Já havia perdido muitos soldados e a única saída seria entregar sua coroa aos inimigos. Resolveu então procurar por Orunmilá e pedir-lhe um conselho para evitar a derrota quase certa.

O adivinho mandou que ele subisse uma pedreira e lá aguardasse, pois receberia do céu a iluminação do que deveria ser feito. Xangô subiu e, quando estava no ponto mais alto do terreno, foi tomado de extrema fúria. Pegando seu Oxê, machado de duas lâminas, começou a quebrar as pedras com grande violência.

Estas, ao serem quebradas, lançavam raios tão fortes que em instantes transformaram-se em enormes línguas de fogo que, espalhando-se pela cidade, mataram uma grande quantidade de guerreiros inimigos. Os que restaram,apavorados, procuraram os soldados de Xangô e renderam-se imediatamente pedindo clemência.

Levados à presença do rei, os presos elegeram um emissário para servir-lhes de porta-voz. O homem escolhido foi logo se atirando aos pés de Xangô. Reclinando-se, pediu perdão.

Humilhando-se, explicou que lutavam, não por vontade própria e sim forçados por um monarca, vizinho de Oyó, que tinha um grande ódio de Xangô e os martirizava impiedosamente. Xangô, altamente perspicaz, enxergou nos olhos do guerreiro que ele falava a verdade e perdoou a todos, aceitando-os como súditos de seu reino.

Foi assim que ele ficou conhecido como o orixá justiceiro, aquele que perdoa quando defrontado com a verdade, mas que queima com seus raios os mentirosos e delinqüentes.

Após o desaparecimento do lendário rei Xangô e sua transformação em orixá, seus sacerdotes se reuniram a fim de perpetuar sua memória. Esses ministros, antigos reis, príncipes ou governantes de territórios conquistados pela bravura de Xangô, não quiseram deixar extinguir a lembrança do heroi na memória das gerações futuras.

Formou-se, assim, um conselho encarregado de manter vivo o culto ao rei de Oyó, organizado com os doze ministros que o tinham acompanhado em terra: seis ao lado direito e seis ao lado esquerdo.

Seis para condenar e seis para absolver.

Esta história eu ouvi desde muito cedo, assim como outras, como, por exemplo, a chegada de meus antepassados aqui no Brasil…

Em suas mãos, sob suas unhas, restava, ainda, um pouco da terra da Mãe África; em seu peito a dor,a solidão, o medo e a incerteza. Em seu olhar o vazio. Atravessando o mar tenebroso rumo ao desconhecido, enfrentando tormentas sob condições desumanas.

Para muitos a vida, longe da terra mãe, já não valia a pena. Os que aqui desembarcaram vieram sob o acalento da mãe do mar. Trouxeram em sua alma a saudade e junto com a saudade um tesouro que ninguém poderia tirar: sua cultura.

Graças aos orixás encontraram forças para suportar tamanha injustiça.

Fonte: Combate Racismo Ambiental

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