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Um rei negro e o cristianismo

O samba de raiz do Grupo Timbó comia solto num botequim, quando alguém me perguntou o nome do músico que tocava o cavaquinho. “Elesbão”, respondi. E a pessoa sorriu e brincou: “Só podia. Ele é ‘bão’, mesmo!”. A piada foi sem graça, mas me fez pensar na origem desse nome. Elesbão é nome de santo, mas não de um santo qualquer. É bastante devotado, principalmente pelos afro-brasileiros, desde os tempos da escravidão. Seu culto, assim como o de São Benedito e de Santa Efigênia, tinha o objetivo de servir de referência e estímulo para os escravizados cultuarem o cristianismo. Vale lembrar que muitos dos escravizados já eram cristãos lá mesmo no Continente Africano e, mesmo assim, a Igreja Católica, por muito tempo, apoiou a escravidão. Duvidava-se, inclusive, que nosso povo tivesse alma. Caso tivesse, seria branca!

Ao contrário do franciscano Benedito, semialfabetizado que exercia funções humildes num convento italiano, Elesbão era um rei etíope no século VI, quando o reino se chamava Axum.

A Igreja Católica garante que era um rei muito fervoroso e caridoso. A devoção a Santa Efigênia, que foi uma princesa etíope de uma dinastia originária da Núbia, faz com que as pessoas levem, no dia 21 de setembro, as chaves de casa para benzer, o que evitaria destruição de sua moradia pelo fogo. Já através da intercessão a Santo Elesbão, acreditam os fiéis, consegue-se vencer as dificuldades para adquirir a casa própria.

Elesbão, em Axum, apoiou o imperador bizantino Justiniano I, que sonhava restaurar o esplendor do antigo Império Romano no Oriente, através da unificação do cristianismo. Enfrentou o rei dos hameritas, Dunaan, convertido ao judaísmo, que decretou o extermínio de todos os cristãos, promovendo um grande massacre. Recebendo os refugiados em suas terras, Elesbão liderou a reação e derrotou o vizinho. Em vez de saborear a aclamação popular, abdicou do trono em favor de seu filho e distribuiu seu tesouro pessoal entre seus súditos. Foi para Jerusalém, onde depositou sua coroa real na igreja do Santo Sepulcro, tornando-se um monge anacoreta, que viveu como eremita no deserto, até morrer no ano de 555. Hoje, esse santo é cultuado principalmente entre as irmandades cristãs negras, em todo o Ocidente e festejado em 27 de outubro.

No Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, há várias imagens de Santo Elesbão, assim como outras tantas de São Benedito, de Santa Ifigênia, de Santo Antônio de Categeró e de Nossa Senhora Aparecida, numa seção dedicada à fé negra no catolicismo. Vale a pena conhecer!

Outros santos negros: São Benedito, Nossa Senhora Aparecida, Santo Antonio do Cetegeró e Santa Efigênia

 

Fonte: revista Raca

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