história

Político: Ser ou não ser?!

Fotos Jonas Lopes

Assim que assumiu a secretaria de cultura do Estado da Paraíba, em janeiro de 2011, Chico César foi convidado para participar de um evento com todos os outros secretários e o governador eleito Ricardo Coutinho. Ele se sentou numa das cadeiras reservadas para os secretários. Um dos seguranças do local se aproximou dele e pediu para que se levantasse, pois aquele lugar estava reservado para autoridades. O recém-secretário empossado olhou para o segurança e, educadamente, disse: “Eu posso até não parecer, mas eu também sou autoridade”, e continuou sentado. Chico não quis revidar o segurança, que para ele apenas reproduzia o que lhe foi passado. “O Brasil vem mudando profundamente depois do governo do Lula e agora com a presidenta Dilma. Até pouco tempo, as autoridades eram herdeiras das “Capitanias Hereditárias”; José Sarney, Fernando Collor de Melo. Mas o feito histórico de ter colocado um pernambucano, caboclo e metalúrgico na presidência da República vem mudando tudo isso. Eu sou negro, feio, não me visto como uma autoridade e tenho o cabelo desgrenhado.
Nesse modelo anterior, eu era tudo, menos autoridade. Depois do Lula tudo isso mudou, e agora o Brasil está cada vez mais parecido com o Brasil”, esclarece Chico César, que responde sobre as críticas que vem recebendo da classe artística em seu estado, as realizações que vem fazendo na secretaria de cultura (antes do governo do Ricardo Coutinho, era uma subsecretaria) e sobre a carreira de cantor (em junho ele irá lançar o DVD Aos Vivos, pela Biscoito Fino, baseado no primeiro CD de sua carreira).
Chico diz, ainda, que é vítima de preconceito por causa da cor da sua pele e da sua aparência. “As pessoas têm que se acostumar com as diferenças. Sou baixinho, negro, feio e me visto com roupas mais extravagantes. Eu não preciso vestir sempre terno e gravata e esconder meu cabelo black para ir a uma solenidade. Sei que muitas das críticas que me fazem não têm legitimidade, outras, no entanto, sei que têm. Antes de ser secretário da Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope) e agora da secretaria de cultura do estado, já era um cara politizado. Sou político agora, mas amanhã não serei mais. Vou estar do outro lado, reivindicando, como eles (a classe artística da Paraíba). Mas volto a insistir; muitas das críticas que me fazem não têm legitimidade, e minha gestão não pode ficar refém dessas críticas.”
A CLASSE AUDIOVISUAL

Fotos Jonas Lopes

Desde que assumiu a recém-criada Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba, em janeiro de 2011, Chico César vem desagradando a classe do audiovisual da Paraíba, que reivindica, entre outras coisas, a retomada e o aumento do valor do edital Linduarte Noronha para realização de curtas-metragens (o paraibano Linduarte, que morreu recentemente, foi cineasta e jornalista, e fez o documentário seminal Aruanda), que foi criado no governo anterior de José Maranhão e teve sua primeira edição lançada durante o governo dele. De acordo com a classe audiovisual, a segunda edição do edital deveria ter saído no ano passado (em setembro de 2011, Chico disse à RAÇA BRASILque a segunda edição do edital Linduarte Noronha iria sair no final do ano, inclusive antecipou para nossa reportagem o valor, que seria de R$300 mil. O valor da primeira edição era de R$ 200 mil). aGORA, Chico César explica que o edital não saiu por causa de problemas com um dos realizadores da primeira edição. “Nós iríamos soltar a segunda edição do Linduarte Noronha, de fato, no ano passado, mas um dos curta-metragista não conseguiu terminar seu filme; ele está atualmente morando na Itália. Decidimos esperar que ele terminasse o seu filme, mas infelizmente ele não conseguiu. Então, vamos soltar a segunda edição do edital, junto com uma caixa com DVDs de todos os curtas realizados da primeira edição do Linduarte Noronha numa solenidade, sem o filme desse realizador.” A classe do audiovisual no entanto continuará insatisfeita com a gestão do Chico César, pois para eles o valor de R$ 300 mil é irrisório para a demanda dos cineastas. “Eles querem que eu aumente o valor, mas o orçamento da secretaria não comporta. Sei que o dinheiro não é suficiente, mas temos que atender outras áreas culturais no estado: a dança, a música, o teatro, a literatura, os eventos, a cultura popular, o artesanato etc”, esclarece. Outro impasse entre Chico e a classe audiovisual é em relação ao Cine São José, em Campina Grande, um espaço histórico que estava ruindo. O cinema está sendo reformado com a assessoria da FUNARTE e da Cinemateca Brasileira de São Paulo, ao custo de R$ 2 milhões. O Cine São José, que se chamará Cine Teatro São José, irá abrigar eventos de cinema e de teatro. “Mas o pessoal do audiovisual quer que o governo de Ricardo Coutinho entregue o Cine Teatro São José para a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) para ser usado exclusivamente por eles. Só que o governador Luciano Coutinho e eu entendemos que o local pode servir tanto para o pessoal do teatro quanto para o do cinema. E não vamos ceder às pressões deles, por não acharmos justa”, esclarece. O município de Paulínia, em São Paulo, tem um teatro que tanto serve para exibição de filmes quanto para peças de teatro e até de óperas e orquestras sinfônicas.

“POSSO SER ATÉ MAIS FELIZ SÓ COMO CANTOR, MAS ISSO ME LIMITA MUITO COMO SER HUMANO, POIS SEMPRE FUI UM SER POLÍTICO”

OUTRAS PENDÊNCIAS

Desde janeiro deste ano, começou uma campanha na imprensa e nos círculos culturais de Fora Chico, que, segundo o secretário, não tem legitimidade. “Eu não posso ficar respondendo notas em jornais toda vez que saí uma. Tenho uma pasta para gerir e vou continuar fazendo até quando Ricardo Coutinho desejar”, diz. Chico, no entanto, reconhece que há muita reivindicações da classe cultural paraibana legítimas, por exemplo, “A Paraíba precisa ser assistida”, da classe audiovisual. Mas o orçamento da secretaria não consegue atender todas essas reivindicações. “A classe artística precisa entender e aceitar que existe o tempo dos desejos e o tempo da realização das coisas. Precisamos ter um pouco de paciência, mas sei que algumas coisas poderiam ter saído antes, mas pegamos um governo quase quebrado”, afirma. O orçamento de 2012 da Secretaria de Cultura da Paraíba é de R$ 5 milhões, sendo que R$ 2 milhões do Fundo de Incentivo à Cultura Augusto ds Anjos (FIC), fundo que, desde 2008, está parado. Mas, segundo o secretário, o FIC será retomado esse ano. “Estávamos aguardando a nomeação do Conselho”, assim como outros projetos da sua secretaria, como o Programa de Inclusão através da Música e das Artes (PRIMA).
A CARREIRA
Desde que assumiu a pasta da cultura do estado da Paraíba, Chico César procura conciliar com a sua carreira de cantor, apesar de reconhecer que ela tem ficado em segundo plano. “Vou lançar esse DVD, Aos Vivos, em junho e depois farei uma série de shows. Não tenho tempo de gravar um CD de estúdio, pois a secretaria me absorve quase totalmente. Tenho que sacrificar meu lazer para fazer shows em outras capitais. Gostaria muito de lançar um DVD do meu CD Francisco Forró y Frevó, que lancei em 2009. Mas, como falei, existe o tempo dos desejos e o tempo para a realização das coisas. Vou esperando”, conclui. Antes de acabar a entrevista, perguntamos se ele se sentia feliz como político. “Posso ser até mais feliz só como cantor, mas isso me limita muito como ser humano, pois sempre fui um ser político”, filosofa.

fonte: Revista RAÇA

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