Escola e educação/história

Brincadeirinha, não. Racismo mesmo!

Minstrel Shows, atores brancos com rosto pintado de preto por uma pasta de carvão ou por cortiça queimada

É como se o porteiro negro de um estabelecimento que barra a entrada de outro negro, atendendo à ordem do patrão branco, deixasse de ser um ato racista. É bem possível que, ao gravar uma música chamada Kong e lançar um videoclipe em que aparece fantasiado de gorila juntamente com Neymar e amigos, o pagodeiro Alexandre Pires o fez por interesse da mídia em minimizar a frase de um humorista de stand up: “King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”. Para ele e para muitos, vale tudo, quando se trata de brincadeira.
Tanto no filme do cineasta nova-iorquino Spike Lee, A hora do show (Bamboozled, 2000), quanto no documentário do mesmo ano do diretor brasileiro Joel Zito Araújo, A Negação do Brasil, o tema “blackface” é sobejamente discutido. Ambos encerram com uma sucessão de imagens de como o cinema americano (inclusive no campo da animação) e as telenovelas brasileiras construíram um estereótipo inferiorizado e ridicularizando os personagens negros, respectivamente, nos EUA e no Brasil. “A máscara que um ator usa está prestes a se tornar seu rosto”, afirma o filósofo Platão. E esse é o rosto que, desde o século 19, os Minstrel Shows americanos – um tipo de teatro popular – impingiram aos negros.
A Cabana do Pai Tomás, com Sérgio Cardoso e Dalmo Ferreira Minstrel Shows: rosto pintado de preto por uma pasta de carvão ou cortiça queimada
Eram atores brancos com a face pintada de preto por uma pasta de carvão ou por cortiça queimada. Em volta da boca, faziam uma larga faixa branca, que seriam os grossos lábios. Faziam movimentos caricatos e uma voz que ridicularizava o falar dos negros, com histórias ambientadas no sul do país, onde o racismo era mais cruel. O primeiro filme sonoro da história do cinema, O Cantor de Jazz, de 1927, com o cantor Al Jolson, usou esse artifício.
Na telenovela brasileira A Cabana do Pai Tomás, produzida pela Globo em 1969, baseada no romance Uncle Tom’s Cabin, de Harriet Beecher Stowe, trazia o ator Sérgio Cardoso no papel-título, além de viver dois outros, um deles o presidente Abraham Lincoln. O negro, nessa novela, não chegou a ser caricato nem ridículo, mas tinha um comportamento extremamente submisso, aqui chamado de “Pai João”.
Sobre a Blackface, que depois dessa fase se utilizou de atores e atrizes afro-americanos interpretando personagens que mantinham esses estereótipos, há um site bastante informativo que todos devemos ler e reler, cujo endereço é www.black-face.com. Vale a pena acessá-lo e conhecer Jim Crow, Zip Coon, Mammy, Uncle Tom, Buck, Wench/Jezebel, Mulatto, Pickaninny, entre vários outros que são exibidos ainda hoje impunemente e até ganharam versões nacionais.
E, de repente, estamos gargalhando, aos assisti-los! E depois nos desculpamos dizendo que foi só brincadeira…
AFRICANIDADE na Educação
FOTO JOÃO MEIRELLES/FOTO MÁRCIO LIMA
Cena do espetáculo Áfricas, do Bando de Teatro Olodum
Era a primeira sexta-feira de 2003, dia dedicado a Oxaguiã, o aspecto jovem de Oxalá. Guerreiro forte, rei de Ejigbo, Oxaguiã é o orixá do dinamismo e movimento construtivo. Seu domínio são as lutas diárias por sustento, trabalho, paz e superação
Oxaguian é o provedor, é o guerreiro da paz. Nunca entra numa batalha para perder, sempre ganha suas lutas e supera quaisquer obstáculos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha tomado posse, em seu primeiro mandato, dois dias antes, na quarta, e na sexta assinou a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira e História da África.
Foi uma grita geral daqueles para os quais nossas crianças brasileiras devem ser educadas apenas com os conhecimentos eurocêntricos, os únicos saberes que têm validade para eles. Mas Oxaguiã estava atento e tomou essa demanda para si. Ainda hoje, 9 anos depois, ouvimos falar na necessidade de implementação da Lei 10.639/03, mas também nos emocionamos com infindáveis iniciativas culturais e artísticas de professores e dirigentes de escolas, Brasil afora, para enriquecer seus alunos com informações e reflexões e respeito à diversidade. A principal queixa dos educadores, nos primeiros momentos, era a falta de material didático e outros que lhes servissem de apoio. Mas havia e, ao que já existia – e não lhes atraía a atenção -, somaram-se e continuam se somando algumas centenas de impressionantes, ricas e belas obras. E o Bando de Teatro Olodum não podia ficar fora desta. Sob a direção de Chica Carelli, o grupo teatral negro baiano criou, em 2007, seu primeiro espetáculo infanto-juvenil, intitulado Áfricas, que conta lendas africanas de uma maneira lúdica, repleta de canto e dança. Histórias, valores e costumes baseados na cultura ioruba. O espetáculo integra o projeto Outras Áfricas. Agora, graças a uma emenda parlamentar do deputado federal baiano Luiz Alberto – antigo militante do Movimento Negro Unificado – o Bando lançou um DVD da peça para ser distribuído em escolas da Bahia que se cadastram no site do Teatro Vila Velha. O DVD vem acompanhado pelo texto da peça, que traz também um excelente material de apoio sobre a História da África em sala de aula.
Mas são só escolas da Bahia? Pois é! O Bando precisa distribuir nacionalmente o DVD de Áfricas. As crianças do Brasil todo merecem conhecer essas histórias de nosso povo. E cabe ao MEC, à Seppir e demais órgãos afins, providenciar para que isso ocorra.
mais que MIL PALAVRAS
Porém, assim como a Etiópia, a Tanzânia é “berço da humanidade”, pois ali foram encontradas as mais antigas pegadas humanas e fósseis, com algo em torno de dois milhões de anos. Lá floresceram povos de cultura Banto e civilizações bastante desenvolvidas no passado.
A Tanzânia de hoje, na África Oriental, é resultante da união dos antigos países Tanganica e Zanzibar. Fica numa região de extremos: em seu território continental montanhoso encontram-se tanto o pico mais alto do Continente Africano, o Monte Kilimanjaro (desafio de corajosos alpinistas), quanto os grandes lagos Vitória e Tanganica, respectivamente o maior e o mais profundo da África. E ao longo da costa, pontilham as grandes e pequenas ilhas do Arquipélago de Zanzibar.
A foto foi postada em seu blog pelo músico-militante carioca Spirito Santo, do Grupo Vissungo, e circulou pelo Facebook. Ela nos leva a refletir sobre as raízes de uma nação, hoje denominada República Unida da Tanzânia, uma das mais pobres do mundo, sob a ótica da economia
Tanganica e Zanzibar, por sua vez, eram resultantes da junção de um grande número de povos falantes de mais de 100 idiomas e culturas diferentes. Desde a década de 1880, porém, o povo foi obrigado a falar o alemão, a língua do invasor, o mesmo que sediou a famosa Conferência de Berlim – entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885 -, onde as regiões africanas foram leiloadas entre potências europeias. Com a derrota desse país na Primeira Guerra Mundial, em 1919, os ingleses se apossaram daquela área, impondo à população seu idioma, até 1962, quando se conquistou a independência. Em 1964, aconteceu a união dos dois países e a língua oficial se tornou o Suahili.
Tanto no norte da Tanzânia, quanto no sul do Quênia, onde vive o povo Massai, cujos ancestrais seriam oriundos do Egito, a tradição tem escandalizado todos os que acreditam numa sociedade igualitária, em se tratando do relacionamento entre homens e mulheres: para eles, poderosos guerreiros e pastores, tudo; para elas, responsáveis pelos demais trabalhos que são considerados inferiores, nada.
Beijos, nem pensar! A única função da boca é a de comer e, por sinal, os homens só se alimentam em companhia de seus pares e não ingerem carne ou fruto que uma mulher tenha tocado. O único contato possível entre o homem massai com uma mulher de seu povo é com a finalidade de procriação, após o casamento, que acontece em meio a uma cerimônia com danças em grupos separados: as crianças, os guerreiros e as mulheres.
O ritual se inicia com a circuncisão da noiva, cujo clitóris é extirpado pela anciã do grupo com uma lâmina super afiada. Isto, o povo acredita, garantirá filhos saudáveis e, de preferência, machos. Encontros internacionais de mulheres – volta e meia – denunciam esse costume, mas ainda não se conseguiu tomar nenhuma medida que devolva o sorriso às faces dessas mulheres massai.
fonte: revista RAÇA

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