história

Liberdade, igualdade, fraternidade e escravidão

A escravidão foi uma das páginas mais triste da história da humanidade, pois todos os povos tanto foram escravistas como escravizados. Nesse cenário, o tráfico negreiro para a América foi uma das peças marcada pela ganância. Os altos lucros atraiam nobres, burgueses, plebeus, europeus, africanos, americanos e árabes e tornou uma atividade comercial importante, fonte de altas rendas. As ações e quotas das companhias traficantes eram negociadas nas bolsas de Londres, Amsterdam, Paris e Lisboa.
Desde o início o tráfico tendeu a ser uma atividade em si mesma, quebrando o pacto colonial no que concerne à rigidez do monopólio metropolitano. Os comerciantes portugueses preferiam fornecer escravos às colônias espanholas (onde ganhavam mais) a trazê-los ao Brasil. Os traficantes ingleses, holandeses, franceses, norte-americanos, suecos e dinamarqueses os vendiam a quem quisesse comprá-los – legalmente, se possível; como contrabando, quase sempre.
Na França, a terra da “liberté, égalité, fraternité”, filósofos e reis não tiveram pudor de obterem ganhos com o comércio negreiro. Voltaire – embora suas considerações contra a escravidão no seu Dicionário Filosófico -, “não teve escrúpulos em pertencer às companhias (traficantes) de seu tempo” e a nobreza também não.
Os registros do tráfico francês nas costas africanas remontam a 1566, quando uma frota comandada pelo corsário Bertrand de Montluc (Moluc) saqueou a Vila de Funchal, na Ilha da Madeira. Porém até o final do século XVI os francos tiveram um papel secundário no tráfico internacional de africanos escravizados. Somente no ministério do Cardeal Richelieu (o principal ministro de Luiz XIII) o tráfico negreiro foi praticado regularmente pelos franceses, através das “Compagnie du Cap Verte e Senegal” e “Compagnie du Guineé”, cujas principais funções eram o fornecimento legal de escravos à América Francesa e, clandestinamente, às outras colônias.
No ano de 1641 subiu ao trono da França o rei Luís XIV, autor da célebre frase “o Estado sou eu”. E assim agiu, tendo Colbert como seu ministro principal, superintendente das construções, das artes e das manufaturas, controlador geral das finanças, secretário de Estado da Marinha e da Casa Real. A partir de então a política colonial “adquiriu as feições de um comércio colonial”. Com Colbert o tráfico de escravos passou a ser protegido e, ao mesmo tempo, controlado pela coroa.
Após a subida do novo governo, foram fundadas várias outras sociedades negreiras, monopólios foram dados, ampliados, reduzidos e extintos. Todo esse fluir de esforços tinha como objetivo abastecer regularmente as colônias francesas da América, especialmente as colônias do Caribe, com escravos negros. Entretanto, somente a partir de 1675 é que foi sistematizado o transporte anual de dois mil escravos africanos para essas possessões. O encorajamento das companhias traficantes de escravos, inclusive com a participação de recursos do Tesouro Público, resultou na mão de obra necessária ao grande impulso que a economia das ilhas francesas nas Antilhas registrou na segunda metade do século XVII.
A pressão da demanda por escravos para as Antilhas Francesas era grande. Somente os traficantes de Nantes, vendedores de cerca da metade dos africanos ali introduzidos, foram responsáveis pela venda de uma média de três mil escravos por ano (isso desde 1725), chegando, às vezes a quatro mil ou seis mil e novecentos. As máximas alcançadas foram 7.146 negros, em 1739, e 7.200, em 1769. Para se ter uma ideia do peso do tráfico negreiro franceses, basta que se compare dois números: mais de dois mil navios eram ocupados com o tráfico de escravos; somente 562 transportavam mercadorias na rota Caribe-França.

A Revolução Francesa de 1789 tinha como base a difusão das ideias de liberdade, igualdade e fraternidade; direitos que deveriam ser comum a todos os homens. Em 1794, a Assembleia Nacional Francesa decretou a abolição da escravidão e do tráfico negreiro em todas as dependências da França. Todavia, ambos voltariam a ser legais 1802. O decreto do Consulado Francês restabelecendo a escravidão e o tráfico negreiro era claro: “O tráfico de negros e sua importação nas colônias se farão conforme as leis e regulamentos existentes antes de 1789”. Tornou-se lei em 20 de maio de 1802. Em meados do século XIX, Luís Bonaparte (Napoleão III), rei da França, segundo Marx, “ressuscitou o infame tráfico, com suas piores características, com o pretexto de livre emigração dos negros para as colônias francesas” e passou a ser conhecido como o “anjo guardião do tráfico de escravos” …e de seus lucros.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s