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CABELO DE PRETO – RESISTÊNCIA E AFIRMAÇÃO DA ANCESTRALIDADE

Os cabelos dos africanos na América não são simplesmente um assunto estético, de beleza, de modismo ou de escolha, mais que isso, tornaram-se uma questão político-econômica e o livre arbítrio é questionável. Nas Américas, a todo o segundo nos lembram que somos africanos por causa da nossa cor epitelial e o passado escravagista, sendo assim, são de suma importância as nossas atitudes e decisões estéticas, porque perpassam além das nossas escolhas políticas.

O nosso cabelo em forma de espiral é forte, relembra o grande passado africano que foi esquecido pela nova estética de beleza imposta pelo padrão europeu, criando conflitos psicológicos e afetando a auto-estima do nosso povo. A nossa conversa de hoje é sobre os nossos cabelos lindos e fortes.

Os homens pretos sofrem discriminação por causa dos cabelos, mas, as mulheres pretas são o alvo discriminatório preferível, antes mesmo da natividade e continuam por toda a vida. Os estereótipos e adjetivações são diversos desde o momento que as africanas prisioneiras de guerra foram retiradas do continente-mãe. As litografias das africanas no tempo do cativeiro e logo depois do processo abolicionista demonstram que os seus cabelos se mantinham naturais.



Nossas avós, mães, irmãs, companheiras e filhas ouviram e ouvem que os seus cabelos são: duros, rebeldes, ruins, sujos e feios e quando tentam modificá-los para se parecer com os cabelos da civilização branca são chamados de domados, bons, lisos e relaxados.


Está escrito no livro de Cantares de Salomão 5:11
-Sua cabeça é como o ouro mais fino. Seus cabelos são crespos e pretos como o corvo.

Esta imagem me faz recordar um pouco da minha avó paterna e seus “cocós”, eu só conheço este penteado por este nome, são pequeno tufos no cabelo, amarrados com barbantes, este penteado de origem africana também usavam as irmãs e primas dos meus pais. Então, acredito que o fato de “melhorar” o cabelo não era uma prática em certos setores da comunidade preta em Salvador-Bahia, apesar de todo um histórico de alisamento já praticado e conhecido desde o tempo de atanho. Apesar de toda esta resistência, as mulheres pretas usavam muitos lenços nas cabeças e falavam que tinham vergonha dos cabelos. A vergonha de si mesmo é um sentimento patológico de auto-rejeição e baixa-estima.

Todas as minhas colegas pretas das escolas que mantinham os cabelos naturais foram censuradas, ridicularizados e algumas, lacrimejavam, e se sentiam envergonhadas, almejando serem mais bem aceitas nos padrões brancos alisavam os cabelos.

O cabelo natural passa uma mensagem de como a mulher vê a si própria e é muito mais fácil conversar sobre a africanidade. Não ter vergonha de usar os cabelos naturais é um simbolismo, uma forma de resistência, uma mensagem explicita de aceitação da ancestralidade. Exemplos de vida, dedicação e militância: Drª em pedagogia Ana Célia Silva, Makota Valdina Pinto e a Ministra Luiza Bairros.
Atualmente, como educador me deparo com este “problema” do cabelo “ruim” com as estudantes e as críticas dos estudantes pretos aos cabelos naturais das colegas pretas. O interessante é que ministro aulas em um bairro onde a população é de maioria preta e o mesmo é referência de pretitude em todo o Brasil.

Por que o cabelo que é um significado de benção e pertencimento se tornou maldição e negação?
Porque o processo violento de catequização e evangelização e a falsa hermenêutica da maldição de Cam ainda pairam em muitas mentes africanas nas Américas. Pois ser um bom “negro” e um bom cristão inicia-se com a caricatura da aparência do africano e ela começa pelo cabelo. A maioria das mulheres cristãs, nega a sua origem africana, e acreditam na maldição hereditária e muitos pastores (inclusive pretos) afirmam que os demônios estão nas tranças. O alisar o cabelo é uma forma de queimar o demônio e um passaporte para o mundo branco cristão.

Hoje, eu conversava com o meu filho de 13 anos sobre como é belo o cabelo dele, um cabelo turututu, um cabelo forte, como diz a minha filha Aidan. Nós temos os cabelos belos e fortes, Somos os adornos de Yah.

É muito importante para as mulheres pretas a beleza dos cabelos em um mundo globalizado onde o modismo transforma e modifica valores e cria uma sensação de que todos são iguais e o padrão de beleza ocidental se impõe como universal. Noto que a rejeição do cabelo é mental-físico-espiritual. A escravidão alterou toda uma relação de pertencimento e surgiu a negação de si mesmo, espiritualmente e fisicamente. As mulheres pretas possuem sérios problemas psicológicos com os cabelos levando a insatisfação, ódio e desprezo.

Nappy Hair, Carla Ray Thompson.

O griot Ademario comentou:

“O vídeo Nappy Hair, de Carla Ray Thompson, faz uma abordagem sobre a importância do hair style, do estilo de cabelo, para as mulheres afro-descendentes americanas. A abordagem não se limita apenas a aparência dos cabelos. De forma divertida, realiza-se um verdadeiro debate sobre o uso de tinturas, cosméticos, os diferentes cortes e, principalmente de como elas sentem-se com seus estilos e como são percebidas pelos outros.

Este vídeo traz, portanto, os vários olhares sobre os nappy (aspirais, fraldas, hair styles) das mulheres pretas e suas implicações sociais, políticas, pessoais, religiosas, econômicas, morais, etc; neste grande jogo de interesses, nesta sociedade de consumo capitalista.

Vale a pena conferir!

Novas posturas se apresentam com a juventude preta em formaturas e solenidades, outrora, se adequavam aos modelos de cabelos impostos pela sociedade dominante. Dois exemplos recentes de afirmação étnica demonstram as transformações estéticas: Dois jovens do bairro da Liberdade- Salvador-Bahia, Ícaro Luis (24 anos) formou-se em medicina pela UFBA usando tranças- raiz. Ulisses Passos (23 anos) recebeu a carteira da OAB com os cabelos de tranças.


Apesar da abolição a maioria das mulheres pretas escraviza os cabelos permitindo o cativeiro mental, psicológico e espiritual porque através deles sucumbem aos desejos do opressor rejeitando a sua beleza de mulheres originais.
O antigo ferro de marcar a carne preta foi adaptado para queimar e enfraquecer os lindos cabelos africanos no processo de embranquecimento.

Ferro
Cuti (Luiz Silva)

Primeiro o ferro marca
a violência nas costas
Depois o ferro alisa
a vergonha nos cabelos
Na verdade o que se precisa
é jogar o ferro fora
e quebrar todos os elos
dessa corrente
de desesperos.
                                                                                                                     Por Malachiyah Ben Ysrayl.

Historiador e Hebreu-Israelita
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn: kefingfoluke1@hotmail.com
Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos

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