racismo

O Racismo Cordial da Rede Globo no BBB-12

O PEDRO BIAL tinha de perguntar ao único negro do programa Big Brother Brasil 12 se o critério racial, ou o que comumente se chama de cotas, seria um bom critério de eleição para um dos participantes do programa. Ele tinha de fazer isso. E aquele garoto, o Daniel, tinha de responder que “não, porque eu acho que não tem que ter cota pra nada, a gente é igual cara, embaixo da pele é sangue, e o sangue é vermelho”, querendo dizer que todos somos iguais; o que ninguém disse ou tinha de dizer naquele programa, e em rede nacional, é que nós negros sempre soubemos disso, e que apenas a ‘elite branca racista’ deste país é que discorda da assertiva daquele garoto negro, ou “negão” como o apresentador preferiu denomina-lo.

É como se a Rede Globo, principal representante disto que chamamos de ‘elite branca racista’ deste país, estivesse cumprindo o seu papel. Digo isso porque estou certo que comparto da opinião de muitos dos militantes negros – que ao serem acordados às portas desta madrugada do dia 11 de janeiro, pois foi assim que soube de mais esta investida contra as ações afirmativas, com a avaliação inocente de que esta rede de televisão não é legítima para fazer este debate –, que esse tema, o da questão racial brasileira, não é nosso, que esse tema pertence a todos os brasileiros e tem lados. Que o nosso papel é o de defender a nossa posição e a ‘elite branca racista’ o dela, com isso, repito: a Rede Globo cumpre o seu papel.

Sabemos ainda que as armas não são paritárias, e que não devemos esperar que a ‘elite branca racista’ nos seja leal e honrosa. Que esta mesma elite só se afastará deste debate quando destruí-lo, por tê-lo deslegitimado; ou quando puder tirar algum proveito dele. Que a ‘tolerância’ é uma das grandes ferramentas que forjamos no século passado para impor os ‘direitos das minorias’, pois não podemos obrigar a ‘elite branca racista’ a nos amar, mas compeli-la a nos admitir no mesmo espaço público e de poder sim, isso nós podemos.

Sabemos também que no momento histórico em que o IBGE afirma sermos nós negros mais de 50% da população, um apresentador perguntar ao único jovem negro de um programa, em meio a 16 participantes, se o critério racial é um critério legítimo de eleição, por mais esdrúxula que possa parecer tal pergunta, considerando tamanha ousadia frente à evidência, que este gesto é uma posição de ataque, é um desafio, e que devemos sempre estar ‘a postos’ para responder à altura; muito embora o constrangimento esculpido no rosto do garoto Daniel não nos permita sequer condená-lo, pois apenas mais uma vítima.

E que não devemos descansar, assim como não fizeram João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luís Gonzaga das Virgens, Luiz Gama, William Edward Burghardt Du Bois, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Malcom X, Martin Luther King, Steve Biko, Patrice Lumumba, Cheikh Anta-Diop, Elbert “Big Man” Howard, Huey P. Newton, Sherman Forte, Bobby Seale, Reggie Forte e Little Bobby Hutton, Angela Davis e muitos outros e outras que começaram “de longe” a nossa batalha e que nós devemos continuar dando seguimento.

Um Axé a todos e todas, vamos nos aliar a campanha iniciada pela nossa Magnífica Ivete Sacramento e não assistir a este programa, apenas isso.

CLEIFSON DIAS é Bacharel em Direito pela Universidade Católica do Salvador.


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