Mídia

NEGRO NA MIDIA

Forma como o negro é tratado pela mídia tem a ver com sua baixa inserção no imaginário racial do brasileiro
O cineasta Joel Zito Araújo ressaltou que o negro tratado de forma positiva ainda é tabu na mídia. Ele também lembrou vários casos de omissão da mídia com relação a crimes de racismo, como o do jovem dentista Flávio Ferreira Santana, morto por policiais militares por engano, em São Paulo no ano de 2004. “A mídia nunca pegou um caso desses para fazer uma campanha educativa. Ali Kamel, por exemplo, não escreveu uma linha sobre esse assunto”, lamentou. Joel avalia que se o racismo fosse uma preocupação da mídia brasileira, fatos escandalosos como este e outros estariam na cabeça de todos. No entanto, quando perguntou para a plateia de cerca de 200 pessoas que assistiam ao debate, quase ninguém se lembrava de nenhum dos acontecimentos que relatou. “Não vimos Ana Maria Braga fazer matéria sobre isso e nem o Boris Casoy falando daquele jeito sobre o assunto, nem comentário do Alexandre Garcia ou do Arnaldo Jabor. Não vimos nenhuma manifestação de incômodo e de indignação quanto a isso”, disse, apontando a dificuldade que elite brasileira tem de incorporar os não brancos.
Lembrando a pesquisa que gerou o documentário “A negação do Brasil”, dirigido por ele, e o livro, também de sua autoria, “A negação do Brasil – O negro na telenovela brasileira”, Joel contou que desde um pouco antes de 1964 até 1998 um terço das novelas não mostrou nenhum negro. Entre as que mostraram, 75% fizeram isso de maneira negativa.
Para produzir a pesquisa mais recente “Onde está o negro na TV pública?”, que gerou o seu último livro “O Negro na TV pública”, Joel Zito e equipe gravaram uma semana de programação da TV pública no Brasil. No levantamento aferiram que 82% da programação não trouxe qualquer menção aos negros. Apenas em 0,9% da programação o programa foi dedicado ao negro e à cultura negra. Dos apresentadores de telejornais, 89% eram eurodescendentes, 6,2% afrodescendentes e uma parcela perto de 4% não estava em nenhuma dessas categorias. “Me assustei ao perceber que a TV Globo incorporava mais o negro do que a TV pública naquele momento”, relatou.
Ele atribui essa baixíssima inserção do negro ao imaginário racial do brasileiro. “Nós não superamos nossa mentalidade colonizada e o ideário da elite no final da escravidão que proclamava para todos os quatro cantos que o desejo nacional era fazer desse país um país branco”, opina. De acordo com Joel, apenas na segunda parte dos anos noventa começa-se a incorporar os atores negros como bonitos. Para ele, o que justifica o tabu é a persistência do ideário do branqueamento e de um medo que as elites brasileiras têm de que esta maioria da população assuma a consciência na negritude, que virá junto com a consciência de direitos, e questione o que chamou de sistema de castas, nossa patente desigualdade. “Temos uma armadilha imaginária que é reforçada pela mídia, pela escola e pela violência racial de fazer com que aqueles que estão na base da pirâmide social entendam que essa desvantagem em que ele vive é um resultado natural por ele ter nascido assim”, criticou.

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