Candomblé

Vodu: a mística que aterroriza o Ocidente

“Enquanto o leão não puder contar a sua história, o caçador terá sempre a última palavra”: nesse provérbio africano, estão envolvidos a relação, o medo, o mistério do “Vodu”, dessa antiquíssima religião africana que o colonialismo branco difundiu sem saber e sem querer para o Novo Mundo.
Do vodun, ou vodo, ou voodoo, palavra que significa simplesmente “espírito” nas línguas da África ocidental, as religiões, a cultura, sobretudo o poder do homem branco sobre o homem negro sempre tiveram terror, assim como de tudo o que não se conhece e não se entende.
A partir de uma complicada e mutável teologia que não produziu Bíblias, Evangelhos, Alcorões ou hierarquias reconhecíveis, literatura e ignorância, cinema e música ocidentais deram à luz criaturas sinistras e sortilégios maléficos, mortos-vivos e Baron Samedi, ritos satânicos e sabás carnais, massacres de inocentes a golpes de facões haitianos e bonecos perfurados. E, naturalmente, a inevitável “grande serpente”, figura central no culto do vodu e, portanto, capaz de evocar imediatamente na fantasia dos cristãos a manifestação do demônio.
“Tudo o que muitos europeus e norte-americanos sabem do vodu eles o aprenderam dos livros de Ian Fleming e de Live and Let Die de James Bond“, escreveu a associação internacional de estudos dessa religião. “E nada do que foi contado é verdade”.
Mas há já algumas décadas, desde quando as últimas potências coloniais europeias retiraram, pelo menos oficialmente, as garras da África, o vodu saiu das trevas das lendas negras para ser estudado, entendido, compreendido como uma outra maravilhosa manifestação dos recursos e da resistência do espírito humano, antes que divino, à opressão. E da necessidade de transcendência, de fé, de espiritualidade que nem os linchamentos, os enforcamentos, as torturas infligidas principalmente pelos dominadores franceses no Haiti conseguiram sufocar jamais.
Karol Wojtyla, João Paulo II, foi um dos primeiros a dar o “imprimatur” máximo a essa readmissão do culto nascido na África e levado ao mundo pelos navios escravagistas entre as religiões legítimas. Isso aconteceu em 1998, quando ele visitou Cuba, o primeiro papa da história a fazer isso, terra muito devota da Santeria, uma das infinitas versões do vodu.
Quando foi apontado ao pontífice, pelos nervosos bispos cubanos, que as catedrais onde ele celebraria a missa em Havana, especialmente em Santiago de Cuba, capital da Santeria, eram locais de culto eram muito ambíguos, nos quais as divindades católicas, as Nossas Senhoras e os Santos e o próprio Deus eram muitas vezes confundidos no sincretismo místico local com Serpentes, Deusas do Mal e com o “BonDieu“, o Ser Supremo, o papa respondeu: “O importante é que eles vão à igreja e assistam à missa”.
Como todo missionário católico ou cristão na África, no Caribe, na América Central e na América Latina sabe, a pretensão da rigorosa ortodoxia do catecismo tridentino não é apenas uma prepotência, mas também uma autoderrota. O sincretismo, a aceitação e a fusão de cultos, ritos, espiritualidades são muitas vezes a única condição para aceitar e para ser aceito.
O vodu, que alguns fazem remontar como culto, seja na substância monoteísta, seja através de manifestações animistas e aparentemente pagãs, a 10 mil anos atrás, portanto, a eras pré-cristãs, demonstrou ser muito resistente, muito dúctil para ser, quando necessário e justificável, desenraizado. Os franceses tentaram isso depois dos espanhóis no seu Haiti, saindo massacrados pela revolução de Toussaint (Todos os Santos) L’Ouverture, em 1793. Eles tentaram em vão converter os escravos, os “massa”, os proprietários das plantações na Louisiana e no Sul dos Estados Unidos, que tinham em New Orleans, juntamente com Cartagena, na Colômbia, o maior mercado da carne humana.
Ao contrário, o culto dos “Bondyè“, o Bom Deus do vodu, entrou na cultura da resistência negra, junto com a música, a linguagem, a “ferrovia subterrânea”, a rede de casas seguras que permitiam que os escravos fugissem rumo ao Norte, escapando dos linchamentos.
Talvez foi na terrível ocasião do grande terremoto do Haiti de 2010 que o sinal da progressiva aceitação da dignidade dessa expressão religiosa não mais ridicularizada ou criminalizada pelo “caçador de leões” que conta a sua própria verdade se manifestou. Foram os soldados brasileiros, enviados pela ONU para ajudar a população e tentar manter alguma forma de ordem pública, que apresentaram o problema da sepultura das vítimas segundo o ritual fúnebre do vodu, não apenas pelo respeito, mas também para não inflamar a cólera já ardente de uma população exasperada. E foram justamente os brasileiros, filhos de uma nação onde se pratica uma das muitas versões dos cultos afro-americanos, o Candomblé, que assumiram a tarefa de ajudar os haitianos no momento das exéquias.
Quatro séculos depois da diáspora forçada dos africanos ocidentais para o exterior e, portanto, a sua expansão no Novo Mundo, o vodu não provoca mais medo, senão ao público de cinema que quer acreditar nos “mortos que caminham” ou nos “bonecos perfurados”, ambos filhas de péssimas, e desejadas, distorções do culto dos mortos, muito forte, ou da necessidade da benevolência dos santos, os “Lao“, para se ter aquilo que cada ser humano pede ao próprio céu à sua própria maneira, saúde, felicidade, prosperidade e o sonho de uma vida além da morte.
Os seguidores do “Bondyè“, do Daomé, em Santo Domingo, nunca pretenderam ser a única fé verdadeira, nem converter infiéis, judeus ou não crentes com a espada e a tortura. Eles sofreram muitas infâmias, por querer infligi-las a outros.
A reportagem é de Vittorio Zucconi, publicada no jornal La Repubblica, 15-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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