história/racismo

TORNAr-se NEGRO V & VI

cap. V –  A História de Luisa
Neste capítulo, a autora transcreve o depoimento de Luísa, “neta de empregadas domésticas e filha de pais de classe média. Luísa é médica recem formada, nascida no Rio de Janeiro” com 23 anos de idade nesta época. Num segundo tópico faz sua análise.
Venho fazendo um resumo comentado e neste capítulo o depoimento de Luísa é mais propriamente um comentário do que um resumo. Penso que a história de Luísa poderia ser a história de muitas mulheres de gerações passadas, presentes e ainda futuras, já que temos uma sociedade altamente desigual e despolitizada com baixa escolaridade, uma cidadania frágil, poucas opções de trabalho para a maioria das jovens negras, onde “tornar-se negro” é uma luta sempre desigual contra o racismo. Muitas Luísas ainda estarão por vir num destino pré determinado pelo racismo.
Luisa poderia ser você, sua mãe, sua avó, bisavó, ou tataravó. Luísa poderia ser Luis pelas condições sociais desiguais que muitas vezes independem do gênero mas que são determinadas (ou sobredeterminadas) pela cor/raça que por força do racismo persistente podem perdurar por muitas gerações futuras.
Nascer escravo no século XIX ou nas condições sociais predominantes no século XX e mesmo após 100 anos depois da escravidão ou neste século XXI ainda sob os padrões de desigualdade faz pouca diferença. É assim que muitas vezes o negro se sente diante do abismo social entre negros e brancos no Brasil. E pensar como poderia ter sido diferente no passado pós escravidão ou ao longo do último século num regime democrático e de crescente respeito aos direitos humanos sempre esteve presente na cabeça de tantos que acreditaram nesses valores. Contudo, se impôs e prevaleceram as condições históricas de extrema desigualdade criadas pela violência física e simbólica, pela persuasão e pela cooptação de uma maioria negra. Um destino assim não é uma fatalidade de um mundo que possui naturalmente uma ordem desigual, mas uma condição criada socialmente com a qual se tem que lidar. Ou sucumbir a ela. Assim me parece a história de Luísa (ou de Luís) ou de qualquer um de nós.
Luísa tentou com o maior esforço encontrar um espaço onde pudesse escrever sua própria história além da fatalidade histórica. História que além de todo esforço e mérito pessoal adquire um sentido mais relevante quando vista numa perspectiva em que seu esforço, conquistas e derrotas são projetados numa dimensão social.
Análise
Nesta tópico do capítulo, Neusa Santos faz a interpretação psicanlítica da “história de Luísa”. Inicia apontando a importância da avó de Luísa, “uma mulher fálica” que assume a função simbólica do Pai, figura que a introduz no mundo das interdições e punições”. “Luísa faz de sua vida o discurso da avó (…) Ela não quer perder o falo, atributo conquistado por identificação com a avó”. Contudo, o modelo projetado por sua avó é frágil, desestruturado, imerso nas falácias do racismo, nos sentimentos auto depreciativos e punitivos. Por isso, “todos os seus relacionamentos afetivos-sexuais são com homens brancos” e os relacionamentos que vai experimentar com homens negros são punitivos. Identificada com o “falo da avó”, na sua busca de um objeto de amor ela “desafia-se na conquista de um parceiro homossexual, passando, inclusive a competir com ele na conquista de outros homossexuais”. Luísa tem uma imagem estereotipada de si, suas conquistas estão baseadas numa auto imagem de “mulata sensual”, “bem malandra, vivida, sacadora”. Fuma, bebe, se assume como mãe solteira, anda com homossexuais. E assim, “fixada numa imagem que a aliena, Luísa se debate num circuito de desvalorização e pseudo valorização (…) A curtição (de ser negra) é ser mais tudo, a mais bonita, a mais intelegente, a mais sensual”.
Os homens que a atraem e a quem seduz também são fracos em suas identificações, são pessoas a quem deprecia para admirar e tornar cúmplice nas suas impotências. Luísa é amante de um homem branco que tem uma maioria de amigos negros. Ela “era curtida como a mulher negra propaganda”. Sua pseudo valorização se expressa na recusa de seu estatuto de mulher que substitui pela sedução intelectual e assim também desafia seus parceiros intelectualizados, ela declara: “seduzir pela cabeça, o que aliás sempre foi o meu esquema”.
Ainda em sua identificação com a avó, diz Neusa Santos, “Luísa acredita que enquanto mulher negra, lhe cabe o lugar de terceira… Considera que a mulher negra é mulher sem companheiro…os homens ficavam com as brancas”. “O Ideal de Ego de Luísa caracteriza -se por uma identificação com o difícil, o nobre, o melhor, o branco”.
Quando criança, Luísa falava sozinha com seus amigos invisíveis, se achava muito feia, diferente, não tinha cabelos lisos, nariz fino, se desprezava, seus amigos eram todos brancos. “Luísa busca atingir seu Ideal de Ego, uma negra-branca, negra diferente, a mais inteligente, a mais bonita, tudo maximizado como aval para penetrar no mundo dos brancos, precisava disso para “se salvar” (…) “O negro com quem poderia vir a dignar-se a viver um relacionamento afetivo-sexual teria que ser como ela”. Assim também se deu com a sua escolha profissional, a carreira mais nobre, a mais difícil, Luísa era médica. Casou-se com Jorge, branco, “absolutizado e mitificado como elemento propiciador de todos os outros bens” (…) Sendo branco Jorge está de acordo com o veredito da avó”.
A identidade de mulher negra de Luísa é ambígua e feita de contradições carregada por reconhecimentos e desconhecimentos que tem origem em sua formação de Ideal de Ego. Imersa num ambiente familiar e social fortemente cercado por conflitos e contradições desenhadas pelo racismo e no qual as identificações com o negro são marcadas com a negação, rejeição e punição. Ainda assim, Luisa tenta assumir o protagonismo de sua história. Para tanto, precisa compreender a dimensão coletiva de sua infelicidade e enxerga no movimento negro uma possibilidade de transformar a História e sua própria história. E aí descobre que junto a outras mulheres e homens negros “pode surgir uma coisa verdadeira – se eu sou esse veneno que eu queria ser, teria que ser porque eu sou Luísa, independente de ser negra”.
Neste capítulo Neusa Santos identifica os temas tratados através dos depoimentos de seus entrevistados: histórias de vida, o falar de si, o auto reconhecimento, a exaltação, o silêncio, choros e sorrisos, a emoção da dor, da raiva, do prazer e da esperança, o conformismo.
Segundo Neusa Santos seu trabalho se assenta no tripé: as representações do negro: aprendidas e vividas; as estratégias de vida: as escolhas, as dúvidas, a sobrevivência e a existência, e a ascensão social: o desafio, os dilemas, as conquistas e as derrotas.
Trata-se das experiências pessoais sob as quais constituímos nosso Ego numa sociedade racista que tanto nega o negro, quanto nega o racismo. Desse conflito que se desdobra em múltiplas representações presentes na nossa cultura se forma um quadro patológico de esquizofrenias: uma patologia do negro e uma patologia do branco. A ambiguidade, a incoerência nas relações pessoais e sociais são as duas dimensões dessa esquizofrenia causada pelo racismo.
Abaixo transcrevo os depoimentos mais significativos dentre os que Neusa Santos apresentou:
1. Representação de Si
1.1 – Definições
– “Entrei na Faculdade de Comunicação cheia de expectativas de transar a vida cultural, agitar a Faculdade. Agitei, logo de saída, uma peça de teatro com debates. Entrei em contato com muita gente, trabalhei pra caralho. Depois eu soube que o pessoal achava que eu era Polícia” (Carmem).
– ” Na Bahia fiz uma peça onde eu tinha uma fala assim: ‘Eu sou Presidente do Sindicato’ … A reação do público foi me chamar de macaco, veado, jogar casca de laranja…. O negro não tem direito ao Poder, nem mesmo num palco, representando um papel…” (Correia)
1.2 – Fantasias e estereótipos sexuais.
– “…ele (um parceiro negro) não era esse homem que eu esperava. Não era também o potente – fantasia da mulher branca e da negra também… (Luísa)
– “Por muito tempo eu fiz o gênero ‘criola gostosa’. transava o lance folclórico do negro como o exótico”. (Carmem)
1.3 Representação do Corpo
-” Eu tinha vergonha do meu corpo. Eu queria transar no escuro…Eu não gostava do meu corpo, dentro de uma coisa de ser negra. Corpo de negra, corpo de mulher tipo operário. Isso sempre me grilou prá burro” (Carmem)
– ” Eu me achava muito feia, me identificava como uma menina negra diferente…Todas as meninas tinham o cabelo liso, nariz fino. Minha mãe mandava eu botar pregador de roupa no nariz pra ficar menos chato… Eu era muito invejosa do físico das pessoas – achava que as pessoas eram muito mais bonitas do que eu” (Luísa)
1.4 – O Mulato: Ser ou Não Ser Negro
– “Não tomo a negritude como uma causa, como uma bandeira política, mesmo porque eu não sou negro de todo: sou mulato nato, no sentido lato, democrático, brasileiro”.
– “Meu pai dizia que a gente era rico. Minha mãe dizia que a gente era pobre. Eu achava que ser rico era morar naqueles edifícios que tinham brinquedos. Mas, também, não era pobre porque pobre era morar na favela. Aí, eu não sabia meu lugar, mas sabia que negra eu não era. Negro era sujo, eu era limpa; negro era burro, eu era inteligente; era morar na favela e eu não morava e, sobretudo, negro tinha lábios grossos e eu não tinha. Eu era mulata, ainda tinha esperança de me salvar…” (Luísa)
2, Das Estratégias de Ascensão
-“Fomos morar em Copacabana, num edifício onde éramos os únicos negros. Tudo de ruim caia em cima de nós. Minha mãe ficava revoltada quando vinha uma queixa – a gente tinha que ser perfeito. A gente dizia: ah! mãe todo mundo faz…Ela então dizia: ‘mas vocês são pretos…’ Em Cascadura era uma vida mais solta, de rua de moleque. Na zona sul, os limites: como se comportar, como deixar de se comportar. Ter que se comportar melhor que os outros…” (Carmem)
-“Meu pai achava que a gente tinha que ser as melhores porque éramos pretas. Uma coisa que sempre me chateou foi que meu pai sempre trazia presentes educativos. Todo mundo lá em casa tinha que ser o melhor aluno.” (Eunice)
2.2 – Aceitar a mistificação
2.2.1 – Perder a cor
Eu estava crescendo como artista e então ia sendo aceito. Aí eu já não era negro. Perdi a cor . Todo esse jogo era vivido por mim de modo contemporizador. Eu não tinha como me confrontar. Não discutia muito a questão. Ia vivendo. O racismo continuava. Eu era aceito sem cor, mas eu ia vivendo. Esse jogo era o meu jogo também. (Alberto)
2.2.2 -“Meu pai foi o único dos filhos que ascendeu…Fez Licenciatura em Ciências e dá aula de biologia no Santo Inácio. Sempre transou a religião negra – é babalorixá no Candomblé, com todo o intelectualismo dele. Ele me diz: ‘você crioula fazendo Psicanálise! Psicanalista de crioulo é Pai de Santo’É o único da família a assumir esse lance. Não é uma questão folclórica. Ele acredita mesmo. E esse é o grande câncer da minha avó: o filho dela, professor, é o macumbeiro. Ela faz de conta que não existe a situação”. (Carmem)
2.2.3 – Não falar no assunto
-“Jorge meu marido… a família dele não me aceita…Ele assume tudo. Me impõe. A gente quase não discute isso”. (Luísa)
-“…é uma dificuldade discutir, nesse meio. (pequena burguesia, branca, intelectual). questão racial. Há o pacto de que somos ‘quase iguais’ e assim é inoportuno, inadequado, perigoso, discutir a questão. E há dois tipos de resposta desse meio à questão racial: uma paternalista mistificadora: ‘ah, vamos discutir, sim. Meu bisavô era negro eu até me sinto negro…’ e outra de negação : Não, não vamos discutir isso'” (Carmem)
3.Do Preço da Ascensão: A contínua Prova
-“O sentimento de rejeição existe. A nível de existência, no dia-a-dia. Depois eu adquiri consciência, eu tentei me impor – pelo lado intelectual, que é um modo de competição. A gente tem duas opções pra não se sentir tão isolada: a gente se integra à comunidade negra – e eu já estou fora dela há muito tempo – ou se integra ao meio da dominância branca que não satisfaz. É um lugar onde tudo é uma prova, onde estão sempre te testando. Justamente por ser negro tem sempre a idéia de um merecimento por você estar ali. A gente tem que ter uma justificativa pra dar, por estar nesse meio.E tem o teste pra ver se a gente continua merecendo. A exigência de ser o melhor pra todo mundo, pra toda a sociedade, mas os negros são aqueles que tem que assimilar isto melhor”. (Carmem)
Por José Ricardo D´Almeida! 

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