Escola e educação/história

Tornar-se NEGRO III & IV

III, O Mito Negro
O mito é uma narrativa mais ou menos fantasiosa de uma realidade social. É o que nos adverte Neusa Santos ao dizer o que decorre quando a natureza toma o lugar da história e o mito se instaura. O mito tem a função de naturalizar e cristalizar certas relações sociais e se apresentar como um tipo de verdade e criar uma nova realidade feita de fantasia, ilusão e verosimilhança. Assim o mito adquire a condição de dissolver simbolicamente as contradições que existem ao seu redor.
Por isso, o mito é uma fala do poder para o povo – só se torna mito aquilo que cai na boca do povo, que se torna senso comum. O mito é um discurso – verbal e visual – do exercício de um poder, uma forma de comunicação sobre qualquer objeto, seja ele uma coisa, a própria comunicação ou a pessoa. O mito é assim uma fala competente que “objetiva escamotear o real, produzir o ilusório, negar a história, transformá-la em natureza”.
Como um instrumento da ideologia, “o mito é um efeito social” que se forma para ocultar certas relações de poder na sociedade. Um mito é tão mais eficaz quando “cai na boca do povo”, quando se torna senso comum. Nesse sentido é que o mito resulta de determinações econômicas, politicas, ideológicas e é também um produto psíquico. Como produto do psiquismo o mito é um conjunto de representações ordenadas pelo processo primário, pelo princípio de prazer e pela ordem do imaginário. Desse modo, o mito estrutura algumas relações sociais fundamentais e outras que são próprias da formação do sujeito. O mito serve ainda para re-ligar pelo sacrifício ritual a nossa existência com a transcendência.
O “mito negro” é uma variável que produz o “problema negro” e que se apresenta em três dimensões:
1. pelos próprios elementos de sua composição;
2. pelo poder do mito de determinar e estruturar o espaço ocupado pelo negro historicamente como objeto histórico;
3. pelo desafio que impõe ao negro como sujeito histórico.
Neusa Santos observa que o “mito negro” se impõe como um desafio a todo negro que recusa o destino da submissão, já que se tornou constitutivo da sua estrutura psicológica e da própria estrutura social.
O “mito negro” se apresenta como o desafio do mito o da Esfinge grega (“Decifra-me ou te devoro”) oferecido para negros e não negros. Portanto, afirma Neusa Santos que “é vital apodera-se do conhecimento, desvendar a resposta e assim destruir o inimigo para seguir livre”. Ainda que, caiba a negros e não negros esta tarefa, cabe fundamentalmente ao negro ser a vanguarda desta luta “assumindo o lugar de sujeito ativo, lugar de onde se conquista uma real libertação”, diz.
O “mito negro” se impõe com a marca do insólito rompendo com a identificação que é uma característica da função do mito. Diante do “seu” mito, o negro vai “tornar-se (um) negro” com a marca da diferença que o desumaniza, isto, onde deveria existir a identificação. Com a incorporação da diferença em lugar da identificação, o negro em comparação ao branco se inferioriza e subalterniza, torna-se exótico. Este processo resulta em manter o negro permanentemente em estado de alerta (defesivo/agressivo) e lhe impondo uma “natureza negra”. Assim, o negro que acredita no “mito negro” passa a se ver com os olhos, a falar com a linguagem do dominador e por fim acredita também em traços de uma superioridade sensível ou sexual que são aquelas mesmas que “simbolizam uma verdadeira inferioridade e que definem ‘a besta’ (citado de Florestan Fernandes)
“Você é um negro!” Funda uma diferença baseada numa negação, numa oposição ao branco como ideal de ser, daí abre-se o espaço para a formação dos estereótipos que vão alimentar, o racismo, os preconceitos, as desigualdades, a infelicidade e a subordinação.
IV, Narcisismo e Ideal de Ego
Ao fim do capítulo anterior (III) Neusa Santos observa que seu estudo é exemplificado com trechos de depoimentos obtidos em entrevistas e marcados por sua própria experiência “na pele”. Eles servem assim de referência para dar voz ao negro que “enquanto sujeito introjeta, assimila e reproduz como sendo seu o discurso do branco e os seus interesses”. Isto é viabilizado pela eficácia dos mecanismos ideológicos que possuem suporte nos processos psíquicos. Para compreender este funcionamento é preciso conhecer como ela indica, dois conceitos fundamentais da teoria da psicanálise: Narcisismo e Ideal de Ego, “forças estruturantes do psiquismo que desempenham um papel chave na produção [dos sujeitos e] do negro enquanto sujeito – sujeitado, identificado e assimilado ao branco”. Dois outros conceitos são ainda referidos – Ego Ideal e Super Ego – e são também essenciais para compreendermos o que se procura explicar, e com uma breve definição tomei como base a mesma fonte utilizada por Neusa Santos: Vocabulário da Psicanálise de J. Laplanche e J. B. Pontalis, publicado por Martins Fontes Ed. em 1988)
Narcisismo: Processo ou estado do psiquismo que orienta e estruturação psíquica. Base de formação do sistema Ego – Super Ego, o narcisismo nunca é totalmente ultrapassado. Consiste num investimento libidinal na própria imagem de si que nos casos patológicos adquirem uma exclusividade como objeto sexual: ” o Ego na sua totalidade é tomado como objeto de amor”.
Ideal de Ego: Instância da personalidade resultante da convergência do narcisismo, das identificações com os pais e/ou substitutos e com os ideais coletivos. É um modelo simbólico perseguido pelo indivíduo e “administrado” pelo Super Ego.
Ego Ideal: É uma instância que toma um modelo imaginário que se caracteriza pela idealização maciça cuja representações são fantasmáticas, isto é, orientadas pelo ideal de omnipotência narcísica.
Super Ego: Instância psíquica que compreende três funções: auto-observação, consciência moral e função de ideal (atividade de conflito/tensão e equilíbrio entre as funções). A formação do Super Ego ocorre na ultrapassagem do Complexo de Édipo, quando a criança substitui as figuras parentais (pais ou substituto) pela consciência moral (ideais coletivos).
Todo indivíduo para se tornar sujeito precisa de um modelo de identificações (Ideal de Ego) que se forma no aparelho psíquico como um modelo ideal, perfeito ou quase. Este modelo ideal tem a função de recuperar o narcisismo original perdido e que é de alguma forma (através de substituições) perseguido por toda a vida como uma exigência do Super Ego. É uma instância psicológica que conduz ao possível, ao realizável para o sujeito e que transforma e substitui as pulsões em desejos alcançáveis, na busca de satisfações mais ou menos conscientes. Desse modo, o Ideal de Ego é a instância psíquica que faz o vínculo com a Lei e a Ordem (mundo simbólico, ordem da cultura/ideais coletivos) e que possibilitando a estrutura psíquica faz a organização mental.
Atingir o Ideal de Ego é uma exigência do Super Ego para proporcionar equilíbrio e uma harmonia interna (psícológica) possível pela aproximação do Ego Ideal ( fantasmas/fantasias) com o Ideal de Ego (modelo simbólico). Assim a sensação de triunfo, isto é, de bem estar psicológico ocorre quando há uma coincidência entre estas duas instâncias Ego Ideal e Ideal de Ego. Ao contrário, quando não coincidem, se forma a sensação de culpa, tensão, medo, os “complexos de inferioridade”.
O negro que se torna objeto desta reflexão é para Neusa Santos “aquele cujo Ideal de Ego é branco, que nasce e vive imerso numa ideologia que lhe é imposta pelo branco como ideal e que endossa a luta para realizar este modelo”. O branco é o que se diz ser o belo, desejável, rico, inteligente, poderoso e respeitado.
Para construir um ideal em torno dessa imagem a primeira regra que se impõe ao negro é a sua própria negação. Negação que é representada pelos estereótipos tanto de inferioridade quanto de superioridade. Em seguida, através de trechos de depoimentos Neusa Santos dá exemplos do modo como a família transmite os primeiros registros mentais e psicológicos da auto negação do negro que vão sustentar a criação de um Ideal de Ego (modelo ideal) que vai se mostrar ao logo da vida tanto inatingível como incompatível. Lembra também que algumas vezes a auto negação do negro se manifesta de modo ainda mais violento e desesperado quando se violenta o próprio corpo que é rejeitado em suas características naturais. Nota ainda, o papel importante representado pelos antepassados do modo como moldam através da história familiar certos projetos não realizados e que se tornam “destino dos descendentes” moldado no Super Ego.
Embranquecer a família é tomado como o maior símbolo de ascensão social a ser perseguido, bem como afastar-se dos símbolos que lembrem a “mancha negra”, completa. Estas representações se estendem da família para as ruas, escola, trabalho, lazer e em todos os espaços institucionais e sociais onde se reforçam as bases do Ideal de Ego criados pelos pais. Estes projetos pessoais criados com base nesse Ideal de Ego vão se mostrando ao longo da vida inalcançáveis em função da própria negação do sujeito negro numa ordem social racista de hegemonia branca. É diante disso se que interpõe a condição “a posteriori” (adiamento) sempre renovada para que o negro possa enfrentar as condições concretas de opressão em se encontra. Para compensar as frustrações são criadas alternativas falsas ou insatisfatórias que conduzem em geral às super exigências de resultados e sucesso individual a qualquer custo. A tensão entre estes dois planos, o conflito que se forma entre os projetos realizáveis e os irrealizáveis devido às falsas expectativas (embranquecer ou ascender socialmente) adquirem com o negro maior dramaticidade já que o desvível entre o ideal e o realizável é maior. De modo que a insatisfação permanente com as próprias conquistas são recorrentes para o negro que quer “subir na vida” e “ser o melhor” já que isso não garante o êxito quando o Ideal de Ego é branco e, “tornar-se branco” é um processo não apenas doloroso, senão impossível. Diante disso restam duas alternativas: sucumbir ás punições do Super Ego pelo ideal não realizado e que tem expressão na melancolia nas suas variadas formas e intensidades como a perda da auto estima. E também sintomaticamente os sentimentos de auto desvalorização, culpa, inferioridade, insegurança e ansiedade. Sentimentos que se desdobram em conformismo, medos, submissão e contemporização desmedida como resultado de um longo processo de humilhações, intimidações e decepções nas tentativas para realizar as expectativas que se impuseram e por não atingir um ideal realizável pelo Ego. Timidez diante da afronta, da agressão, do preconceito, submissão programada, interiorizada, aceitação passiva dos estereótipos, preconceito contra o próprio negro. É neste quadro que a depressão se instala como um tipo de castigo auto infligido por não atingir os modelos de Ideal de Ego que foram oferecidos.
A outra alternativa buscada para a realização do modelo ideal forjado pelo racismo e introjetado é a procura pelo/a pareceiro/a braco/a. (Neuza Santos fala sempre do lugar da mulher negra e de classe média). Esta outra alternativa com a substituição da parte (ou todo) do Ideal de Ego não realizável é então transferida para o objeto amoroso representado pelo parceiro/a branco/a. Seu fluxo ocorre através da intimidade da relação afetiva-sexual que pode assim realizar o Ideal de Ego inatingível e então projetado no parceiro/a. E ainda, através da descendência de filhos e netos transfere seus sonhos de ascensão social representada pelo embranquecimento as próximas gerações. Ama-se a “brancura”, diz ela lembrando Frantz Fanon. O parceiro/a branco/a é transformado num instrumento da luta para realizar o equilíbrio exigido pelo Super Ego (entre o modelo introjetado do Ideal de Ego e o modelo ideal narcísico, o Ego Ideal).
Concluindo diz Neusa Santos, diz que o negro que elege o branco como Ideal do Ego provoca em si mesmo uma ferida narcísica grave que só pode ser curada com a construção de um outro Ideal do Ego. “Um Ideal de Ego que lhe configure um rosto próprio, que encarne seus valores e interesses, que tenha como refência e perspectiva a História. Um Ideal construído através da militância política, lugar privilegiado de construção transformadora da História”.
Por fim, apresenta três exemplos paradigmáticos desta construção (que estão sintetizados numa descrição da ação empregada):
1. Ela (com certeza mais frequentemente que o homem) o/a substituiu pela militância política mais radical.
2. Ele enxergou na tomada de posição política que só com a massa negra organizada, o negro pode fazer sua história.
3. Ele/ela mais atentos agora ao seu redor vestiram as roupas da negritude.
Exemplos fáceis que nos trazem muitas referências nas quais podemos nos ver e reconhecer a muitos tentando fazer assim a sua própria história pessoal e coletiva.


Por José Ricardo D´Almeida! 


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