história/Política e direitos humanos

TORNAR-SE NEGRO!!! I & II

Resumo do livro  de Neusa Santos Souza
  
Capítulo I – Introdução
A autora inicia dizendo que uma das formas de exercermos a autonomia individual é afirmando a nossa identidade através de um discurso sobre si mesmo e que para isto é necessário um conhecimento da realidade concreta. Dessa forma, Neusa Santos Souza vai conduzir seu estudo procurando “elaborar um gênero de conhecimento que viabiliza a construção de um discurso do negro sobre o negro” com foco na emocionalidade: Para atingir este objetivo ela se vale de “um olhar que se volta em direção à experiência de ser-se negro numa sociedade branca”. E faz assim uma reflexão “sobre a experiência emocional do negro que “responde positivamente ao apelo da ascensão social”.
Apoiada em sua própria experiência e em sua formação psicanalítica ela procura interpretar quais são as trajetórias pessoais, os pressupostos e os desdobramentos desse difícil processo de ascensão social do negro numa sociedade branca.
Hoje, vinte e sete anos depois da publicação de “Tornar-se negro” podemos observar que já temos um novo cenário se descortinando na sociedade brasileira, mas que ainda possui muito poucas definições quanto ao respeito da identidade negra. Isto, contudo, se apresenta como um desafio constante e necessário para as lutas de combate ao racismo e de conquista da cidadania do negro que passam assim, necessariamente pelo desafio da sua ascensão social.
Neusa Santos se expressa a partir da sua condição feminina que faz da descoberta de ser negra mais do que a constatação do óbvio. Segundo ela, “saber-se negra” é viver a experiência de ter sido massacrada (o mesmo, é certo para o homem negro) em sua identidade, confundida em suas expectativas, submetida a exigências absurdas além de ser constrangida com expectativas alienadas. Seu estudo trata deste problema e procura respostas que vão além de uma mera reflexão acadêmica sendo carregado da paixão pelo saber que ela articula com a experiência vivida por outros negros e negras. Procurando assim gerar um conhecimento tanto racional como emocional indispensável não só para os negros mas também para os brancos que querem experimentar um processo de libertação do racismo, afirma.
O impacto para o negro, observa Neusa Santos, da “conquista da ascensão social é o massacre mais ou menos dramático da sua identidade”. E hoje. quase trinta anos depois de sua escrita já podemos pensar melhor em que medida esse massacre ainda se produz como tributo de um processo de sua ascensão social que vem de certa forma, se tornando mais palpável diante do crescimento econômico do país na última década.
“Afastado de seus valores originais, representados fundamentalmente por sua herança religiosa, o negro tomou o branco como modelo de identificação, como única possibilidade de tornar-se gente”. É partindo desse confronto e dessa imposta auto negação que ela irá conduzir seu estudo procurando explicar o “custo emocional da sujeição, negação e massacre de sua identidade original, de sua identidade histórico-existencial”.

Cap. II – Antecedentes Históricos da Ascensão Social do Negro Brasileiro: A Construção da Emocionalidade.
Assim nos situa Neusa Santos seu tema diante do tempo histórico para a construção da identidade negra na modernidade. Ela diz que, devemos pensar que a história da ascensão social do negro tem um paralelo com a construção da sua emocionalidade, quer dizer, é uma história fundada na história de um modo do negro organizar e lidar com os afetos.
O negro socialmente dominado, subordinado e inferiorizado por uma concepção original de seu ser, de sua individualidade e do seu grupo social “viu-se obrigado a tomar o branco como modelo de identidade ao estruturar e levar a cabo sua estratégia de ascensão social”. Sua representação inferior na ordem social escravocrata correspondia a uma situação de fato. Depois, com o fim da escravidão as representações de sua inferioridade e condição social subordinada foram re-elaboradas e expandidas desde uma ordem divina passando para uma ordem da natureza. Com o desenvolvimento das ciências sociais uma condição “natural” de cor/raça se tornou equivalente de sua condição social e de classe. Sua integração na moderna sociedade de classes passa a se orientar por um projeto de ascensão social que representaria sua “redenção econômica, social, e política, capaz de torná-lo cidadão responsável digno de participar da comunidade nacional e diante de uma situação social em que “ser bem tratado era ser tratado como branco”. Daí que, “assemelhar-se ao branco…via ascensão social”, significava “tornar-se gente”.
O processo de integração do negro na sociedade de classes ocorre com incentivos e bloqueios de maneira ambígua a fim de “fragmentar a identidade, minar o orgulho e desmantelar a solidariedade do grupo negro” (citado de “A Integração do negro na sociedade de classes” de Florestan Fernandes)
Embranquecer de todas as formas através da cultura e fisicamente era a porta de entrada (ou de saída) para experimentar a “democracia racial” e a “ascensão social”. Nesse contexto, democracia racial significa sobretudo a não segregação racial e que associada ao individualismo burguês se tornaram os paradigmas da ascensão social do negro.
Ao lado disso, o preconceito de cor/raça permite manter o negro num lugar social subordinado e inferiorizado nas relações sociais e pessoais funcionando também como um filtro para conter a ascensão social individual e do grupo.
De uma lado se encontravam “aqueles que se conformavam com a “vida de negro” e do outro os que ousavam romper com o paralelismo negro/miséria” e “subir na vida”, hostilizando-se uns aos outros, separando-se socialmente e solidariamente.
Para Neusa Santos “a história da ascensão social do negro é, assim, a história da sua assimilação aos padrões brancos de relações sociais. É a história de uma identidade renunciada, em atenção às circunstâncias que estipulam o preço do reconhecimento ao negro com base na intensidade de sua negação”.

Por José Ricardo D´Almeida!

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