Candomblé/racismo

Intolerância Religiosa em Salvador da Bahia – O vis-a-vis entre as igrejas neopentecostais e as religiões de matriz africanas

O Brasil conheceu durante o século XX uma metamorfose da sua paisagem religiosa. Deslocando sensivelmente as rivalidades, esta situação faz nascerem confrontações entre religiões. A Salvador de Bahia, conflitos inscrevem-se no imaginário simbólico de movimentos religiosos neopentecostais que seguem a “Teologia da Guerra Espiritual”[1]. Nascem da Igreja Universal do Reino de Deus acusações de bruxaria para com o Candomblé, seguindo sua missão principal “de cruzada contra o diabo”.
O mundo social para os evangélicos e os adeptos das religiões de matriz africana é ao mesmo tempo o produto e o desafio de lutas simbólicas, para o conhecimento e o reconhecimento, em qual cada um prossegue não somente a imposição de uma representação vantajosa de si, como as estratégias “de apresentação de si” magnificamente analisadas por Goffman. Assim sendo, a ação do ser religioso enquanto ator social define-se a partir duma série de parâmetros (discursos, gestos, olhares, posicionamentos, rotinas), nem sempre assumidos de forma consciente, que têm em vista produzir e/ou consolidar uma imagem de si, insuflando um determinado sentido à interação.
Atualizando uma forma de maniqueísmo radical com leitura feiticista, a controvérsia, fiéis neopentecostais/adeptos de religiões de matriz africana tem a particularidade que parece anunciar um modo de coabitação destas duas religiões. A Universal alimenta mutuamente um processo de criação de identidade na adversidade, de acordo com o princípio: “Eu te ataco, por conseguinte tu existes”. Com efeito, quando a Universal acusa o Candomblé de práticas demoníacas, a primeira verdade avançada por este discurso, antes mesmo “os orixás são demônios”, é “os orixás existem”. Assim, a Igreja Universal, cujo um dos seus objetivos é exorcizar os demônios que se esconderiam sob o manto de divindades do candomblé, tem necessidade da existência de cultos que veneram os inquinces, os voduns ou os orixás. De lutar contra o outro adotando as suas próprias armas, as Igrejas neopentecostais terminam por conseguinte por copiar certos traços de práticas rituais que estigmatizam e de confortar assim nas suas existências os demônios que convocam e perseguem.
A controvérsia que estudamos deverá contribuir para compreender a transformação concreta dos fundamentos da vida em sociedade provocada por uma expansão do esquema perseguidor próprio ao neopentecostalismo e as suas Igrejas de “libertação” ou de “descarrego”.
“Xô Satanás“.
“Xô Satanás“. Ouvindo esta injunção, poderíamos pensar que estamos numa época longínqua quando a demonologia estava de rigor, por exemplo em 1487 quando o livro Malleus Malificarum – O Martelo das Feiticeiras[2] – foi publicado e cujo os autores fundamentavam as premissas do livro com base na bula Summis desiderantes, emitida pelo Papa Inocêncio VIII em 5 de dezembro de 1484, o principal documento papal sobre a bruxaria. Portanto é nestes termos que hoje no Brasil inteiro que segmentos das igrejas neopentecostais alimentam o conflito para com os espaços de cultos das religiões de matriz africana para perturbar os rituais e seus adeptos. É também esses termos “fora satanás” que os testemunhos ouviram no caso emblemático de intolerância religiosa de Ilheus que aconteceu no dia 23 de outubro de 2010. Durante ação policial, o orixá Oxossi incorporou a sacerdotisa que algemada foi colocada e mantida pelos PMs num formigueiro onde foi atacada por milhares de formigas provocando graves lesões, enquanto os PMs gritavam que as formigas eram para “afastar satanás”. Enquanto Bernadete (Oxossi) algemada era arrastada pelos cabelos por quase 500 metros e em seguida jogada na viatura, os policiais numa clara demonstração de racismo e intolerância religiosa, gritavam “fora satanás”! Este caso fez infelizmente relembrar a muitos candomblecistas as chamadas “batidas de policiais” contra cultos afro-brasileiros quando o delegado Pedro Azevedo Gordilho, chamado Pedrito atuava em Salvador entre 1920 e 1926[3].
A associação entre os orixás e a figura do diabo e dos demônios é talvez um dos aspectos mais evidentes da discriminação sofrida pelos negros no Brasil. A negação do direito à prática de rituais comuns à África durante o período da escravidão evoluiu, após a abolição, para a construção de uma imagem maligna dos cultos praticados nos terreiros. Estes cultos frequentemente são apontados como pratica da magia preta que visaria atingir o seu próximo. A intolerância que essas religiões sofrem há muito tempo caracteriza-se de múltiplas maneiras. Cavalo de batalha do racismo, é feito para acentuar a distância entre um grupo determinado e aqueles que vêem como oponentes. A intolerância é, por conseguinte, uma das formas de opressão de indivíduos em geral fragilizados pela sua condição econômica, cultural, religiosa, étnica e sexual. Surpreendemo-nos frequentemente descobrir a nossa própria intolerância.
Fala-se frequentemente de “guerra santa”. Certamente, a palavra é ligeiramente forte, mas é para assinalar o que poderia acontecer quando se deixa destruir assim as bases da democracia, do respeito e da liberdade de consciência e de cultos. O proselitismo do IURD tem por tema principal o combate contra as forças do mal e a prática do exorcismo e a expulsão dos demônios, identificado às entidades que pertencem aos cultos de possessão, tem um lugar central. Como observaram os que estudaram de mais perto estes movimentos religiosos como V. Boyer, P. Birman e R. Mariano, entre outros, a ironia é que no ardor a combater a umbanda, o candomblé, o espiritismo e o catolicismo, a Universal justifica a experiência religiosa destas religiões e acaba ela mesma incorporando elementos da fé, da lógica e da visão do mundo do inimigo. É sem duvida o que fará dizer a A. P. Oro (2006, p. 320) que estamos em presencia de uma igreja neopentecostal “macumbeira”, cuja uma das suas características é “sua “religiofagia”, em que ela se apropria e reelabora elementos de crenças de outras igrejas e religiões”. Por sua parte, R. de Almeida (2003, p. 341), referindo-se à esta mesma igreja dizia que “no seu processo de constituição, elaborou, pela guerra, uma antropofagia da fé inimiga” ou ainda que essas igrejas operam uma “fagocitose religiosa”. Até o bispo Macedo, fundador da IURD o admite quando escreve: “Se uma pessoa chegar a Igreja no momento em que as pessoas estão sendo libertas poderá pensar que está um centro de macumba, e parece mesmo” (Macedo, 1987, p. 135).
A feitiçaria nos tempos neopentecostais
Atualmente, quando se assiste aos programas radiofônicos ou televisuais das igrejas neopentecostais, estamos frequentemente convidados aos cultos: “dia da descarrego”; “meia-noite do descarrego”; “noite de quebra de feitiço”, “dia do óleo santo de Israel”; “culto da Sexta-feira 13”; “Sexta-feira forte, desencapetamento total” ou ainda “vem receber o teu xampu abençoado”. Não é raro que pastores que apresentam tais programas, quando ouvintes se referem às razões das suas desgraças, respondem sem hesitar: “Foi feitiço, uma bruxaria, um trabalho, uma feitiçaria que alguém fez contra você! Comparece a nossa igreja… ”. Antes de tudo, estar na igreja é uma garantia de proteção contra as forças malignas. Referindo-se aos símbolos que se atribui geralmente a magia, estas igrejas contribuem para a solidificação de princípios que paradoxalmente é os de religiões que combatem. Exploram os exorcismos e os testemunhos de fiéis que querem se livrar “de bruxarias, trabalhos e feitiçarias”. Como o sublinha Paulo Bonfatti (2000: 93-107) que para Igreja Universal não existe médio termo: o mundo é dividido entre pessoas “libertas” e “não libertas”, e são estes últimos que sofrem a constante ação do diabo. É o diabo e as suas legiões a causa dos males. Contudo, a causa é sempre homogênea: a possessão por “encostos”. Um amplo significando que engloba uma fonte mística eminentemente afro-brasileira (“Exù da morte”, “Maria Padilha”, os orixás, etc.) e que invadiria a vida das pessoas através de uma multidão “de trabalhos” ou “bruxarias”. Há basicamente duas possibilidades que causam todos os males: ou a pessoa teve alguns tipos de contato com as religiões afro-brasileiras ou alguém fez uma bruxaria.
Intolerâncias
A “guerra santa” movida por igrejas neopentecostais de missão contra as religiões de matriz africana tem tido uma propagação extraordinária em todo o Brasil e é cada vez mais acirrada na Bahia. O povo-de-santo tem uma clara percepção de que a violência crescente é uma doença terrível do coletivo; comparte os riscos e danos de sua infrene propagação.
A intolerância religiosa já se tornou um grave problema de saúde pública em Salvador. O povo-de-santo é duplamente atingido nesse processo. A intolerância religiosa afeta os fiéis do candomblé ao infligir-lhes vexames (agressões e calúnias) que geralmente ficam impunes; por outro lado, produz um cerceamento de seus direitos, quando levam profissionais a marginalizá-los e mesmo a excluí-los da prestação de serviços públicos a que fazem jus. Os agentes de saúde do aparelho de estado que aderiram às novas igrejas fundamentalistas sentem verdadeira repulsa pelos candomblés, que consideram “casas do diabo”. Ódio e temor juntam-se em sua atitude para com o povo-de-santo e os levam a excluí-lo de seu cuidado, do horizonte de sua prática profissional. Na intolerância há gradações, como mostra um depoimento de uma filha-de-santo que descreveu a maneira como agentes endêmicos chegaram e se comportaram no terreiro. Eles tiveram uma postura de completo desrespeito pelas regras que regem aquele espaço. Eles foram pouco cordiais com o babalorixá; acessaram sem nenhuma permissão as áreas sagradas do terreiro, mexeram em objetos de valor sagrado para aquela comunidade e colocaram serragem em lugares em que haveria água. Ela mesma disse que estes assentamentos têm ligação direta com o equilíbrio das pessoas aos quais eles foram relacionados e que ela mesma sofreu de enormes dores de cabeça, sem saber a razão, até que descobriu que um dos objetos revirados era o objeto de ligação direta com ela. Este relato mostra como o ato de tentar preservar a saúde da população sem conhecer as particularidades e diferenças nela presentes pode ter efeito contrário ao desejado. Também durante o 1o Seminário de Religiões de Matriz Africana e Saúde nos dias 14 e 15 de setembro de 2007, uma pessoa ligada ao candomblé testemunhou que teve de ouvir que “a infecção hospitalar é responsabilidade das religiões de matriz africana”.
Por outro lado, as altercações na rua entre evangélicos e adeptos dos cultos afro-brasileiros se tornaram comum. Quantas vezes ouvimos depoimentos como aquele de Evandro de Logum, de um terreiro em São Gonçalo do Retiro, que chamou a atenção para a necessidade das pessoas viverem em paz sem desrespeitar o espaço e as manifestações alheias: “Eles me provocaram dizendo que serviam a Jesus e eu servia ao diabo. No entanto sirvo ao mesmo Jesus deles. A diferença é que nós também cremos nos orixás. Quando eles passam com a Bíblia debaixo do braço não fazemos nenhuma critica, por isso pedimos que quando nós passarmos com nossas contas eles também nos respeitem”.
Põe-se então aos habitantes do Salvador a coexistência muitas vezes difícil com as igrejas evangélicas e “os crentes” que têm o deplorável hábito de querer implantar-se mais perto dos terreiros como se constata em vários bairros de Salvador. Precisa de muita auto-estima para responder as varias formas de desrespeito as quais devem se defrontar os candomblecistas frente à ousadia dos neopentecostais. O depoimento a seguir de uma ekede de um terreiro no Engenho Velho de Brotas em Salvador que tem que conviver há 15 anos com uma IURD que veio se implantar ao lado mostra a que ponto chega pode chegar o desrespeito.
“Um dia de manhã, depois de zelar os orixás, quando cheguei ao beco onde fica a entrada do terreiro, vi que eles jogaram sal grosso, continuei subindo e tinha certeza que foram eles. Destranquei o portão, tinha eles fazendo o culto deles. Ai fui entrando na igreja, parecendo um filme de terror, o diabo entrando e eles com surpresa. Falei: cadê o Pasteur, ele continuando pregando. Cheguei junto dele e bati na mesa e diz: vim saber se é você o pastor dessa …. , diz um palavrão (que ela não pude me dizer, pois ela estava me contando dentro do barracão), que esta ficando irresponsável por fazer invasão de domicilio, pois isso aqui do lado não pertence a vocês, respeito é bom e todo mundo gosta, aqui não é qualquer casa, vocês chegaram e já encontraram, eu quero respeito , eu exigiu. Vou dar 5 minutos para estar tudo limpo, tudo varrido, tudo no ponto, pois se não tiver, quem vai entrar aqui jogar farofa de aceite, cachaça, sou eu, pois aí vão conhecer o verdadeiro demônio que vocês tanto chamam. Diz assim para eles. E tudo mundo agora, vamos levantam, levantam aí essa bunda toda. Minha cunhada se embolava de rir, eu dizendo: varri aqui, limpa aqui, eu quero tudo lavado, tudo agora. Depois disso, nunca mais. Hoje, as meninas passam tipicamente vestidas e as pessoas não dizem nada. Não queremos mais tolerância, nós queremos respeito.”
Considerações finais
Podemos sentir que é considerável o impacto da nova investida contra os ritos afro-brasileiros, promovida com virulência e com recursos muito poderosos por empresas eclesiais que têm o controle de meios de comunicação de massa e sabem muito bem empregá-los. Seus pastores promovem a incriminação do candomblé, da capoeira, das tradições negras — e logram sucesso inegável em induzir a auto-rejeição de homens e mulheres pobres, humilhados por preconceitos incidentes sobre sua condição de cor, de classe, de origem; fazem-no com uma pregação enfática baseada no convite a abandonar, em troca de sucesso, uma identidade sentida como deteriorada. Desse modo, levam muitos a se dessolidarizar dos mais próximos — e principalmente dos mais envolvidos com os códigos da negritude assim rejeitada.
O mal tem uma multidão de formas. O medo dos outros ou o temor de ser diferente torna-se um dessa forma. Um imperialismo social da identidade tende a se instaurar e seria o reino da tautologia: sobre o modo de não poder se aceitar diferente, cada cristão fundamentalista suportaria apenas a sua própria imagem da verdade, de modo que todos devam dizer ou ser a mesma coisa.


Serge Péchiné
Doutorando em Ciênciais Sociais e em co-tutela
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais/Universidade Federal da Bahia
Centre d’Etudes Interdisciplinaires des Faits Religieux/EHESS-Paris

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