história/racismo

Existem sérias suspeitas de saneamento étnico na Líbia

Boubacar Boris Diop é um escritor empenhado. É profundamente interpelado por todas as questões humanas e mantém-se atento aos problemas que atravessam a África. Pronuncia-se sobre a situação líbia com a sua convicção constante, mostrando-nos pontos de vista nomeadamente sobre o Senegal. Entrevista.
As forças rebeldes líbias ajudadas pela Nato derrubaram finalmente o regime de Muamar Kadafi após sete meses de combates diários ininterruptos. Que lhe sugere um tal fim?
Esta foi a guerra dos Ocidentais desde o primeiro dia. Em cada etapa decisiva, eles violaram a resolução 1973 do Conselho de segurança. Além dos bombardeamentos da Nato, houve lançamento de armas por paraquedas e o envio de unidades especiais para o terreno. No entanto, penso que a coisa mais chocante, foi a implicação quase militar dos media ditos globais no conflito. Nunca ninguém se iludiu sobre a Cnn, a Bbc e a Al-Jazeera, mas até aqui pareciam, apesar de tudo, ter fixado um limite que não deviam ultrapassar, justamente para merecerem um mínimo de crédito. Desta vez, não deram provas de nenhuma contenção. Um exemplo entre dezenas de outros, é a notícia da prisão do filho de Kadafi. Não existe nenhuma imagem, eles sabem que é falsa, mas repetem a informação durante um dia inteiro, porque o que lhes importa é desorganizar o comando inimigo. Do mesmo modo, recusaram alongar-se sobre o balanço de 50.000 mortos avançado pelo próprio Cnt. É um número colossal, nada o deixava prever visto que era suposto os bombardeamentos da Nato pouparem as vidas humanas. O comunicado do Cnt mostra que se tratou de uma verdadeira carnificina e estes media muito parciais referiram-se a ela por alto e rapidamente passaram a outro assunto.
Um estudo levado a cabo por iniciativa do Centro internacional de investigação e estudos sobre o terrorismo e ajuda às vítimas do terrorismo (CIRET-AVT) e do Centro francês de investigação sobre a informação (CF2R), indica que a “revolução” líbia “não foi democrática nem espontânea”. É da mesma opinião?
Para a Tunísia e talvez para o Egito, os Ocidentais foram apanhados de surpresa, mas rapidamente se recompuseram. No que toca ao levantamento na Líbia, efectivamente, nada foi espontâneo; ele ocupava um lugar importante em certas agendas. Depois da queda de Ben Ali e, a seguir, de Mubarak, o projecto foi reactivado. Não é difícil adivinhar como se passam as coisas quando Sarkozy, Obama e Cameron se encontram. Eles não dispõem de muito tempo e não o desperdiçam em conversas sobre os grandes princípios morais. Abrem um mapa, veem o que pode ser feito em função do contexto político e militar e quando é simultaneamente rentável e exequível, eles intervêm. O serviço pós-venda – os discursos sobre a democracia e os direitos humanos – é assegurado por diversos canais e normalmente resulta bem. Por isso, nestes últimos meses, ouviram-se muitos líbios contentes com os ataques aéreos e a pedirem mais! Trata-se, evidentemente, de uma enorme manipulação mas também de uma tremenda eficácia.
A União Africana recusa, por agora, reconhecer o Conselho nacional de transição. Não será uma maneira de compensar o Coronel que participou activamente na criação desta instituição?
Eu noto sobretudo que a Liga árabe abandonou Kadafi muito depressa ao passo que a União Africana, depois de ter trabalhado sem sucesso para uma solução política, procurar impor a si mesma um prazo decente agora que tudo parece perdido. Isso significa que a guerra civil líbia poderia marcar uma reviravolta nas relações entre a África subsariana e o mundo árabe. Estas relações nunca foram simples, todos o sabem, ainda que por pudor se tenha evitado sempre olhá-las de demasiado perto. Penso que, de um lado e de outro, as pessoas sensatas e as organizações realmente democráticas deviam falar antes que seja demasiado tarde.
Estamos todos no mesmo barco, é preciso ser amnésico ou então ingénuo para recusar admiti-lo. As imagens de pais de família subsarianos agrupados em campos e tratados como gado, pode deixar marcas profundas para lá da Líbia e sabe-se muito bem quem vai tirar proveito disso.
Países como o Senegal apressaram-se a reconhecer o Cnr. Na sua opinião, essa era a atitude correcta?
Wade ficará na História como o único chefe de estado que se dirigiu a Benghazi com esse tipo de discurso e com esse gesto, destinado em parte a granjear os títulos de caixa alta da imprensa mundial, e que mal foi notado. Aliás, é bom recordar, sem querer ser mal intencionado, que o Eliseu e Bernard-Henri Lévy ficaram até incomodados por terem apenas Wade para oferecer como primeiro visitante aos seus protegidos. Estes últimos, de resto, não receberam o interessado com grande entusiasmo. Parece também que, depois do aperto de mão em Genebra roubado a Obama, era um meio de pôr do seu lado o Eliseu e a Casa Branca antes da revisão constitucional de 23 de Junho. É conhecida a consequência… numa situação histórica grave, mesmo trágica, conseguiram ridicularizar o Senegal por causa destes cálculos politiqueiros mesquinhos. Essa foi a verdadeira humilhação.
Kadafi não será vítima das suas próprias perversidades?
Em certo sentido sim. Ninguém tem o direito de ficar tanto tempo no poder. Se você o faz, surge forçosamente um momento em que perde totalmente o sentido das realidades. O custo desta longevidade anormal, é um controle cada vez mais apertado da população, o reinado pelo terror, uma paranóia perigosa e, sobretudo, para um país tão rico como a Líbia, um elevado nível de corrupção dos governantes. Regimes destes parecem invulneráveis, mas são muito frágeis, como se viu também no Egito e na Tunísia. Para liquidar Kadafi bastou aos seus inimigos jogar com o cansaço dos líbios, com a sua raiva recalcada e a sua muito compreensível sensação de asfixia. Mas talvez a história seja mais indulgente para com Kadafi que nós. Ele fez da Líbia um país realmente independente cujas riquezas beneficiaram sobretudo os próprios líbios. Este homem que é apresentado, não sem leviandade, como o “louco de Tripoli” assegurou uma existência decente aos seus compatriotas. Na classificação de 2010 do Pnud (programa para o desenvolvimento humano), a Líbia aparece em 53ª posição à escala mundial e há anos que ela está em primeiro lugar no continente africano, seguida regularmente pela Tunísia, que ainda ultrapassa apesar de tudo com uns bons trinta lugares! Todas estas aquisições vão ser postas em causa porque ele não soube partir a tempo como Nyerere, Mandela ou Senghor.
Muitos africanos foram mortos pelos rebeldes sob pretexto de serem mercenários a soldo de Kadafi, o que nem sempre é o caso…
É o sintoma mais grave de um risco de confronto histórico, talvez desejado por alguns, entre a África subsariana e o mundo árabe. É necessário falar disso, não para criar tensões mas para salvar vidasainda ameaçadas. Desde o início das hostilidades, acusaram Kadafi de ter largado os seus “mercenários africanos” nas ruas das cidades líbias, falaram até de violações colectivas e de embalagens de Viagra distribuídas generosamente para este efeito! É absurdo, porque isso significaria que Kadafi nunca teve exército ou que não tinha nenhuma confiança nele. Além disso, investigações conduzidas por diversos organismos, entre os quais Human Rights Watch, concluíram que eram falsas estas alegações. Entre finais de fevereiro e finais de maio de 2011, Donatella Rovera, da Amnestia International, conduziu investigações em Misrata, Benghazi, Ras Lanouf e Ajdabiya antes de afirmar numa entrevista a um diário de Viena: “Investigámos a fundo esta questão dos mercenários africanos e não descobrimos nenhum facto que pudesse sustentar tais acusações”. Todas as advertências ficaram infelizmente sem efeito. O exército de Kadafi era poderoso com 116 mil homens, mas por algumas centenas de subsarianos que estavam há décadas integrados nele, puseram-se a massacrar líbios negros e imigrantes de outros países africanos que tinham optado por viver na Líbia. No dia 26 de Agosto, foram encontrados mais de duzentos corpos num hospital de Abu Salim e eram quase todos negros. O crime foi claramente confirmado e a Cruz Vermelha internacional ficou impressionada. Isso não impede as grandes cadeias televisivas de continuarem a evocar de passagem os “mercenários africanos”, o que é o cúmulo da irresponsabilidade.
Porquê os Negros da Líbia?
Há muitas razões, mas creio que o Cnt quis enviar ao mundo uma mensagem muito simples: todos os verdadeiros líbios estão unidos e seguem-nos e Kadafi, completamente desesperado, só pode contar com estrangeiros sem fé nem lei. Se você apimentar este discurso com histórias de violações e de Viagra, fica garantido o pânico! Aliás, ainda se podem ler na net coisas extremamente estranhas a este respeito. É bastante irónico porque, neste conflito, os únicos que beneficiaram do contributo de soldados estrangeiros, foram as pessoas de Benghazi! Todos aqueles jovens com T-shirt que se viram muitas vezes a precipitarem-se para as câmaras para dispararem para o ar não foram os que fizeram a guerra. Os mercenários tecnológicos da Nato fizeram todo o trabalho, mas do ar porque esta guerra tinha de ficar limpa. Limpa, quer dizer, sem nenhuma vítima ocidental. A morte de dois soldados da Nato teria feito muito mais alarido que cinquenta mil mortos líbios. Vivemos, efectivamente, num mundo caricato…
Praticamente não houve reações africanas. Pode explicar este silêncio?
É inexplicável. Devia-se ter protestado energicamente a partir do mês de fevereiro, evitando, no entanto, dar a esta reação um conteúdo exclusivamente racial. Há neste caso sérias suspeitas de saneamento étnico, por isso ele interpela todos os seres humanos e talvez, em primeiro lugar, os democratas do mundo árabe, os seus escritores e os seus artistas. Aliás, nunca é tarde para pedir ao Cnt para mandar acabar com os massacres dos imigrantes subsarianos e dos líbios negros, porque o caos atual é propício a todos os ajustes de contas.
Pode-se ter confiança no Conselho nacional para a transição líbia?
É uma estrutura muito heterogénea e temem-se lutas violentas no seu seio. O chefe do Cnt, Mustafa Abdul Jelil, era ministro da Justiça antes da sua renúncia. Contam-se aí outros representantes do regime de Kadafi e até, sem que se possa ter a certeza disso, membros da Al-Qaeda. Por fim, conta também com verdadeiros democratas que aí se encontraram à falta de melhor. Estes últimos não devem ter tardado a aperceber-se de que o Cnt deve tudo aos países da Nato e que a sua vocação é servir os interesses desses países. A margem de manobra do novo poder anuncia-se muito fraca e, de qualquer modo, parece saber bem o que se espera dele. Os seus dirigentes insistiram várias vezes, mesmo sem que lhe tivessem colocado a questão, na sua determinação em combater a emigração clandestina. E economista chefe do Cnt, Ali Tarhouni, já em março de 2011 dizia a um diário francês: “A França foi o primeiro país a reconhecer-nos e a ajudar-nos. Lembrar-nos-emos disso no momento oportuno”. Não eram palavras ditas no ar.
Está otimista para a Líbia relativamente à primavera árabe nos outros países?
Deveremos, em rigor, continuar a falar de primavera? Esta história era quase uma festa à partida. Empurravam-se os ditadores para a saída a brincar, depois, rapidamente, se tornou pesadelo. Mas, apesar de ter durado menos de dois meses, o seu impacto foi muito forte.
Os políticos do mundo árabe compreenderam, seguramente, a mensagem: a era do culto da personalidade acabou e os que ganhavam a sua vida à custa dos milhões de fotos ou das estátuas dos tiranos vão ter que procurar outro trabalho. No entanto, para todos estes regimes sob pressão, o desejo de abandonar o leste é contrabalançado pelo receio de parecer enfraquecido e de favorecer a licitação. Este dilema é muito perceptível no caso da Síria. Dito isto, podia mesmo acontecer que a prioridade fosse doravante proteger-se das ingerências ocidentais, para decalcar o modelo nortecoreano. Suponhamos, por exemplo, que o Irão tem um programa secreto de armamento nuclear. Duvido que todos estes acontecimentos lhe tenham dado o desejo de o abandonar! Em pouco tempo, viram-se cair fortalezas consideradas intocáveis e chefes de Estado foram humilhados de forma tão grave que os colegas que lhe sobreviveram, traumatizados, nunca aceitarão deixar-se surpreender.
Além disso, imagina-se que o caos líbio foi “conduzido” por Bernard-Henri Levy, que não é mais que um medíocre filósofo parisiense? Isso não é fascinante? Confesso ter dificuldade em compreender como é que um militante sionista declarado pôde pesar tão duramente sobre o destino de um país árabe tão sensível como a Líbia…
Lembrou o papel dos media. E as redes sociais?
Também elas desempenharam um papel significativo. Aliás está na moda, no Cairo, uma anedota: Nasser, Sadat e Mubarak encontram-se no céu. O primeiro diz que morreu de doença, o segundo conta o atentado que lhe custou a vida e Mubarak declara: “A mim foi o fecebook que me matou”. Tudo isso é verdade, mas atenção ao romantismo. A internet é sobretudo o terreno de jogo dos serviços de informação em todos os géneros. Se um jovem bloguista de um bairro popular pode fazer tremer alguém, que imensas possibilidades oferece a Rede aos donos do mundo. As redes sociais são, nas suas mãos, uma fantástica ferramenta de controlo dos espíritos. Por isso é que a propaganda mudou de natureza. Já não se imagina Hitler a clamar durante horas diante das multidões fanatizadas. Hoje a propaganda é um ruído de fundo, uma música suave, uma espécie de canção de embalar. E as suas mensagens simplistas, à força de se insinuarem nos espíritos em pequenas doses, acabam por se tornar as opiniões de qualquer um. É uma grande arte, esta maneira de nos constranger a escolher impreterivelmente entre a “democracia” e a “ditadura” quando isso é tão complicado!
A história, este ano, parece ter disparado. Que sentido dá a estes acontecimentos que ocorreram?
O ano de 2011 caiu-nos literalmente em cima da cabeça. Em poucas semanas aconteceram mais coisas que em dez anos e não se sabe muito bem o que fazer com tudo isso. Às vezes tenho a impressão de que o tempo se pôs a andar para trás, porque toda esta agitação tem um perfume de Guerra Fria com, por exemplo, as divergências sobre o dossier sírio, entre o bloco ocidental e os dois antigos gigantes comunistas. E há ainda este par insólito que formam os jovens idealistas revoltados dos países pobres e os políticos manhosos e cínicos dos países ricos! Mas o que mais particularmente me impressionou na guerra civil da líbia, foi que a partilha do saque nem se quer se fez às escondidas. É o retorno a uma forma de predação muito primitiva, é o método de Sarkozy. Mas é preciso mais para dar uma dimensão histórica a uma personagem afinal de contas bastante insignificante. Diz que começam a compará-lo a um célebre imperador. Porque não? Só que se Sarkozy é tão pequeno como Napoleão, ele nunca será seguramente tão grande.

Pensa que a vaga de contestação nascida no mundo árabe pode prosperar na África subsariana?
A África subsariana é um conjunto de cinquenta países com realidades políticas muito diferentes. O Chade e a África do Sul estão, é verdade, no mesmo continente, mas estão realmente no mesmo planeta? Não há quase nada que se possa dizer de um e que tenha qualquer sombra de um sentido para o outro. Na melhor das hipóteses pode pensar-se numa abordagem regional. Mas, mesmo neste caso, a herança colonial é muitas vezes mais pertinente que a proximidade geográfica e cultural.
Se centrarmos a reflexão sobre a parte de África que tem em comum a Cfa (Caixa de segurança social dos franceses no estrangeiro) e a língua francesa, todos percebem bem que é ainda o Eliseu quem põe e dispõe! Por exemplo, Compaoré teve recentemente que fazer face a graves motins. Não era uma excelente ocasião para lhe lançar à cara uma bela pequena primavera árabe? Mas este homem que chegou ao poder da forma sangrenta que se conhece, há 24 anos – alguns dias antes de um tal Ben Ali! – é um aliado dócil de Paris. Por isso, preferiu-se ajudá-lo a sair desta situação difícil.
E a propósito do Senegal?
No que diz respeito ao Senegal, lembra-se com certeza de todas aquelas histórias a propósito de Karim Wade, que solicitou uma intervenção militar francesa em junho do ano passado. A recusa mediatizada de Paris e a polémica, muito pouco habitual, que se seguiu, estão longe de serem inocentes. Vi nela uma forma subtil de marcar encontro.
Os franceses, que conhecem bem o nosso país, nunca pensaram talvez nas possibilidades do filho substituir o pai. Mas afastada a hipótese Karim, pode-se perguntar se não têm já o seu  “trunfo na manga” sobre o quarto presidente do Senegal…
Houve gestos políticos e uma série de declarações de Juppé, do embaixador Nicolas Normand e de funcionários do Quai d’Orsay.
Há muito tempo que não se via isto antes de uma eleição no Senegal. E eu creio que isso merece reflexão.

Artigo publicado originalmente no La Tribune 

Tradução:  Maria José Cartaxo

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