Mídia

Fina Estampa, fim da nossa história!

Uma reflexão sobre a negação  do Negro pela mídia.
A algumas semanas nossa atenção dirigiu-se à novela “Fina Estampa” da rede Globo. Nos chamou a atenção a maneira como certos temas ligados à negritude
 estejam ainda tratados de uma forma, digamos assim, “retrograda” (por isso podem ver o nosso ato de repúdio ligado a uma cena em particular no blog: www.cenpah.blogspot.com).
Por outro lado, tem um assunto que, de forma indireta, parece retratar como a questão da negritude (Falando de negritude queremos sublinhar tudo o que se refere a nossa herança cultural africana no campo dos costumes, da culinária, da historia, da linguagem, etc…) é apresentada na cultura e nos meios de comunicação brasileiros. Trata-se da relação entre Griselda (Lilia Cabral) e o filho Antenor (Caio Castro).
O INICIO
Esta reflexão teve como ponto de partida um programa de culinária durante o qual uma chefe de cozinha indicou o feijão fradinho como um prato tipicamente brasileiro. Isso sou meio estranho ao nosso ouvido, porque sabemos que esse tipo de feijão  veio da África, chegou ao Brasil no porão das caravelas e seu preparo é herança dos povos africanos. 
Por que esse exemplo? Acontece que quando se fala de panetone, ou de polenta, ou de vinho, ou de outras comidas típicas das nossas mesas sempre sublinha-se a origem europeia de tais pratos. Porém, quando se trata de produto, ou invenções, ou valores que vem da Africa se coloca sempre o titulo: “Brasileiro”!
Nós achamos que a resposta é evidente, mas gostaríamos que seguissem o exemplo que a novela nos dá. 
Antenor é um dos filhos da “pobre” Griselda que teve a oportunidade de entrar na universidade de medicina (ainda bem que Antenor tem cara de português, porque um dos filhos da outra personagem pobre, e negra, Dagma dos Anjos (Cris Vianna) da mesma idade que Antenor só presta para roubar e aprontar,mesmo sendo os dois conhecidos e tendo crescido no mesmo bairro). 
Antenor renega a própria mãe! Não gosta do jeito dela, do fato que não se comporta como a elite, e chega a substitui-la com alguém que aparenta e se aproxima ao modelo dominante. Tudo para se sentir parte de um outro mundo, de outra gente que, ao seus olhos, “brilham mais”, mesmo que essa pessoa não foi aquela que lhe deu a vida, acompanhou a sua infância, pagou e paga para sua educação.
Antenor parece ter a cara do nosso país. Um país que: renega a sua origem africana, ignora a influência das línguas banto e yorùbá na formação da português-brasileiro, disfarça  a culinária servida todos os dias nas mesas (como o arroz e feijão) que é tipicamente africana,  e seu jeito de dançar, de sorrir  com o titulo de “brasileiro”, esconde o fato que sua religiosidade  e suas expressões são profundamente ligada ao sentido do transcendente dos povos africanos trazidos pela força neste continente, esquece que este país foi construído através do trabalho,  do suor e da vida de milhões de negros-as. Tudo isso acontece em nome de um mito, de uma aparência: a Europa. Engraçado que a Europa ainda hoje, além dos fins comerciais, parece não ter interesse algum com toda essa adulação, exatamente como sente-se uma das protagonista da família Velmont, a Cristina Teresa (Christiane Torloni) em relação aos seu empregados e a família de Griselda.
PROCURANDO UMA SOLUÇÃO? 
Talvez se Antenor não se deixasse consumir pelo desejo da riqueza e da aparência, e começasse a entender o valor, os sacrifícios e o verdadeiro amor da sua família, que representa a sua identidade, a história terminaria de uma forma diferente. Mas Antenor é jovem ainda! O mesmo se diria para o (nosso?) este país; se existissem leis que obrigassem os canais privados  e dependentes, como a Globo, o SBT, a Record a incluir nas suas falas, nos seus programas, a verdadeira cara e história do Brasil, valorizando e reconhecendo a contribuição e o valor dos povos africanos que foram trazido por aqui (Sublinhamos: foram trazidos!! Nossos antepassados não viram aqui por convite ou de passeio, eles forma TRAZIDO com violência e ainda hoje são tratados como quase cidadãos!), talvez nossos jovens negros-as não se sentiriam tão perdido e desvalorizados como estão sendo até hoje .  E para isso não tem desculpa, este país já tem 500 anos de historia!
GANHAR A LOTERIA.
E´evidente que a novela tem outra solução: ganhar a loteria!!! Ao final parece que a Griselda também sonha em fazer parte do mundo dos ricos, da elite, mas só um milagre pode ajudar a coitadinha desarrumada. Sim, porque depois de ter vivido uma vida inteira numa comunidade abandonada (Não quisemos usar definições quais: pobres ou carentes. Achamos estes termos desviantes, porque a verdade é que os poderes públicos não se preocupam com as melhorias nestes bairros e os abandonam, esperando as tragédias acontecerem.)
O ideal a ser experimentado não é a partilha, mas  a integração  no mundo da elite!!!
O mesmo podemos afirmar para nossa população, porque depois de uma vida passada no aconchego das culturas africanas, do carinho, dos sacrifícios, das perdas, das injustiças, da negação, o ideal é se render ao modelo dominante de quem detêm o poder neste país. E esta é a mensagem que nos é inculcada desde pequenos e que todos os dias é transmitida nos nossos meio de comunicação. 
CHEGA!!!!
Nós estamos cansados disso, mas percebemos que nem todos reparam nesta imposição sutil e perversa. Alias, a gente percebe sim, quando vemos as meninas negras alisar seu cabelo de um a forma obcecada, quando elas se entregam aos jovens porque a educação pública não lhes ensina a pensar no futuro, quando os nossos jovens entram no caminho da trafico e da violência porque suas mães não ganham a loteria e continuam trabalhando e andando desarrumada, quando a policia pára as pessoas  e viola seus direitos pela cor da sua pele. Mas aí, já é tarde demais.
Alguém dirá: deixa essa novela nos fazer sonhar!!! Deveríamos?  Os sonhos nos fazem sentir bem, nos ajudam a viver melhor! Esses sonhos, na vida da gente, só produzem pesadelos reais. 
CONCLUSÃO
O Brasil tem tantos Antenores e Griseldas que além de lutar para sobreviver, são bombardeados com a escolha de que o único lugar de onde vem coisas boas é a Europa e tudo o que se relaciona com ela (inclusive a cor dos olhos e da pele). Nós que somos um povo pluricultural não deveríamos pedir que esta leitura unilateral seja proibida em respeito da diversidade histórica dos povos originários e dos que vieram e foram trazidos para este continente? Como é possível que nos nossos meios de comunicação o elemento que mais aparece é a Europa? Claramente isso demonstra que o Brasil ainda está levando um velho projeto para frente: o embranquecimento do país. (A ideia de que, em 100 anos, os brasileiros seriam todos brancos, foi atualizada em 1911 por João Batista Lacerda, diretor do Museu Nacional. Nessa época o cientificismo já tinha biologizado o conceito de raça, e o racismo brasileiro se dividia entre duas correntes de pensamento. A segregacionista, que dizia que a mestiçagem já nos tinha posto a perder e que nunca seríamos uma nação desenvolvida; e a assimilacionista, que apostava na salvação através do processo de branqueamento, com imigrantes europeus.)!!!
O mesmo projeto que no inicio do seculo XX abriu as portas aos povos europeus e que hoje tenta cancelar qualquer traço de outras identidades que formam o “povo brasileiro” e que está dando seus frutos: a aniquilação violenta, silenciosa, programada da população afro e indígena!!!
A tudo isso nós gritamos: Chega de Antenores e de Griseldas, chega de extermínio cultural programado, chega de informação manipulada en mome da liberdade de expressão !!! CHEGA!!!!!

Autor: CENPAH

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