racismo

Seu Jorge, o racismo na Itália e o racismo no Brasil, uma reflexão!

A entrevista do Seu Jorge sobre sua experiência com o racismo italiano causou justa comoção em muitos brasileiros, seu depoimento e observações provocam contudo, algumas rápidas reflexões.
Seu Jorge se mostra uma pessoa muito sensível, além do talento artístico que possui.
Sou fã de Seu Jorge desde o Farofa Carioca desde os tempos das quebradas de Santa Teresa.
Ouvi nesta sua entrevista, seu depoimento, seu desabafo, sua decepção com a Itália, uma ex-potência colonial. Mas também ouvi suas ilusões de como gostaria de ser reconhecido – como o grande artista que é – como o são os jogadores de futebol pelas torcidas italianas. Mas faltou a ele reconhecer que são talentos diferentes, os de Seu Jorge e dos jogadores de futebol brasileiros. E os públicos também são diferentes. Ou nem tanto, talvez o contexto deveria ser diferente: um show de Seu Jorge num campo de futebol com jogadores brasileiros no camarote certamente lhe daria a consagração que não teve.
Mas neste caso, Seu Jorge era um ator na meca do cinema italiano. E nos bastidores surpreendeu-se com a cena invertida da realidade por trás da fantasia.
A decepção de Seu Jorge parece proporcional às suas expectativas frustradas.
Não me ocorre deixar de me indignar com o que ele passou junto a sua filha ou deixar de me sensibilizar com os seus sentimentos, seu choque pessoal e suas dores de amores.
Por outro lado, é curiosa a coincidência como ele e muitos brasileiros declaram sentir na Europa o racismo que não “sentem” no Brasil.
Acho que vai daí algumas ilusões que eu atribuo a eficácia do racismo no Brasil que outros enxergam como tolerância ou brandura. (Veja mais sobre esta discussão numa postagem sobre o racismo de Ziraldo no Carnaval em que homenageia Monteiro Lobato).
É também curiosa a diferença que Seu Jorge encontra em sentir o preconceito racial no Brasil e sentir o racismo na Itália. Da maneira como ele diz o preconceito no Brasil é fácil de lidar e ele não vê como racismo, mas a Itália com o isolamento num país literalmente de brancos tudo parece diferente.
Como ele diz na entrevista parece que o preconceito racial e racismo são coisas separadas ou diferentes entre si.
Com toda a reverência que faço ao talento de Seu Jorge não vou por isso deixar de me remeter à sua juventude suburbana para tentar apontar nas atividades profissionais que exerceu como office-boy ou recruta no Exército brasileiro que ele pudesse passar por elas sem sofrer algum constrangimento por preconceito racista numa porta de Banco ou num dia treinamento militar.
Bem, estas são algumas das formas diretas do preconceito racial que ele não viu e sentiu muito comuns entre nós brasileiros. Mas junto a este racismo direto existe o racismo indireto das formas e práticas institucionais que resultam tanto na invisibilidade quanto na insensibilidade do próprio negro para perceber o racismo. Este parecer ser um dos enigmas do depoimento de Seu Jorge, o de deixar de perceber o racismo institucional que no Brasil é naturalizado. Mas que na Itália parece a ele mais nítido o racismo ao ter que deixar de “tomar sua cervejinha” ou acompanhar os amigos no restaurante, isso incomoda, dói, fere a nossa auto estima, sem dúvida.
Talvez para Seu Jorge as lembranças da vida de negro comum no Brasil seja algo distante ou pertençam a um passado seu que não vale a pena lembrar. Afinal, podemos acionar este mecanismo de esquecimento das memórias desagradáveis
O que vale mais agora é pensar no presente-futuro…
Uma carreira de merecidos sucessos a percorrer…
E pelo talento de Seu Jorge tudo isso será merecido.
Mas como troco ao negro que ascende socialmente, junto ao seu reconhecimento público com maior número de portas abertas vem também o isolamento, a adulação, o encobrimento da realidade que mesmo sem as delícias do sucesso profissional a maioria dos negros tem que aceitar mesmo enxergando-a. A realidade de que o preconceito racial no Brasil não é tão brando quanto parece mas que a ilusão da democracia racial ou mesmo sua risível negação (“não sou/somos racistas”) transformou numa prática invisível para alguns e insensível para outros.
fonte: Blog Beleza Negra

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