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2011, ANO INTERNACIONAL DAS POPULACOES AFRODESCENDENTES ACABA DE SER PUBLICADO “CONOCIMIENTO DESDE ADENTRO. LOS AFROSUDAMERICANOS HABLAN DE SUS PUEBLOS Y SUS HISTORIAS”

Publicado em dois volumes, totalizando cerca de 800 páginas, sob a coordenação da omnipresente antropóloga africana -americana, Sheila S. Walker, esta obra tenta de expor a leitura pelos próprios descendentes dos « Danados » da América do sul, hispânica, da sua evolução histórica, da sua modelagem linguística e do seu comportamento antropológico.
A trama iconográfica e relativamente inédita com bustos negróides descobertos durante escavações arqueológicas em Santa Fé, na imaculada Argentina, estampas sobre a marcação a ferro de preciosas « mucama », mulheres cativas, imagens de damas da aristocrata bonaerense na companhia dos seus « muleques » ou « molecas », mapas de itinerários terrestres transandinos, planos de sítios de concentração e de venda dos « Desaparecidos » de La Plata, diversas fotografias tais como as da Capela dos Negros de Chascomus, na branca Santa Maria de los Buenos Aires, de relíquias de santos « morenos » tais como os da Confraria de San Baltazar Camba cua, em Corrientes, no pais prateado.
Nota-se, ai, igualmente, a gravura, memorável, a da prestação do grupo de percussionistas e dançarinos da Nacion Congo Augunga, no meio do século XIX, na presença do Governador da Santíssima Trinidad de los Buenos Aires , Rosas, e de sua filha, a famosa candombefila, Manuelita, um desenho de casais melanodermes dançando o tango inicial, em Buenos Aires, em 1882, reproduções de capas de partituras de tango escritas pelos « nigers » e referenciadas El Africano ou Negro Raul.
Assim, reencontra-se, aí, as assinaturas do viril ideólogo Jesus Chucho Garcia, o actual Chefe da Missão Diplomática da Republica Bolivariana de Venezuela em Angola, da humilde pasionaria de Santa Fé do pais prateado, Lúcia Dominga Molina e do seu companheiro, que acaba de nos deixar, Mário Luis Lopes, o inesperado e famoso boliviano Juan Angola Maconde, do seu verdadeiro nome.
HISTORIOGRAFIA
Nota-se, aí, igualmente, a activista cultural chilena, Marta Victoria Salgado Henriquez, o historiador colombiano Raul Platicon Caicedo, o antropólogo equatoriano José Chala Cruz, o especialista em assuntos de desenvolvimento paraguaio José Carlos Medina Alfonso e a sua compatriota, pedagogo, Lazara Medina Benitez, o investigador peruviano Oswaldo Bilbao Lobaton e o seu concidadão, historiador, Newton Mori Julca e, enfim, o uruguai Juan Pedro Machado.
A importância desta compilação e amostrada pelas diversas instituições que contribuíram para sua publicação. Com efeito, nota, aí, a venerável Fundação Interamericana, a organização católica canadiana « Desenvolvimento e Paz» e, sobretudo, o Programa de Investigações Estratégicas da Bolívia.
Na sua introdução, Sheila S. Walker, Presidente de Afrodiaspora, rede baseada em Washington, plante bem o posicionamento tomado na concepção da obra. E, compreende-se, perfeitamente, em ultima analise, que não e uma recita de caçador de leões, mais, os leões que relatem a sua sobrevivência.
Coloca, simbolicamente, retomando Joseph Ki-Zerbo, este notável facto histórico, sob a influência salvadora de Osíris. A acção do Deus egípcio da Ressurreição parece trazer, hoje, mais esclarecimentos a historia e a cultura dos sul – saarianos nas Américas e nas Caraíbas.
Nota a constituição, na Universidade norte – americana de Emory, da fabulosa base de dados sobre a Trafico Negreiro Transatlântica, que recenseou, cerca de 35 000 chegadas de navios -cárceres nas costas do Novo Mundo, com o conjunto das suas precisões técnicas e estatísticas assim que as suas dezenas de linhas de navegação. Esses navios que carregaram, nos seus porões, entre 12 às 15 milhões de cativos melanodermes.
A antiga Professor na Universidade do Texas, em Austin, pensa que o reexame da historiografia dos « Wretched » do Atlântico, já foi engajado e que as pequenas comunidades negras no continente americano e nas ilhas das Caraíbas, merecem, mais que nunca, de ser postos em relevo ; nomeadamente, as componentes bantu, vindas, maioritariamente, das costas do antigo Kongo e da Colónia de Angola.
Baseia-se, por isso, sobre as ultimas confirmações feitas pela historiadora originaria de Trinidad e Tobago, Linda Heywood, que estabelecem que quase a metade das « pecas de Indias » vindas de África central, embarcaram a partir do actual litoral de Angola.
Esta realidade se reflectira, naturalmente, no bloco continental e no conjunto insular.
Sheila Walker explora este dado, e recorda, entre outras indicações, a surpreendente constância, pluri direccional, do termo camba cua na América do sul. Atestou o no longínquo Vale de Quillabamba, em Cusco, no Péru.
ANGOLA-CONGOLENA
Insiste, bem subjectivamente, nesta linha de realce, recordando as sintomáticas perpetuações antroponímicas bantu, e, como exemplo, cita um documento de casamento de 1681, feito na Igreja de Pica, na Província de Tarapaca, no Chile, que indica que o noivo e filho de Manuel Angola e Maria Congo.
A ex docente da Spelman College de Atlanta cita, nas continuidades etnónimicas e toponímicas, as comunidades matamba e mocambique, na memorável região esclavagista de Veracruz, na costa caribenha do México ; a simpática localidade Angola, no Delaware ; o tórrido bairro de Lumbanga, em Arica, no Chile, e, o rio Coangue, antiga denominação do rio Choto, na costa Pacifica de Colômbia.
Enfim, no domínio da participação das « madeiras de ébano » na Igreja, a antropóloga nota a constituição, em Lima, no Peru, nos meados do século XVII, da « La Hermandad de los Angolas » e a cristalização, sincrética, a Curiepe, na emblemática localidade de Barlovento, da celebração de San Juan Congo.
Um outro culto afro- venezuelano e o consagrado à San Benito, onde ecoa, evidentemente, bem o membranofono chimbanguele.
Sob o impulso da pasionaria de Afrodiaspora, Lucia Dominga Molina e o saudoso Mário Luís Lopez, retomam as avaliações estatísticas de George Reid Andrews que estimam que 66% dos escravos desembarcados no porto do estuário do rio prateado venham da zona bantu, e nomeadamente do Reino do Kongo, da Colónia de Angola e de Moçambique ; sob o activismo dos sardónicos traficantes portugueses.
Retomam o mesmo autor para recordar as proveniências étnicas dos cativos, entre outros, bantu, atestadas na margem direita do Rio de La Plata.
Trata-se, para a “Cote de Angole”, dos Augunga, Basundi, Cambunda, Loango, Lubolo, Lumboma, Luumbi, Mayombe, Momboma, Mondongo, Umbonia, Zeda, Zongo, Benguela, Casanche, Ganguela, Huombe, Lucango, Majumbi, Munanda, Quipari, Quisama e Umbala.
Para a contra costa, os Malave, Macinga, Mauinga, Mocambique, Muchague, Mucherengue e Munambani.
O registo de Reid Andrews nota, também, como proveniência de escravos bantu difíceis a precisar, mais, visivelmente, « angola-congolena », os Bagungane, Hambuero, Monyolo e Villamoani.
São, eles que influenciarão a sociedade argentina com os seus ritmos de tambo, tango, candombe, zemba, milonga, cayengue e malambo, assim que os bailes conduzidos pelos « Reyes de Congo », cujas declinações coreográficas serão apoiadas pelos membranofonos bombo.
FEBRE PRATEADA
Introduzirão declamações tais que musimba, pega – la, macumbaliba, balicumba, licumba, sobre o umbigo ou molena, o coração.
Os « criele » produzirão as primeiras pecas de tango, dentro dos quais Tango negro, El candombe, Negroide, El menguengue, Pobre negra, Yo soy el negro, Negracha, etc.
Legarão, a partir do território de Mondongo, o actual bairro de Monserrat da capital federal, a nação branca, o delicioso prato de mondongo, arranjo culinário de tripas, durante muito tempo, reservado aos pobres lixeiros « camungere ».
Outros cativos bantu, em transito em Buenos Aires para a fabulosa mina de Potosi, dentro dos quais muitos serão embarcados em San Pablo de Loanda, cerca de 6000, entre 1602 e 1610. Com efeito, esta cidade era, naquela altura, sob a chefia do Governador, naturalmente, traficante de escravos, João Rodriguez Coutinho, que tinha assinado um contrato com a Audiência de Charcas.
A forte febre prateada de Potosi não poupara crianças que serão escravizados, como testemunha os documentos de venda dos « negritos bosales de nacion Angola ou Mocambique» na cidade de Oururo.
Face a importância da mão-de-obra vinda de África central junto do maior jazigo de prata do mundo, o Cerro Rico, no sul da Bolívia, esta massa à evangelizar, o Padre Diego de Torres ordenara, em 1622, a elaboração de uma « gramatica angolena ».
Este suporte linguístico se revelara muito útil, e, um segundo eclesiástico tomara a iniciativa de o melhorar. Esta gramática contribuira na fixação da « habla afro-boliviana ». Esta estabilizara as particularidades tais como candambira ou sazawuira mauchi, expressões fúnebres construídas, visivelmente, segundo Mónica Rey, a partir do kikongo, mbila nkanda, o apelo da família e wuisa mu nsi, vai para a terra e que ela te seja ligeira.
O canto será, evidentemente uma das modalidades da perpetuação deste falar crioulo. Uma das retenções será
Gulumbe, gulumba , do bantu, nlumbu, residência, regresso ao pais
Vamo a bel que trean de Angola, vamos vero que ele trouxe de Angola.
A « Confraria da Estrela » da cidade a mais rica das Américas, no século XVI e XVII, encorajara os seus aderentes de ir ver o que os « Reyes trajeron desde Angola ».
No fim da sua transferência para a costa Pacifica, no Chile, os Bantu, epicurianos, serão conhecidos como dançarinos de catimbaos, do bantu, catinga, cheiro de negros ; criadores dos ritmos sandunguera, do bantu zanguna, movem-se! ou o célebre cueca ou zamacueca, exibição pelviana, corrigida pelo flamenco espanhol.
VALE INTER ANDINA
Esta expressão coreográfica chilena tem por origem uma dança introduzida pelos « los angolenos hasta el Peru: el lundu » ; o que parece, bastante justo, esta construção, ritual, logicamente, muito lasciva, é executada, na África central, durante os ritos de preces de fecundidade. Será, evidentemente, rapidamente proibida…
Notar-se-a que, o espanhol chileno fixara, numa linha sinonímica, genérica, conga, como festa.
Esses hedonistas, oprimidos, serão instalados nas regiões Pacifico de Colômbia. Registar-se-a, ai, de 1580 à 1640, nomeadamente, os manicongo, os anzico e os angola.
As primeiras famílias, que constituirão o palenque de Chota, serão, nomeadamente, conhecidas como congo e gangula ; o que permitira a fixação do antropónimo loango. Este facto e atestado num documento de arquivo no qual os parentes, pela forca de uma lei de 1821, solicitem o baptismo e a liberdade para os seus filhos, menores, José Loango e Carolina Loango.
Dois potenciais liders « bandeleros », vindos da volátil Jamaica, serão assinalados, na estratégica região, mineira, de Choco, José Nongo e Nicolas Nanga.
A grande localidade, emblemática, da sobrevivência bantu, na zona, e Mulalo, do bantu, aldeia – dormitório, situada na banda esquerda do Vale inter andino do rio Cauca.
Cativos bantu serão introduzidos no Paraguai a favor de um decreto real de 1571 permitindo a sua importação das possessões portuguesas. Esses, fugitivos, entrarão, igualmente, no Vice-Reinado do Alto – Peru pela fronteira brasileira ; sendo as relações entre as duas colónias de dominação ibérica bastante frias.
Os originários de África central e austral perpetuarão, nomeadamente, no departamento da Cordillera, a festa de Camba Ra’anga, mascaras negróides.
De realçar que o facto niger, no antigo território dos Guaranis será designado como camba, com especificações camba kokue, camba mba’epu, etc. A dança mascarada mokokue e, hoje, ainda, na África central, exibida.
Esses camba, companheiros de infortúnio, serão conduzidos no Peru. De destacar, entre 1560 e 1650, a instalação dos bantu, acorrentados, tais que os congo, anchico, benguela, angola, alonga, malemba/ malamba, mosanga, mocambique.
Esses plantadores de cana-de-açúcar tentarão de organizar um palenque, em 1713, na localidade de Huachipa, sob a conduta de Francisco Congo.
ESTROFE
A população dos « lunderos» sobre as terras inca, estimada, no século XVII, entre 10 e 15 % da população total, obrigou o Arcebispado de Lima a elaborar, em 1628, um catecismo para « los negros que vienen de Angola… ».
A esse respeito, o prolifico afro-americanista francês, Jean-Pierre Tardieu, publicará, em 1993, em Madrid e Paris, o seu famoso artigo : “ Los jesuitas y la lengua de Angola en Peru (S. XVII).”
Os peruvianos de ébano confortarão, paralelamente, a confirmação da sua fé crista, as suas « calendulas », tradições orais.
Portadores de uma inteligência coreográfica, rica e variada, eles influenciarão o pais andino, nos passos de dança, como o sublinha Fernando Romero, no seu estudo: « De la zamba de Africa a la marinera del Peru ».
Contingentes de «malungu», sem grilhetas, influenciarão, igualmente, a sociedade colonial na zona leste do rio Uruguai, após a instalação, entre 1756 e 1810, dos Angola, Benguela, Cabinda, Loango e Mocambique.
O recenseamento efectuado entre 1812 e 1813 precisará outras origens : mojumbo, monyolo, muyolo, muzumbi, mujumbi, magumbe, mocholo, mugumbi, mongolo, sango, lubolo, luboro, dubolo, ubolo, obolo, bola, bolo, bengula, bangela, bengales, ganguela, gangela, gunga, basundi, boima e melombes.
Alguns, sem etiquetas étnicas, embarcarão na Isla Príncipe, Rio Congo ou Zona del Congo. Redução
Prudente, a administração decidira, entre 1870 e 1880, a limitação das demonstrações candombes nas salas. Viu-se, então, a criação de Junta de Morenos Congos ou a dos Mocambiques.
Esta medida não garantia, realmente, a segurança em Montevideu. Com efeito, a insurreição de 1803 foi planificada pelo um grupo associado a Sala de los Congos.
O Canto Patriótico dos Calungague, celebrando, num saboroso crioulo, ao mesmo tempo, a Lei da Liberdade para os filhos de escravos nascidos na Banda Oriental e a Constituição de 1830, e revelador do povoamento, forcado, bantu, das Províncias Unidas do Rio de la Plata.
Com efeito, uma estrofe, triunfante, afirma que « no se puede se cativo : “ …po leso la lo Camunda, lo Casenche, lo Cabinda, lo Banguela, lo Moyolo, tulo canta, tulo glita ».
A poesia afro – uruguaiana fixara, naturalmente, expressões bantu tais como samba bo, bailar, catamba, demonstrar, bambula, exibir, música de sucesso que continuou ate nos fins do século XIX.
A investigação recente insistira, igualmente, a sublinhar, a componente bantu da antiga Província Cisplatina ; sendo, o exemplo o mais edificante, a obra de Romero Jorge Rodriguez intitulada « Mbundo Malungo a Mundele ».
Os Atu, que sobreviveram ao “Oceano das dores” não esqueceram nada. Serão, na Venezuela, na liderança das revoltas ou mesmo de um verdadeiro golpe de Estado, descoberto em 1749, e, no qual os inspiradores são, Francisco, Manuel, Miguel e Simon, todos, loango.
A publicação de « Conocimiento desde adentro. Los afrosudamericanos hablan de sus pueblos y sus historias » e uma nova tentativa heurística, louvável, cujo Olaudah Equiano (1745 – 1797), o escravo – escritor, já tinha proposto, com brio, ao mundo.
Este ensaio deve, obrigatoriamente, ter prolongamentos visando uma exploração, continua dos arquivos – a digitalização dos documentos facilitando, extraordinariamente, a investigação neste sentido.
Deve-se, paralelamente, envidar, esforços para construir uma verdadeira disciplina de linguística comparada entre as línguas africanas e as suas retenções nas Américas e nas Caraíbas. A demarche será, evidentemente, extendida a analise antropológica dos factos de civilizações, cujo potencial de estudo ainda não foi atingido.
Essas perspectivas científicas permitirão de consolidar as bases da dignidade e auto estima dos milhões de « negersklavers » sacrificados no altar da insolente prosperidade de uma Europa que engajou-se, corpo e alma, num mercantilismo expansionista e devastador, neste Ano Internacional consagrada as Populações Afro descendentes.
Par Simao SOUINDOULA
Comité Cientifico Internacional
Projecto da UNESCO « A Rota do Escravo »
C.P. 2313
Luanda (Angola)
Tel. : + 244 929 79 32 77

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