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Um negro no Império


“A SENHORA, POR ACASO, TEM CONHECIMENTO QUE O IDEALIZADOR E PRIMEIRO PRESIDENTE DO INSTITUTO DOS ADVOGADOS DO BRASIL, QUE DEU ORIGEM À ORDEM DOS ADVOGADOS BRASIL, ERA UM NEGRO?”,

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A questão foi disparada à advogada Maria da Penha Guimarães, na metade da década de 80, pelo então presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Hermam Assis Beta. Para Maria da Penha, ficou a surpresa e uma certa indignação. “Pensei: ‘por que uma informação de tamanha relevância para nós, afrodescendetes, não é contada?”, relembra. Com a valiosa descoberta, a advogada logo se interessou pela história de Francisco Jê Acaiaba de Montezuma, o Visconde de Jequitinhonha. A ideia de escrever um livro sobre ele nasceu em 1985, porém, somente 8 anos depois, a obra, Visconde de Jequitinhonha, um negro no império, foi editada com o apoio de OAB-SP, através de seu presidente na época, Carlos Miguel Aidar. “Em um prazo recorde, com o auxílio da historiadora Elisangela Gonçalves de Souza, iniciei uma ampla pesquisa para descobrir quem tinha sido este importante personagem da nossa história”, conta Maria da Penha.

QUEM FOI ELE?
Francisco Gomes Brandão – seu nome de batismo – nasceu em 1794, em Salvador, filho de um comerciante português, Manuel Gomes Brandão, e da negra Narcisa Teresa de Jesus Barreto (família com boas condições financeiras). Na época, Salvador – assim como em outros cantos do país – respirava os ideais libertários da Revolução Francesa. Um movimento de negros e mestiços sonhava em criar uma sociedade justa, igualitária e com liberdade para todos. Ousaram escrever um projeto que discutia um Brasil melhor. Para isso, espalharam panfletos no Centro Histórico da cidade:
Aviso ao povo Baianense – “Está para chegar o tempo feliz da nossa liberdade, tempo em que todos seremos irmãos, tempo em que todos seremos iguais”, dizia o cartaz.
O pai queria que o filho se ordenasse padre e, em 1808, ele ingressou no Seminário Franciscano de Salvador.Vocação para isso, porém, Francisco não tinha, mas arriscou algumas orações até 1816, quando, contrariando a vontade paterna e seguindo seu espírito rebelde e questionador, foi estudar na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em Portugal. Francisco se formou em 1821. De volta à Bahia, em um período tumultuado de transição, em que novos ares soavam por todos os lados, Francisco se transformou um grande defensor da independência ao lado do jornalista Francisco Corte Real. Juntos, fundaram o jornal O Constitucional, que passou a ser o veículo mais promissor dos interesses dos baianos diante dos portugueses. Grande orador na época, Francisco foi um dos homens mais ativos nas lutas pela independência da Bahia, passando a atuar junto ao Governo Provisório que se formava na Vila de Cachoeira, favorável a Dom Pedro I.
Proclamada a Independência (do Brasil, em 1822, e da Bahia, em 1823), adotou o nome de Francisco Gê Acayaba de Montezuma e, aos poucos, foi se aproximando do império.

ABOLICIONISTA FORA DE ÉPOCA

Com prestígio junto à corte por sua participação nas lutas abolicionistas, Francisco de Montezuma foi agraciado pelo imperador com o título de Barão de Cachoeira, mas a honraria foi recusada e foi substituída pelo título de comendador da Imperial Ordem do Cruzeiro. Em 1823, iniciou a sua meteórica carreira política. Eleito deputado e considerado polêmico por muitos, fez de seu discurso ácido uma grande arma na corte. Logo de cara, se mostrou um grande opositor do ministro da Guerra; foi preso e exilado na França, onde ficou por 8 anos. Ao voltar, foi um dos parlamentares eleitos para a Assembleia geral Constituinte, em 1831. Ali, Francisco – cheio de ideias inovadoras que o tempo de exílio lhe proporcionou – ocupou um lugar de destaque. Com planos abolicionistas, se tornou o primeiro deputado brasileiro a gritar e a lutar contra o tráfico de escravos no país. Nessa época, pensamentos assim não eram vistos com bons olhos, mas Francisco, negro arredio e cheio de coragem, não parou mais de questionar o fato. Foi ainda ministro da Justiça (1837) e dos Estrangeiros, diplomata junto ao Império Britânico e conselheiro de Estado (1850). Um ano depois, elegeu se senador pela Bahia. O auge de sua carreira política aconteceu em 1854, quando conquistou um cobiçado título de nobreza A partir de 2 de dezembro daquele ano, Francisco Gê Acayaba de Montezuma passou a ser conhecido como visconde de Jequitinhonha.

“Montezuma foi o primeiro e único negro brasileiro que recebeu um título de visconde, cujo grau é superior ao de barão, mas continua escondido no calabouço da nossa história”, desabafa Maria da Penha.
Francisco Gê Acayaba de Montezuma, o Visconde de Jequitinhonha, morreu em 1870, aos 76 anos, em decorrência de tuberculose. “Para mim, visconde de Jequitinhonha foi o grande líder político da intelectualidade do seu tempo, enquanto Zumbi foi o líder das massas libertárias. A importância desse personagem ultrapassa as fronteiras brasileiras”, resume Maria da Penha Guimarães.

fonte: RAÇA

Um pensamento sobre “Um negro no Império

  1. Boa noite!Fiquei muito interessado em adquirir o livro, mas já procurei bastante não encontro na internet qualquer site que o disponibilize para a compra.Vocês saberiam indicar alguma alternativa, ou mesmo disponibilizar o contato eletrônico da autora?Obrigado!Forte abraço, e parabéns pela iniciativa!

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