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A África dos reis, antes de Portugal


Foi a leitura de Gilberto Freyre que abriu as portas da África para o ex-embaixador do Brasil na Nigéria e Benin, o acadêmico Alberto da Costa e Silva, embora o autor de Casa-Grande & Senzala seja lido hoje com alguma reserva pelo diplomata. Ele acaba de completar 80 anos justamente no lançamento da quinta edição do clássico A Enxada e a Lança, que conta a história da África antes da chegada dos portugueses. A nova edição, revista e ampliada, é apresentada por Laurentino Gomes. Segundo o autor de 1808, o livro “ajuda a desmontar alguns mitos que a falta de conhecimento criou a respeito da África”. O principal deles se refere à escravidão, atribuída à chegada dos portugueses quando já existia na África. O tráfico transatlântico de escravos tratou-se, antes, de uma operação comercial de europeus, americanos e africanos analisada nesta entrevista, concedida na sede da Academia Brasileira de Letras.
A entrevista é de Antonio Gonçalves Filho e Lilia Moritz Schwarcz e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 11-06-2011.
Eis a entrevista.
Seu livro A Enxada e a Lança completa 20 anos com nova edição. O que mudou em sua visão da África, cuja história era praticamente desconhecida no Brasil, a ponto de seu editor desafiá-lo a contar o que sabia do continente usando a imaginação – o húmus do jardim de Clio, como o senhor sempre diz.
A imaginação continua tendo um papel importante quando se conta essa história, pois os estudos africanos se orientaram mais para a África moderna. Quando o livro saiu, praticamente não havia literatura brasileira sobre a África. Tínhamos alguns autores que haviam escrito sobre suas experiências africanas, como Lacerda e Almeida e João da Silva Feijó, um carioca que trabalhou para a Coroa Portuguesa em Cabo Verde no fim do século XVIII. Tirando esses depoimentos de brasileiros que serviram ao Império na África como súditos do rei, não havia um livro moderno sobre o que era a África antes da chegada dos portugueses. Havia uma literatura respeitável sobre o negro brasileiro, mas era com se esse africano tivesse nascido e se formado nos navios negreiros, como se não trouxesse com ele toda a história do seu povo, seus costumes, seus valores. A única exceção é o antropólogo Arthur Araújo Ramos, autor deIntrodução à Antropologia Brasileira (1943), mas ele morreu prematuramente (aos 46 anos, em 1949, em Paris). A África para nós era, então, rigorosamente o continente “negro”, escuro, sobre o qual nada se sabia.
Na maior parte das vezes, os líderes dos povoados africanos não tinham a menor ideia do que faziam os historiadores brancos. Como o senhor retrabalhou essa história ligada a uma tradição oral?
Eu não retrabalhei a história, não lidei com a história oral, esse foi um trabalho de homens que imaginavam estar recolhendo contos orais, ficção, e não transcrições de realidades passadas. Acontece que os nativos só contavam o que queriam, o que não quer dizer que eles tivessem falseado inteiramente a verdade. Mas, voltando ao Brasil, oArthur Ramos foi mesmo o grande conhecedor da cultura africana. Gilberto Freyresabia muito pouco sobre ela, embora não tenha cometido o equívoco de achar que o negro chegou despido ao Brasil. Ele apenas não conhecia como o negro estava culturalmente vestido na África.

Mas o senhor sempre disse que o livro de Freyre, Casa-Grande & Senzala, foi a faísca que despertou seu interesse pela África…
Sim, foi. Pela primeira vez eu vi o negro como participante da história, e não apenas como mão de obra cativa. Quando você lê os autores daquela época, mesmo autores muitos bons como o Caio Prado Júnior, você vê que a posição do negro é quase marginal. Ele só entra na história como força de trabalho. Até Mário de Andradecometeu equívocos ao falar da cultura africana.
E no livro há um exemplo claro quando Mário de Andrade analisa um maracatu do Recife. Segundo ele, a palavra calunga teria mudado de significado no Brasil, passando do conceito originário de “chefe” para a boneca enfeitada de fitas que representaria o poder dos sobas. O que se deu foi justamente o contrário, segundo seu livro.
Pois é. Mário de Andrade, no livro Música, Doce Música, ao falar do berimbau, comete outro equívoco. Mário descreve um bugre que toca um instrumento semelhante ao urucungo ou berimbau de barriga, mas sem a cabaça que se comprime contra o corpo. O rapaz, com o arco na altura do ombro, na horizontal, batia com a vareta na corda e, com os dentes na corda, mexendo com a boca, mudava os tons, ao mesmo tempo que a usava como caixa de ressonância. Faz um levantamento dos autores que citam ou descrevem o instrumento no Brasil, mas, deixando a suspeita de que pudesse tratar-se de instrumento ameríndio, não atina que era um arco musical comum em boa parte de Angola, Moçambique, Namíbia e África do Sul, o chipendani.
Quando se fala na África, a tendência é considerar o continente uma só cultura e esse equívoco prevalece…
É um equívoco muito grande. No Brasil aconteceu algo muito interessante que, sem o conhecimento da África, é difícil explicar. É que nós criamos aqui novas nacionalidades. No Brasil, pela primeira vez, um jalofo do Senegal viu um tonga de Moçambique, um edo da Nigéria viu um andongo de Angola. Aqui, você teve a confluência das mais diferentes culturas e línguas africanas. Nesse matrimônio, alguns grupos saíram mais vitoriosos que outros porque conseguiram impor seus padrões culturais com mais facilidade, como os andongos no Rio e os iorubás na Bahia.
O senhor afirma que a escravidão não foi uma “invenção” dos portugueses, que ela já existia na África e era um comércio de longa tradição organizado pelos próprios africanos. Que diferença básica existe entre a escravidão do mundo clássico e a do africano?
A escravidão existia até entre os índios. Os tupinambás conheciam a escravidão, assim como os índios norte-americanos. O que distingue a escravidão transatlântica, ou seja, a do Brasil, que foi o maior receptador de escravos do mundo, é que pela primeira vez ela é racial. Na Europa ou na Ásia você podia escravizar qualquer pessoa. Na escravização americana, não. Ela passa a depender da cor da pele. Não há escravidão, mas sim escravidões.
A história do tráfico de escravos no Atlântico é essencialmente econômica, como o senhor escreve em seu livro. Não seriam as condições precárias de vida que forçavam os africanos a se tornar comerciantes de escravos, a vender membros da própria família?
Não, essa é uma outra história. Foram mais ou menos 4 milhões de escravos que vieram para o Brasil. Não é um número exato, pois nunca se saberá ao certo por causa do contrabando. A escravidão está, sim, ligada ao comércio. O escravo, transformado em mercadoria, renasce com uma nova condição. É por isso que a escravidão só é eficiente quando o escravo é levado para longe. Ele precisa ser despido de sua língua, de sua cultura, de sua paisagem. Nesse sentido, os antigos intérpretes do Brasil estavam certos ao pensar que a história do negro começava no navio negreiro, e não na África. Mas estavam certos do ponto de vista do escravizador, não do escravizado, e todo o esforço da nova historiografia brasileira tem sido o de reverter essa situação. Estou desenvolvendo uma teoria de que a casa-grande brasileira é um produto africano. Os africanos contaminaram a casa-grande com suas maneiras, com sua organização social. A arquitetura pode ser portuguesa, pois a casa-grande é mesmo uma quinta, mas a organização social, não. Quando se lê Freyre, o que se vê na casa-grande é um senhor que pode tudo, autocrata, casado, mas com várias concubinas, com quem tinha vários filhos que mandava estudar em Coimbra – daí a elite letrada brasileira ser mestiça. Há também a figura do agregado, que dá força política a essa estrutura, no Brasil e na África. Você tem aqui uma estrutura mais semelhante à dos portentados da África Ocidental do que de Portugal.
O senhor chamou a atenção para um ponto abordado no livro, que é o da influência africana no modo de construir a casa brasileira, presença visível nas casas de sopapo.
O português só conhecia a taipa, como se vê nas antigas construções do Rio. Mas a casa popular no Brasil era feita com armação de madeira, amarrada em xadrez e com barro atirado nela. Havia até mocambos de dois andares, como na África. O Brasil não repete a África, mas a reinterpreta, e um exemplo disso é a janela, que não havia na casa de sopapo africana, e a porta do fundo, que é o lugar de libertação do escravo, por onde ele pode sair sem ser visto. A rua é sempre o espaço da liberdade para o escravo e a casa é o da prisão – daí que não tenho a menor simpatia pelo que se chama de escravidão benévola, pois na casa-grande o negro estava o tempo todo sob os olhos do senhor, sob controle.
Há um aspecto curioso no livro ligado à imaginação. Há vazios na história africana que são preenchidos com a ajuda da ficção.Por que o senhor assumiu imprimir a lenda?
Porque a lenda faz parte da história. Quando se escreve a história de Roma, fala-se da loba e de Rômulo e Remo. Quando se fala em Lisboa, fala-se de Ulisses, que chega para fundar a cidade. O mito fecunda a história. Da mesma forma, essas lendas africanas têm de ser contadas para entender, por exemplo, os iorubás, que são importantes na construção da personalidade brasileira. Não é que fossem numerosos, mas foram urbanos, se concentraram nas cidades e, graças a isso, preservaram melhor suas tradições. Descobrimos que tínhamos uma Grécia aqui, o mundo dos orixás.
fonte: IHU

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