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>AMÉRICA LATINA: ONDE FLORESCE O HIP HOP POLÍTICO

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Por Spensy Pimentel, 21.11.2010
Vinte anos atrás, o rap político chegava ao seu auge nos EUA. Grupos como Public Enemy, Boogie Down Productions (BDP) e Niggers with Attitude (NWA) expressavam, cada um a seu modo, o descontentamento dos habitantes dos guetos das grandes cidades do país com a falta de oportunidades econômicas para os mais pobres e a violencia policial, especialmente contra negros e latinos. A virulência das letras, recuperando muitas idéias e nomes do movimento negro dos anos 60 e 70, chamava a atenção, e os grupos chegaram a ser alvo de investigações do FBI. Congressistas da direita faziam discursos raivosos e paranóicos.
Causa? Efeito? Sintoma, de qualquer modo. Enquanto ecoavam pelos guetos negros e latinos dos EUA versos virulentos contra a polícia, como “Fuck the police” / “They have the authority to kill a minority”, do NWA, uma insatisfação crescente desembocou em uma série de revoltas em 1992, principalmente a partir de Los Angeles, onde policiais acusados de espancar o taxista negro Rodney King, flagrados por um cinegrafista amador um ano antes, foram absolvidos por um júri formado majoritariamente por brancos.
Logo depois, os ventos mudaram nos EUA. A sucessão de governos republicanos – que costumam cortar os gastos públicos, principalmente destinados à assistência social – foi interrompida em 1993 pela chegada do democrata Bill Clinton. A queda do muro de Berlim, em 1989, deu força ao projeto neoliberal traduzido no decálogo do Consenso de Washington, e os anos 90 foram marcados pela imposição dos padrões econômicos que interessavam aos mercados financeiros. Na América Latina, uma leva de governos francamente alinhados com os EUA produziu abertura dos mercados, privatizações e o desmantelamento da economia. Os rentistas – os que vivem de juros – lucraram como nunca. Em menor ou maior grau, o continente foi à lona e sofre até hoje as consequencias da adoção das famosas lições de casa de organismos como o FMI e o Banco Mundial.
A música dos guetos continuou a refletir o zeitgeist, o espírito do mundo. Favorecida pelas políticas de livre mercado, as privatizações e as novas tecnologias, com o advento da internet, sobretudo, a economia americana viveu um período de grande prosperidade. Em paralelo, o rap ganhou espaço no mainstream (3M: mercado, mídia, moda) ao mesmo tempo em que o protesto político passou a ser uma corrente minoritária. Ganhava espaço, principalmente, o gangsta rap, cada vez mais celebrando um modo de vida consumista de artistas que passavam a ganhar dinheiro com a música. Se os clipes de rap antes denunciavam a violência da polícia contra os jovens negros na rua, agora passavam a mostrar como, mesmo em um automóvel luxuoso de último tipo um negro ainda podia ser parado como suspeito. No fio da navalha entre as duas tendências ficavam figuras como certo filho de Afeni Davis, uma antiga integrante do Black Panthers Party, conhecido como Tupac Shakur, mais tarde 2Pac.
Mas a centelha de consciência política e revolta trazida pelo Hip Hop como herança dos movimentos negros dos anos 60 e 70 não morreu, apenas emigrou. Escondida nos porões das naus da globalização neoliberal, ela se espalhou pelos continentes. Na França, foi trilha sonora das revoltas dos jovens dos bairros pobres contra as políticas liberais e a violência policial. Na Palestina, embala a luta dos jovens na Intifada. À África, o fruto da diáspora negra voltou para semear a desobediência civil contra o autoritarismo.
E foi na América Latina que a semente do Hip Hop encontrou o solo mais fértil. Na região que sofre desde o século XIX com a sombra da presença norte-americana, os ensinamentos sobre o valor da organização comunitária local na produção cultural ganham nova dimensão. Enquanto o Hip Hop se torna parte do cerne da indústria cultural norte-americano no fim dos anos 90, na América Latina, ele se converte em catalisador de núcleos de formação política nas periferias urbanas e voz dos oprimidos.
Milhares de jovens, aos quais não falavam os partidos, os sindicatos ou os movimentos negro e indígena, de repente estão a ler obras de Malcolm X e Martin Luther King, a procurar informações sobre líderes como Zumbi dos Palmares, Che Guevara, Luisa Mahin ou Tupak Katari, ao mesmo tempo em que promovem festas, cursos de dança, desenho e poesia, além de trabalhos sociais nas comunidades onde vivem. A maioria absoluta não vai se tornar campeão de vendas, não vai se tornar milionário, mas terá, certamente, a vida mudada por essa sutil combinação de arte e política em que se converteu o Hip Hop.
Ao sul do Rio Grande também se dança
Os mexicanos, que são quase 30 milhões, entre os nascidos no México ou seus descendentes, vivendo nos Estados Unidos, têm tamanha presença nos guetos americanos que o país poderia ser considerado quase tão importante na composição dos elementos do Hip Hop como a Jamaica – de onde vieram vários dos primeiros envolvidos nas festas de rua (block parties) onde surgiu o movimento, com elementos como o DJing e o Mcing. O rap chicano se impôs nos anos 90, e a arte do lowriding, por exemplo, típica das comunidades mexicanas na região de Los Angeles, foi definitivamente incorporada ao Hip Hop. Não há como ignorar, ainda, a possível influência da arte latino-americana no grafite, particularmente o muralismo centroamericano.
Desde os anos 90, ao mesmo tempo que é um dos mais castigados pelas políticas neoliberais, o país também gerou um movimento que virou referência para a resistência contemporânea ao capitalismo, o zapatismo. Rappers como Olmeca, que mora em Los Angeles, e Boca Floja demonstram a influência do EZLN.
Outro país latino-americano cujos imigrantes estiveram fortemente ligados às raizes do movimento é Porto Rico. Alguns dos primeiros Mcs, Djs, breakers e grafiteiros tinham ascendência portorriquenha – ou cubana, ou ambas. Era portorriquenho, por exemplo, Julio 204, precursor do grafite e do próprio Taki 183, o primeiro praticante das tagsa obter fama na mídia, em 1971. Outro descendente de portorriquenhos (e cubanos) era o DJ Disco Wiz, integrante de uma das primeiras crews de Mcs do Bronx.
Hoje, o rap político portorriquenho, conhecido como rap boricua, celebra a soberania do país e ataca os invasores norte-americanos. Em “Mano Dura”, Siete Nueve e Intifada denunciam a execução, por agentes do FBI, em 2005, de Filiberto Ojeda Rios, líder independentista. O vídeo de “Epica del Tiempo”, de Intifada, celebra a resistência à ocupação norte-americana, que já dura 112 anos.
Em 2008, na disputa entre Obama e McCain, o reggaeton, uma derivação latina do Hip Hop de apelo mais comercial, originária de Porto Rico, entrou na política eleitoral. Daddy Yankee declarou voto em McCain, e o rapper Siete Nueve pedia a ele: “Quedate callao!” Situação parecida ocorreu, também no governo Bush, com o sambista brasileiro Alexandre Pires, que chegou a chorar ao encontrar o presidente norte-americano. “Falhou, sujou, a bandeira brasileira / Envergonhando a América Latina inteira / Inocência, oportunismo, ignorância da história / Chorou nos braços de quem tem fama sem glória”, cantou para ele à época o rapper GOG.
No Brasil, o rap tornou-se, rapidamente, uma das principais expressões de um forte movimento de auto-afirmação da população negra e de reivindicação de espaços na política, na economia e na sociedade. Nomes como os dos Racionais MCs e GOG inspiraram milhares de jovens a procurar entender melhor sua história e sua vida. Toda uma geração de rappers obteve destaque no país desde o início dos anos 90, trazendo destaque à problemática da juventude negra nas periferias metropolitanas do país. São nomes como RZO, Sabotage, De Menos Crime, Conexão do Morro, MV Bill, Z’África Brasil, entre outros. Na década atual, os rumos dos trabalhos dos Racionais e de Bill, entre outros, causa debate no movimento, incluindo-se contratos com grandes empresas e aparições na maior rede de TV do país, a Globo, além de posicionar-se a favor de ações polêmicas do governo Lula como a coordenação da missão da ONU no Haiti.
Em tempos de bonança na economia, com um governo que tem aprovação de uma maioria absoluta da população negra e pobre, o rap político perdeu terreno. Ganhou espaço no país o funk carioca, por exemplo, uma derivação de um estilo do rap norte-americano, o miami bass, mais dançante e abordando temáticas mais ligadas à sexualidade. Ainda assim, o funk carioca enfrenta a criminalização, da mesma forma que outras manifestações culturais populares, principalmente devido a letras que abordam (e, do ponto de vista de alguns, exaltam) o crime organizado do Rio de Janeiro. Artistas do funk carioca como Deize Tigrona alçaram fama internacional.
Ao mesmo tempo, a maior consciência sobre os limites da tomada de poder por um partido de esquerda e a necessidade de continuar a luta social fora do âmbito estatal dão destaque a uma nova leva de ativistas-ativistas, como é o caso dos coletivos Lutarmada e Enraizados, ou mesmo do próprio movimento da literatura marginal ou periférica, uma transformação sui generis do Hip Hop, grande novidade dos últimos anos no país (vide, por exemplo, Donde Miras). A falência da indústria da música também enseja a reflexão sobre formas alternativas de distribuição, e novos padrões de comportamento diante da grande mídia e dos partidos políticos, como é o caso dos MCs Emicida, Rashid e Rapadura, ou dos grupos Facção Central e Tr3f – este último, do escritor Ferréz. Nem sempre se trata de uma “nova geração”. Há casos em que se trata de gente com anos de estrada no movimento, mas que representam esse novo momento que chegou para o Hip Hop no Brasil, diante da atual conjuntura política (o link acima é para um clipe do Facção Central que foi censurado pela Justiça em 1998).
Em outros países, como Venezuela e Cuba, onde há um explicito projeto socialista em marcha, os governos locais dão apoio massivo ao Hip Hop como forma de cultura jovem. Em Cuba, existe até mesmo um organismo estatal específico, a Agência Cubana de Rap, para dar suporte ao movimento. Intensa articulação com os afrocubanos nos EUA acontece em torno do evento Agosto Negro, que ocorre desde 1998 e envolve, entre outros elementos, a solidariedade com presos políticos negros nos EUA (como o padrasto de Tupac, preso até hoje) – por iniciativa da ativista Nehanda Abiodun, veterana do Black Power que obteve asilo político em Cuba. Nomes fortes dessa cena do rap político cubano são, entre outros, Anonimo Consejo, Los Aldeanos e Obsesión.
Na Venezuela, desde 2005, o governo ajuda a promover a Cúpula Internacional do Hip Hop, que é anual e já está em sua 5a edição. Aí estão grupos como o Hip Hop Revolución, Kultura Santa e Septima Raza. Em parceria com o governo, o movimento está criando a rede de Escolas Populares de Artes e Tradicoes Urbanas (Epatu). Pelas cúpulas venezuelanas já passaram grupos de vários países, como Legua York (Chile), Actitud María Marta (Argentina) e Metaforus (República Dominicana). E há, evidentemente, também, os que cantam contra o governo.
Uma das grandes novidades dos últimos anos, ainda, é o rap indígena. Na Bolivia, onde dois terços da população pertencem a algum dos mais de 35 povos originários do país, destaca-se a producao de El Alto, onde apareceu o grupo Wayna Rap, rimando em aymara (uma das duas principais etnias do país) e onde vivia o ativista Ukamau Y Ke, morto em 2009.
No Chile, os Mapuche, que são o principal grupo indigena do país, enfrentam pesada discriminação racial e violencia policial. A identificação com o Hip Hop é inevitável. Na fronteira do Brasil com o Paraguai, os Guarani-Kaiowa enfrentam situacao semelhante. Nas aldeias do grupo, superlotadas pelo confinamento promovido pelo governo brasileiro ao longo de todo o seculo XX, a fim de liberar as ricas terras da região para o agronegócio, os jovens enfrentam fome, doenças e falta de perspectivas sobre um futuro. O resultado tem sido muita violência, suicídios e, agora, como reação, o Hip Hop, cantado em guarani.
O Hip Hop na América Latina não para de evoluir e transformar-se. Como na metáfora dos modernistas brasileiros, evocando a herança dos índios tupi da costa brasileira, canibais à época da conquista, o continente promove uma antropofagia cultural, engolindo, digerindo e transformando a herança da diáspora negra. Neste momento, não só aparecem projetos que demonstram cada vez mais a consciência dessa realidade, como o recente disco Distant Relatives, do americano Nas e do jamaicano Damian Marley. Para além dos artistas de mais visibilidade, milhares de rappers, breakers, grafiteiros cada vez mais aproveitam oportunidades para viajar e promover encontros e intercâmbios. O resultado explosivo dessa união planetária será percebido em pouco tempo, tenho certeza.
PS: mesmo não sendo mais a principal corrente do Hip Hop nos EUA, o rap político continua resistindo. Artistas como Dead Prez, Mos Def, Talib Kweli, The Roots, Erikah Badu etc. mantêm a linha de resistência. A presenca de latinos e descendentes como Immortal Technique e Zack de la Rocha continua forte – quem diria que uma banda de rock como o Rage Against the Machine ajudaria a manter a linha de ataque num período em que grande parte dos rappers está mais preocupada em exibir-se com carros, roupas e jóias. Há até mesmo um imigrante haitiano como Wyclef Jean que tentou se candidatar a presidente de seu país natal.
PS2: este texto é um esforço para sistematizar uma enorme quantidade de informação. Agradecemos por quaisquer correções, acréscimos ou apartes com os quais os leitores possam contribuir.
PS3: dou mais destaque ao rap do que aos demais elementos do Hip Hop neste texto pela facilidade que a canção oferece de explicitação de ideais políticos. Não quer dizer, absolutamente, que não haja política no break e no grafite, apenas que, talvez, seja mais difícil para o grande público perceber isso, pelas sutilezas das linguagens não verbais.
(*) Spensy Pimentel é colunista do Centralhiphop.uol.com.br e autor do Livro Vermelho do Hip Hop (disponível para download em português emhttp://centralhiphop.uol.com.br/site/?url=biblioteca_detalhes.php&id=12 ) Matéria publicada originalmente em Desinformemenos.org, e republicada do Brasil de Fato.

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