história

>A cor da maior festa popular do Brasil

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Seja na senzala, nos mucambos ou nas favelas, variações de um lugar de segregação e opressão que persiste até hoje, os negros brasileiros, apesar de tudo, sempre fizeram o Carnaval.
Por Joceline Gomes, Fundação Palmares
Pintura de Portinari
Brasília Muitas são as versões da origem do Carnaval brasileiro como o conhecemos hoje. Alguns dizem que data da Idade Média, outros, do entrudo português, outros, ainda, que se trata de um feriado com origens religiosas. O que todas as versões têm em comum é ignorar a presença do negro e sua contribuição para uma das maiores manifestações populares afro-brasileiras.
Seja na senzala, nos mucambos ou nas favelas, variações de um lugar de segregação e opressão que persiste até hoje, os negros brasileiros, apesar de tudo, sempre fizeram o Carnaval, mesmo com poucos recursos ou apoio do Estado. Muitas vezes foram, inclusive, impedidos de celebrarem a data, sendo considerados “baderneiros” ou “não civilizados”.
Aqui, traçamos uma espécie de linha do tempo, para resgatar a história do Carnaval sob o viés daqueles que deram uma das maiores contribuições para essa grande festa de nosso País.
Entrudo
Tudo começou com o entrudo. A tradicional festa portuguesa, com origens que remetem ao século XV, envolvia, basicamente, jogar água, perfume ou farinha de trigo em outros foliões enquanto dançavam pelas ruas. Com os novos costumes trazidos pela família real para o Brasil, a festa mudou.
A moda era desfilar em carruagens enfeitadas pelas ruas, ocupadas por pessoas usando máscaras e fantasias vindas de Paris. Nesta época, também, surgiram os primeiros bailes em ambientes fechados, geralmente, clubes requintados, com bailes de máscaras para a nova elite brasileira.
Repressão
Ao final do regime escravocrata, os negros ainda escravizados não participavam destas festas, a não ser para servir aos seus senhores e convidados. Entretanto, os negros recém-alforriados, em oposição a esta maneira sóbria de celebração e para explicitar a alegria com sua liberdade, mantiveram a tradição do entrudo, vestindo-se de cores berrantes e saíam de casa em casa, comendo, bebendo e cantando.
No caminho, atiravam uns contra os outros ovos crus, pós-de-arroz e líquidos sujos, malcheirosos, como urina. Uma sociedade que não concordava sequer com a alforria dos escravos não poderia permitir uma “brincadeira” como essa, que terminava, invariavelmente, em prisões, violência, e, não raro, em morte.
Depois de muitos protestos e tentativas das autoridades de acabar com aquele tipo de festa por decreto, com multa e cadeia, surge a solução: levar os salões para as ruas e realizar bailes em lugares menos elegantes, para que os mais pobres pudessem participar da festa. Com o tempo, o entrudo se dissolve, até desaparecer completamente, no início do século XX, e dar espaço ao Carnaval atual, com blocos de rua, desfiles de escola de samba e programação local.
Tendo sido desprezados ao longo da história do Carnaval, os remanescentes dos negros que participavam do entrudo criaram as escolas de samba e os blocos afro e de afoxé, que resgatam e exibem, por meio da dança, da música, das roupas e das alegorias as contribuições da cultura africana para a formação da identidade brasileira.

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