ações afirmativas/Pastoral Afro

>Negro e Vida no Planeta

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A campanha da fraternidade 2011, fraternidade e vida no planeta, convida-nos  a pensar  e agir para que as relações entre o seres humanos com o nosso planeta sejam mais respeitosas e cuidadosas. Com este pequeno trabalho o Cenpah gostaria de começar a fazer uma leitura paralela e mais enriquecedora deste tipo de iniciativa. Por isso, queremos olhar através do ponto de vista dos Afro-brasileiros em relação à questão ecológica. Como seria interessante se nas próximas campanhas da Fraternidade sejam incluídas as perspectivas dos negros e dos povos indígenas nos trabalhos do texto base da CF!
São muitas as passagens bíblicas que convidam em assumir atitudes de reverência diante da obra de Deus, mas o mundo ocidental se relaciona com o planeta com uma postura de dominador. Devido a isso, com o passar do tempo, a terra se tornou o lugar a ser explorado seguindo um modelo de desenvolvimento que é insustentável porque não leva em conta que os recursos naturais são limitados.
Esta visão porém não é compartilhada por todos os povos da terra! Entre eles os descendentes da diáspora negra.
A história dos povos africanos é a mesma de toda humanidade: a da sobrevivência material, espiritual, intelectual e artística, mas que ficou marginalizada pela cultura dominante ocidental.
Em geral, os povos africanos consideram que o universo, está dividido em duas partes: o visível e o invisível. Entre os dois mundos existe uma forte ligação. Um exemplo vem da religião Yorubá: as relações entre os seres humanos e a natureza são indissolúveis e essenciais:
KOSI EWÉ
KOSI ORISA
(SEM FOLHAS NÃO EXISTE ORIXÁ)
Esta visão religiosa e cosmológica se baseia na relação entre os seres humanos e a natureza. As plantas, os animais, os fenómenos naturais em geral são manifestações do sagrado. O Yorubá reverência, louva, reconhece o sagrado, a manifestação do divino na natureza.
Um exemplo concreto o encontramos no Candomblé: uma religião monoteísta de matriz africana. Oludumaré é o Deus Supremo. Este é auxiliado pelas divindades denominadas Orixás. Os Orixás servem como “a ponte” para o encontro entre o homem e o sagrado. Os elementos da natureza são emanados dos Orixás, neste sentido, qualquer forma de degradação da natureza  é um desrespeito aos Orixás, por tanto ao Deus supremo também!
Em outras palavras,  a natureza é um espaço sagrado, de comunhão entre o mundo espiritual e o material, que deve ser respeitado e bem cuidado.
Que ensinamento bonito! Se todos tivéssemos consciência disso talvez não estaríamos jogando o lixo na rua, ou aceitando o atual  modelo de desenvolvimento que está literalmente destruindo o nosso planeta!
Não é por acaso  que as comunidades religiosas negras mantém um “espaço mato”(Ewé Osányìn), espaço de presença e manifestação do sagrado onde são cultivadas uma infinidade de folhas tanto de uso litúrgico quanto curativo.
Divindades e meio-ambiente estão tão unidos, na visão do candomblé, que não é possível haver culto sem a presença de elementos naturais, especialmente as folhas.
Um Itan (história) nos conta que:
“Orunmila precisava de um escravo para cultivar suas terras e comprou um escravo chamado Òsányìn. Ao chegar as terras de Orunmila, mandaram que ele cortasse o mato para o plantio de cereais. Ele se recusou dizendo que aquela planta curava dor de dente; mandaram que cortasse outra, novamente ele se recusa dizendo que aquela curava febre. Assim foi com todas as plantas, pois todas tinham alguma virtude. Orunmila, tomando conhecimento do valor das plantas resolveu mantê-lo junto de si para com ele aprender sobre as plantas.”
Tão importante são as folhas que, mesmo durante o período escravocrata, não encontrando determinadas folhas e frutos essenciais ao povo negro no Brasil, os negros conseguiram, através dos mais variados meios, contrabandear para o Brasil esses produtos como o Obi, o Orógbó, etc.
Podemos afirmar que antes que o tema da ecologia se tornasse moda nos lares, nas academias, na mídia,  uma cultura milenar africana, reelaborada em solo brasileiro, já promovia uma postura profundamente integradora entre o homem e a natureza. Infelizmente essa cultura foi tachada de “PRIMITIVA”, “INCIVILIZADA” enquanto ela , na verdade, sempre mostrou quanto profunda e respeitosa foi com o planeta Terra! Ela também nos ensina que o cuidado da natureza é uma tarefa não somente do indivíduo, mas da comunidade-sociedade como um todo. 
A pesar desta riqueza, a imposição da prática capitalista de descuido e descaso da natureza, afeta a vida de todos, inclusive dos povos Afro-descendentes. 
Nesta campanha sentimos forte o chamado a olhar para todas as culturas que não esqueceram a ligação profunda entre a humanidade e a natureza. Nós, Afro-descendentes, sabemos da grande herança cultural e religiosa que os nosso ancestrais nos deixaram e que ainda hoje são cultivados  e transmitidos nos terreiros do Brasil todo.
Por isso convidamos vocês a Refletir: 
1) A relação dos africanos com a natureza é de total interação. Mesmo assim , por muito tempo os africanos foram chamados de “PRIMITIVOS,” por serem grupos pré- capitalistas. Como vocês enxergam hoje os cultos  e os costumes dos afro brasileiros?
2) Os afrodescendentes mantêm viva a cosmovisão de uma  civilização com mais de seis mil anos de existência: como essa cultura nos sensibiliza hoje em relação ao cuidado com a natureza?
COMPROMISSO
Visitem um terreiro próximo de suas casas e conheçam como a tradições africanas cultivam o respeito sagrado para com a natureza!!!



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