Escola e educação/história

>DESCOBRINDO UM QUILOMBO

>

No ônibus iriam 25 pessoas, a maioria, como eu, pela primeira vez. Viajei ao lado de João Bosco Coelho, um homem apaixonado pela causa e que através do Instituto Luiz Gama desenvolve um trabalho de apoio jurídico às comunidades Quilombolas. Muitas vezes havia conversado com ele sobre o assunto, mas a verdade é que até aquela viagem, não tinha ideia da verdadeira dimensão da questão. Também não imaginava o tamanho da bagagem que traria de volta, um conteúdo que não encontraria em nenhum banco escolar. “Os quilombos não pertencem somente ao passado escravagista.
Ao contrário, mais de duas mil comunidades quilombolas espalhadas pelo território brasileiro mantêm-se vivas e atuantes. São casas simples construídas pelas mãos dos negros, que representam para a comunidade o valor da liberdade”, explica João Bosco. O Quilombo Caçandoquinha foi o escolhido. Ele faz parte de diversas comunidades, como Praia do Pulso, Caçandoca, Bairro Alto, Saco da Raposa, São Lourenço, Saco do Morcego, Saco da Banana e Praia do Simão. De acordo com o Incra, toda área possui 890 hectares, localizada em uma das mais valorizadas praias do litoral norte de São Paulo. Ao seu redor, existem pelo menos 3 luxuosos condomínios fechados, e exatamente por isto, é que o terreno virou palco de intermináveis disputas judiciais.
A história da comunidade iniciou-se em 1858, quando o português José Antunes de Sá comprou a Fazenda Caçandoca. Era dividida em três núcleos administrativos que abrigavam uma casa-sede e um engenho. Cada um deles administrado por um filho de José Antunes: Isídio, Marcolino e Simphonio. Do envolvimento com mulheres negras que trabalhavam nas terras, nasceram filhos ilegítimos. Em 1881 a fazenda foi dividida entre filhos e netos. Uma parte dos ex-escravos mudou-se para outras localidades. Outra permaneceu na condição de posseiros, com autorização para administrar seu próprio trabalho. Os filhos ilegítimos e ex-escravos deram origem às principais famílias que hoje formam a comunidade da Caçandoca.
Na fazenda produziam-se café e aguardente de cana-de-açúcar. Depois de seu desmembramento, em 1881, o café foi sucessivamente substituído pela banana e a mandioca. Estes alimentos foram vendidos pelos moradores até meados de 1970. A partir desta data a comunidade passou a enfrentar sérios conflitos em função da construção da rodovia BR 101, que liga a cidade de Santos à capital do Rio de Janeiro. Esta obra teve como consequência a expulsão de parte da comunidade de suas terras.
ZUMBI MODERNO

D. Maria, a matriarca do local

Eu não podia esconder a minha curiosidade em conhecer pessoalmente o guerreiro Mário, figura muito comentada no meio. Partiu dele – o principal organizador das festividades do Quilombo – o convite para o encontro. À boca miúda, já se sabia que era Mário que os moradores da comunidade procuravam quando havia qualquer tipo de problema. Um homem valente que alguns chamavam de Zumbi do Século 21. E foi com estas informações um tanto quanto lendárias, que cheguei ao quilombo.
Olhei ao meu redor e fiquei surpresa ao constatar que em um amplo pedaço de terra, a única coisa que ainda lembrava um quilombo, na sua característica mais rudimentar, era a memória histórica dos seus habitantes. O mar me convidou e fui admirá-lo sentada naquela areia branca. Fiquei por um bom tempo absorta com os meus pensamentos. Confesso que até um pouco intimidada. No fundo sabia que aquela viagem causaria em mim uma profunda metamorfose…
Hora do almoço e, no cardápio, peixe azul-marinho (peixe com banana). E foi nesse momento que pude conhecer o tão falado Mário Gabriel do Prado, e entender o porquê dos rumores em torno da sua pessoa. Presidente do Quilombo com apenas 33 anos de idade, Mário é uma pessoa de poucas palavras, mas quando seu discurso é sobre os quilombolas, seus olhos tomam outro brilho e a sua fala se torna extremamente afiada. Dedica-se de corpo e alma ao tema, protegendo sua terra e sua gente como um grande líder. “Fiz da minha vida, a vida da comunidade, meu maior orgulho é saber que sirvo de exemplo para eles. Digo sempre que devemos lutar pelos nossos direitos, custe o que custar. Nunca me cansarei de lutar pela dignidade do meu povo”, diz, com orgulho.

Entre a mata, uma das residências do Caçandoquinha. No detalhe (abaixo), a sede quilombola

OUTROS VALORES

Com a emoção à flor da pele e sedenta por conhecer mais histórias, resolvi conversar com o pessoal da excursão. Conheci o antropólogo José Carlos, que tanto quanto eu estava estupefato diante de tantas informações. Confessou-me que, depois daquele passeio, se dedicaria com mais profundidade à causa quilombola. Segui tagarelando pela orla da praia e neste interim conheci Neide Antunes de Sá. Uma das integrantes da Família Sá, permaneceu no Quilombo, mesmo diante de tantas dificuldades. Sua única filha tinha decidido estudar em uma importante Universidade no Paraná. Mas Neide ganhou outras dezenas de filhos. Há algum tempo vem desenvolvendo um trabalho de resgate com as crianças através de cantigas de rodas.
“ASSISTIR AS CRIANÇAS BRINCANDO DE RODA, ENTOANDO AQUELAS CANTIGA, COM AQUELAS ROUPAS CARACTERÍSTICAS, FOI UM DELEITE PARA OS MEUS OLHOS, ME FEZ RECORDAR OS MEUS TEMPOS DE CRIANÇA”

Neide Antunes de Sá (à esq.) usa cantigas de rodas em trabalhos com as crianças

“Assistir as crianças brincando de roda, entoando aquelas cantiga, com aquelas roupas características, foi um deleite para os meus olhos, me fez recordar os meus tempos de criança.” Neide afirma que, no começo, achou que as crianças não iriam gostar, mas ficou surpresa ao reparar a alegria e emoção que as brincadeiras despertaram nos pequenos. “É comum elas virem na porta da minha casa, me chamar para brincar, como se eu fosse uma delas. Eu amo este lugar, não saio daqui por nada neste mundo, já me ofereceram quantias exorbitantes, mas não aceito. Tenho criação de galinhas, fogão de lenha, ervas medicinais… Aonde vou encontrar tudo isto aí fora?”, questiona Neide.
Reunidos todos em volta da fogueira, após o apetitoso jantar, fomos presenteados com o som do grupo de reggae D`Zion, com direito um sarau improvisado. Outras comunidades quilombolas deram o ar da graça no encontro – Brotas, Cafundó, Espírito Santo da Fortaleza, Agudos e Caçandoca. Para a surpresa de todos, recebemos a visita do grupo de teatro Galpão dos Folias, que apresentou a peça Algo de Negro, espetáculo que faz uma severa crítica social, com bom humor e bastante lirismo. Depois de deixar a galera de boca aberta, o grupo se despediu, pois a trupe está circulando com o espetáculo em outra tantas comunidades quilombolas.

MISSA AFRO A NOSSA SENHORA
Foram postas cadeiras na beira da praia, e um altar foi construído… A missa, realizada de forma tradicional, ora ou outra dava a vez para um som mais estridente de atabaques, pandeiros e até cavaquinho. O auge da celebração se deu com a chegada cinematográfica da matriarca, D. Maria, que chegou em um barco do alto-mar, acompanhada com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A sua espera, dentro da água, estava seu filho Mário. A partir daí, não contive mais as lágrimas, a emoção calou minhas palavras. Uma grande procissão seguiu a matriarca e os padres. Todos juntos, cantavam, louvando a santa que D. Maria erguia sobre a cabeça. Com este cenário magnífico, terminei meus dias no Quilombo, com a certeza que esta experiência enriqueceu (minha vida). Voltei meus olhos para as minhas raízes. Pude conhecer pessoas que seguem o exemplo de um negro que foi símbolo de resistência e luta. Percebi que, mesmo depois de três séculos, a batalha ainda continua…

fonte: revista Raça

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s