Fatos e acontecimentos

REFERENDUM no Sudão


O referendo que decidirá sobre a separação do Sul é um espelho da divisão que caracteriza o Sudão desde antes de sua independência, em 1956. No período colonial britânico, os investimentos se concentravam na capital, Cartum, e em Gezira, para impulsionar a agricultura. O resultado foi desastroso. O Centro-Norte, de maioria árabe-muçulmana, se desenvolveu, e o resto do país ficou na miséria. As diferenças étnicas, religiosas e de renda geraram graves conflitos, como o de Darfur e o do Sudão do Sul. Se o referendo confirmar a separação, a guerra pode recomeçar.

Aos 30 anos, casado e pai de dois filhos pequenos, o sudanês Justin Kissaya, da tribo negra zande, mistura esperança e preocupação ao dizer o que deseja de seu país. “Quero um lugar democrático, em que minhas crianças e outras consigam chegar a uma universidade e que o índice de pessoas abaixo da linha de pobreza diminua”, afirma, por telefone, a ÉPOCA. Kissaya não se refere ao Sudão, o maior país da África (dez vezes o tamanho do Estado de São Paulo), mas sim à provável mais nova nação do mundo (a 193ª, considerando os países-membros das Nações Unidas). Ele vive no Sudão do Sul. Os moradores dessa região autônoma vão decidir em um referendo, a partir deste domingo, se querem se separar do Norte do país, onde fica a capital, Cartum.
A consulta vai durar uma semana, e a apuração deverá acabar só no fim do mês, mas não há muita dúvida do que sairá das urnas. Os sudaneses do Sul apoiam em massa a separação. Em sua maioria negros e adeptos do cristianismo e de crenças animistas, diferem radicalmente dos habitantes do Norte, árabes e muçulmanos. A disputa pela exploração do petróleo, o motor da economia sudanesa, aumenta o fosso. Desde que o Sudão se tornou independente do Reino Unido, em 1956, o Sul acusa Cartum de descaso com a população local (leia o quadro na página 72). No fim dos anos 90, quando aumentou a exploração das grandes reservas petrolíferas do Sul e boa parte do dinheiro ia para Cartum, esse sentimento ficou ainda mais evidente. Sul e Norte já travaram duas guerras civis, totalizando 33 anos de conflito e cerca de 2 milhões de mortos. Ante isso, o que virá depois da provável independência parece sombrio. Os modestos desejos de Justin Kissaya estão longe da realidade de uma terra devastada pela guerra e pela miséria.
O referendo que deverá levar ao surgimento do Sudão do Sul (ainda não há uma proposta de nome oficial) faz parte do acordo de paz firmado com o Norte em 2005. Ficou estabelecido que o Sul teria um governo autônomo e que uma consulta sobre sua independência ocorreria seis meses antes de 9 de julho de 2011, a data em que o acordo vai expirar.
Chegada a hora, a expectativa nas cidades do Sul era grande na semana passada, sob um clima de aparente tranquilidade. “Registramos alguns casos de vandalismo, mas nada que ameace a realização do referendo”, afirma o capitão brasileiro Emerson Fernandes. Membro da Polícia Militar de Santa Catarina, ele está no Sudão como subcomandante de uma das áreas de atuação da Missão da ONU no Sudão (Unmis, em inglês), estabelecida no país desde 2005 para garantir o respeito ao acordo Sul-Norte. É para a Unmis que Kissaya trabalha, como intérprete. O capitão Fernandes está baseado em Wau, a segunda maior cidade do Sul (só menor que a capital, Juba), onde comanda 120 homens com a missão de treinar a polícia local para fazer a segurança do referendo. Ele afirma que tanto as tropas do governo central quanto as do Sul fizeram deslocamentos “fora da rotina” rumo à fronteira interna, sob a justificativa de prevenção em caso de distúrbios pós-votação.
A estabilidade do futuro país depende bastante de como se comportará Omar al-Bashir, o homem que governa ditatorialmente o Sudão desde 1989. Numa visita a Juba na semana passada, ele demonstrou aparente conformismo com a situação. “Nossa preferência era pela unidade, mas vamos respeitar a escolha dos sulistas.” Mas o passado de Al-Bashir levanta suspeitas. Em 2003, ele passou a financiar milícias árabes (os janjawids) para sufocar rebeldes de Darfur, uma região não árabe do Oeste também historicamente relegada por Cartum. O conflito deixou ao menos 300 mil mortos, e Al-Bashir foi repudiado internacionalmente.
Em março de 2009, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu um mandado de prisão contra Al-Bashir, condenado por crimes de guerra e genocídio. O tom conciliador de agora soa falso. “As palavras dele não deveriam ser levadas tão a sério. Seu objetivo é tirar o Sudão da lista americana de patrocinadores do terrorismo (a inclusão veio depois de o país ter dado abrigo a Osama Bin Laden, nos anos 90) e se livrar da ordem de captura do TPI”, afirma Gill Lusk, jornalista que viveu no Sudão por 12 anos e colaboradora do site britânico Africa Confidential.
Embora pouco confiável, Al-Bashir está sendo mais bem monitorado pelos olhos externos do que na época de Darfur. Há olhos, inclusive, no espaço. Em parceria com a ONU e a Universidade Harvard, o ator americano George Clooney, conhecido por seu ativismo político, arrecadou fundos para alugar satélites privados que desde o início do mês coletam imagens da fronteira entre o Norte e o Sul. O objetivo do Projeto Sentinela é monitorar a movimentação de tropas, deixando eventuais ataques à mostra na internet. Impediria a reação de países como a China, aliada estratégica de Al-Bashir, que nega os abusos pela falta de evidências concretas.
Se a independência já é tratada como um fato, outras questões vão permanecer abertas. A mais importante é a de Abyei, um distrito semiautônomo entre o Norte e o Sul que concentra as principais reservas de petróleo. Outro referendo deveria ocorrer simultaneamente para decidir a qual região a população de Abyei quer pertencer, mas não houve consenso sobre a votação. O acordo de 2005 previa a divisão igualitária das receitas vindas do óleo, mas isso nunca foi respeitado integralmente por Cartum. Agora, o Norte teme uma crise econômica se perder Abyei.
O governo central ameaça anular a cidadania de cerca de 1,5 milhão de sudaneses do Sul que se fixaram no Norte durante as guerras civis. Milhares desses refugiados já começaram a retornar. O cenário não é animador. É assim que o capitão Fernandes descreve a cidade de Wau, de 150 mil habitantes, considerada desenvolvida para os padrões locais: “Só há energia elétrica por algumas horas, e água encanada não existe. A pista do aeroporto é de terra batida, só há 4 quilômetros de asfalto no município inteiro”.
Não bastasse isso, o partido que comanda o governo autônomo do Sul é autoritário, corrupto e não costuma prestar contas à população. “Pelo menos eles conseguiram criar relações bilaterais com muitos países vizinhos e melhoraram sua imagem diante de nações antes hostis, como China, Egito e Líbia. Isso será importante para atrair investimentos para a reconstrução”, diz Douglas Johnson, especialista britânico que assessorou o Sul na demarcação da fronteira de Abyei. Não é fácil um país começar sua história na condição de um dos mais miseráveis do mundo. 

FONTE: revista Epoca

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