Pastoral Afro

CULTURA NEGRA E LITURGIA INCULTURADA à luz do Documento de Aparecida

1. Introdução: um pouco de nossa história
Pertencentes a diversas nações africanas, fomos trazidos ao Brasil como gente escravizada, misturados e dispersados, confundindo assim nossos costumes, religiões, crenças, línguas e dificultando nossa organização e  preservação de nossa cultura.1 Hoje somos mais de 45% da população brasileira2e mesmo assim a sociedade e a Igreja tendem a nos menosprezar desconhecendo o porquê de nossas diferenças.3 Nossa história tem sido atravessada por uma exclusão social, econômica, política e sobretudo racial, onde a identidade étnica tornou-se
fator de subordinação social. Somos discriminados na inserção do trabalho, na qualidade e conteúdo da formação escolar, nas relações cotidianas e, além disso, existe um processo de ocultamento sistemático de nossos valores, história, cultura e expressões religiosas. 4 No entanto temos de reconhecer que nos últimos anos esforços têm sido feitos para inculturar a liturgia em meios afro-brasileiros,5 podemos inclusive citar alguns:
1. A organização dos Agentes de Pastoral Negros (APNs), dos Padres e Bispos Negros (Instituto Mariama –
IMA) e do Grupo de articulação dos Religiosos e Religiosas Negros e Indígenas (GRENI);
2. A Campanha da Fraternidade de 1988 por ocasião da comemoração dos cem anos da dita abolição da escravatura que teve como tema “a fraternidade e o negro” e o lema “ouvi o clamor deste povo”;
3. A criação de um espaço para a pastoral afro na sede da CNBB em Brasília com assessor e Bispo de referência;
4. O aumento de padres afro-brasileiros e a nomeação de alguns bispos negros;
5. A realização pela CNBB de seminários de inculturação litúrgica afro, o Encontro de Pastoral Afroamericana (EPA) no Brasil, os Encontros Nacionais de Entidades Negras Católicas (CONENC), Romarias ao Santuário Nacional da Mãe Negra Aparecida;
6. A nível social mas com forte influência no religioso, não podemos esquecer o reconhecimento oficial de Zumbi dos Palmares como herói nacional e a promulgação da Lei 10.639 de 09/01/2003 que torna obrigatório o ensino da história da cultura afro-brasileira nas escolas.
A Igreja tem estimulado a participação dos afro-brasileiros na vida eclesial,6 inclusive com a publicação do Estudo da CNBB de número 85 (Pastoral Afro-brasileira), no entanto ainda se tem encontrado dificuldades em conseguir espaços junto aos presbíteros e às paróquias para tratar da pastoral afro e do jeito afro-brasileiro de celebrar.7
2. O que é liturgia?
Segundo o Concílio Vaticano II, Constituição sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium (SC, n.7), liturgia é o “exercício da função sacerdotal de Cristo” através de Seu corpo místico, que é a Igreja, (o povo batizado, a assembléia) cabeça e membros, isto é, padre e povo batizado que com um rito e utilizando sinais sensíveis (símbolos) prestam culto a Deus com o objetivo de glorificá-Lo e ao mesmo tempo de santificar o ser
humano. Este culto possui uma dimensão vertical que leva o ser humano a Deus e Deus ao ser humano e uma dimensão horizontal que une os seres humanos entre si. É a morte e a ressurreição de Jesus Cristo que une Deus aos seres humanos e os seres humanos a Deus e entre si. Esse mistério pascal é atualizado, nunca repetido, a cada celebração litúrgica da Igreja.
Para facilitar o posterior entendimento da liturgia afro, permitam-me pormenorizar o conceito de “liturgia”proposto pela Sacrosanctum Concilium 7. Liturgia é:
a) Exercício = AÇÃO8, obra, trabalho. De quem?
b) De Cristo sacerdote. Através de quem?
c) Do corpo de Jesus Cristo. Quem é esse corpo?
d) A Igreja, cabeça e membros; presidente e POVO batizado. Esse POVO tem um rosto, uma cultura, um lugar geográfico. Como acontece essa ação, esse culto?
e) Através de um RITO composto de SINAIS SENSÍVEIS; SÍMBOLOS da cultura do povo onde o culto, a ação está sendo celebrada;
Com isso concluímos que se quisermos ser fiéis ao Concílio Vaticano II ao celebrarmos a liturgia em meios afro-brasileiros, isto é, numa assembléia de maioria afro-descendente ou solidária à nossa causa e nossa cultura, o exercício, a AÇÃO sacerdotal de Cristo deverá necessariamente ser celebrada considerando a música, os
instrumentos, a tradição, o jeito de ser, de vestir e de viver dos povos afro-brasileiros. Isto porque a Igreja acredita que a diversidade enriquece e que é necessário incentivar a preservação da identidade étnica e a memória cultural dos afro-brasileiros.9
3. Quem celebra a liturgia?
É toda a comunidade que celebra. A assembléia inteira é o “liturgo”. O corpo de Cristo unido à sua cabeça, que celebra. Cada um exercendo o ministério que lhe cabe,10por isso é importante “conhecer os valores culturais, a história e as tradições dos afro-americanos, entrar em diálogo fraterno e respeitoso com eles, é um passo importante na missão evangelizadora da Igreja”.11
4. Como celebramos a liturgia?
Uma celebração sacramental é tecida de sinais e de símbolos. Quando o canto, a música e os instrumentos estão em harmonia com a Palavra de Deus proclamada, com as ações litúrgicas e com a riqueza cultural do povo de Deus que celebra, toda a celebração torna-se mais expressiva e fecunda.12
No caso da celebração afro seus sinais e símbolos precisam ser encontrados na cultura afro-brasileira e adaptados à celebração litúrgica.13 Deus fala aos seres humanos através da criação visível. Enquanto criaturas, essas realidades sensíveis podem tornar-se o lugar de expressão da ação de Deus que santifica os seres humanos e da ação dos homens e mulheres que prestam seu culto a Deus. A liturgia da Igreja pressupõe, integra e santifica
elementos da criação e da cultura humana conferindo-lhes a dignidade de sinais da graça, da nova criação em Jesus Cristo.14
5. O que celebramos na liturgia?
Na liturgia celebramos o Mistério Pascal de Jesus Cristo, isto é, sua morte e ressurreição. Não só recordamos os acontecimentos que nos salvaram, mas também e principalmente os atualizamos, ou seja, os tornamos presentes em nosso tempo e em nossa cultura.15
6. A caminho da inculturação litúrgica em meios afro-brasileiros16
Embora a Igreja denuncie a prática da discriminação e do racismo,17 nós negros e negras no Brasil ainda nos sentimos como estrangeiros em nossa própria Pátria e em nossa própria Igreja. A sociedade e a Igreja não souberam incluir nossos valores culturais e tendem a nos menosprezar.18 A liturgia da Igreja não adaptou nossos valores, nossa música, nossos instrumentos e nosso jeito de rezar. Existe uma desconexão entre a realidade vivida
pelos povos negros e a liturgia celebrada por esses povos em nossas igrejas. Os elementos culturais afro-brasileiros não foram incorporados no rito romano, mesmo existindo na Igreja a presença significativa de afrodescendentes.
Tivemos que aceitar o que nos foi imposto.19 Parece que o objetivo de celebrar a fé em Jesus Cristo a partir da cultura do povo e fazer com que a liturgia celebrada pela Igreja não seja estranha a nenhuma pessoa,20 não tem sido atingido. Apesar dos quinhentos anos de
“evangelização” a Igreja não incorporou os valores das culturas negras em sua liturgia. Isso contribuiu para que nós negros e negras formássemos nossas próprias irmandades e também buscássemos outros espaços para expressar nossa fé e nossa cultura. A expressão da fé de acordo com nossos valores culturais muitas vezes foi confundida com sincretismo religioso e deixada de lado. Não são poucas as vezes que temos que agüentar na igreja a
discriminação e o racismo expressos através de chacotas conscientes ou inconscientes.
Cientes de que a celebração da liturgia deve corresponder ao gênio e a cultura dos diferentes povos21 e considerando que na liturgia existe uma parte imutável – por ser de instituição divina – e uma parte susceptível de mudança, que a Igreja tem o poder e, algumas vezes, até o dever de adaptar às culturas dos povos, 22 podemos afirmar que os sinais e os símbolos da cultura afro-brasileira podem ser perfeitamente adaptados à missa como sugere o Concílio Vaticano II23 porque ajudam o povo a participar mais e melhor da celebração de forma plena, ativa, consciente, piedosa e frutuosa.24 Quem já participou de uma missa com a adaptação de valores culturais afrobrasileiros, com certeza percebeu como o povo bate palmas, dança, escuta, se alegra. O corpo, a mente e o coração são envolvidos. As vestes são coloridas, o ambiente é decorado a rigor, a comida é partilhada. Os cânticos quase
sempre possuem refrões curtos, o que facilita a repetição e dispensa o uso de papéis para a assembléia. A Bíblia é bastante valorizada e quase sempre entra de forma solene com danças e tochas. À proclamação do Evangelho queima-se incenso e leva-se flores como sinal do Cristo ressuscitado. A experiência litúrgica feita em nossas celebrações afro-brasileiras nos tem ajudado a combater a ideologia do embranquecimento e a descobrir os sinais de páscoa que nos levam a construir um mundo novo buscando igualdade racial e justiça para todas as pessoas. A liturgia encarna-se na vida, e como afro-brasileiros vamos, guiados pelo Espírito Santo, assumindo o compromisso de Jesus Cristo, isto é, fazendo acontecer no mundo o projeto do Pai que é o Reino de Deus com vida plena para todos e todas.25 O Brasil é caracterizado pela diversidade e pluralidade, que constituem um desafio à Igreja e à inculturação da liturgia e do Evangelho, mas podemos ter certeza que a abertura da liturgia para elementos culturais afrobrasileiros fará a Igreja de Cristo mais católica, isto é, “para todos”. O termo “inculturação” indica um processo e como tal não está suficientemente acabado, sua definição depende da história e do tempo. 26A expressão tem origem na missiologia, mas deve ser usada também do ponto de vista sociológico-cultural. 27Trata da relação existente entre a fé cristã e as diferentes culturas. O termo é usado
pelos católicos desde a década de 30, embora em textos oficiais da igreja apareça na década de 70. 28A inculturação não é modismo, mas uma necessidade inerente à revelação, à evangelização e à reflexão teológica, 29não podendo ser confundida com “aculturação” (processo de transformação provocado pela convivência de grupos humanos de
culturas diferentes), “enculturação” (processo de iniciação do indivíduo à sua própria cultura), “transculturação” (o transporte de elementos culturais e imposição dos mesmos a uma outra cultura normalmente dominada) e “adaptação” (ajustamento do evangelizador e da mensagem cristã à cultura destinatária através do modo de ser, agir e tradução de textos para a língua vernácula). Seu objetivo é evangelizar as diferentes culturas respeitando as
realidades teológicas e antropológicas das mesmas, distinguindo fé e cultura e salvaguardando a unidade e o pluralismo da igreja universal, na busca de sempre maior comunhão eclesial. 30 Desse modo, podemos afirmar que inculturação é um processo histórico que envolve o encontro do evangelho (fé cristã) com as diferentes culturas. Esse encontro estimula novas relações entre as pessoas e Deus, originando um processo de conversão individual e comunitária cuja intenção é a vivência do evangelho sem trair o
modo de ser, de atuar e de comunicar das pessoas dessa cultura que está entrando em contato com o evangelho.
Do ponto de vista bíblico-teológico, podemos dizer que o povo de Israel é um referencial histórico-cultural necessário para o processo de inculturação, porque foi ali que Deus se encarnou em Jesus de Nazaré (Jo 1, 1-14; Fl 2, 5-8). No entanto, não podemos absolutizar essa cultura como forma única e fixa de expressão da revelação de Deus. Toda cultura traz “as sementes do verbo” plantadas pelo Espírito Santo. Em se tratando de cultura, quem nos
dá o direito de estabelecer parâmetros? Estaríamos tolhendo a liberdade de ser e de existir de cada cultura. Nenhuma cultura pode se sobrepor e obrigar a outra a ser como ela é.31 Respeitar a cultura do outro com seus costumes e tradições, sem fazer comparações é ir descobrindo os sinais da presença do Criador de todas as coisas.
Embora as culturas sejam diversas, Ele é o mesmo e o Seu Espírito perpassas toda obra criada fazendo a unidade perfeita.
Jesus assumiu profundamente sua cultura, porém não perdeu a visão crítica sobre a mesma. Confirmou e apoiou o que defendia, a vida (Jo 10,10). Tendo o Antigo Testamento como base, corrigiu e reorientou o que foi desviado e pervertido. Com suas atitudes, Jesus nos ensina que nenhuma cultura é perfeita e todas devem estar constantemente abertas à conversão e ao crescimento.
A igreja desde o início esteve aberta às culturas. 32 Não se fechou no semitismo original, mas implantou comunidades na diáspora respeitando suas culturas. Escreveu as narrativas evangélicas em língua grega e aonde chegava para o anúncio procurava incorporar no rito, no culto e na pregação, valores das diferentes culturas. Assim fizeram os apóstolos, Paulo e os Santos Padres, influenciando a teologia, a espiritualidade e a ação pastoral de
praticamente todo o primeiro milênio.33 A partir dos primeiros séculos do segundo milênio, a hierarquia da igreja, influenciada pela cultura européia, inicia a formação de uma cultura cristã católica, acreditando ser a portadora única da revelação e superior
a todas as outras culturas.34Com o processo de colonização, os povos dominados eram obrigados a negar sua própria cultura e sua religião e a aderir a esta cultura cristã católica européia.35 A valorização das culturas e a incorporação de seus elementos no culto visto no primeiro milênio cristão já não têm mais espaço no segundo milênio. Desaparece a inculturação e ganham espaço a aculturação e a transculturação ocasionando assim um processo de separação entre a fé e a cultura. “Para os povos não europeus,
abraçar a fé significará sempre mais abrir mão da própria cultura ocidental dentro do qual é proposta a fé.” 36
Após o Concílio Vaticano II, reaparece a preocupação com a inculturação possivelmente por influência de bispos do mundo inteiro presentes no Concílio trazendo suas realidades culturais diversificadas. A valorização das igrejas locais e continentais e a reorganização do povo de culturas oprimidas como negros e indígenas muito contribuíram para o revivamento deste processo. Tratamento especial também recebeu as mulheres, os jovens, os campesinos, os sem-terra, com interpretação própria da bíblia, da tradição e da pastoral.
O processo de evangelização inculturada exige um discernimento constante da parte da cultura que já recebeu o anúncio e daquela que ainda vai receber. Ambas são sujeito da evangelização. O evangelizador não pode renunciar à sua própria cultura, mas também não deve impor o seu modo de viver a mensagem evangélica como único e absoluto. O essencial é a mensagem e não o modo de vivê-la. Aquele ou aquela que está sendo
evangelizado precisa decodificar a mensagem usando instrumentos de sua própria cultura. O processo de evangelização inculturada é conflituoso porque trata da libertação de ambas as culturas (a que é evangeliza e a que é evangelizada), contudo o resultado final dessa evangelização é a fé que sabemos não ser apenas esforço humano ou produto de um método, mas dom gratuito de Deus, respeitando a liberdade humana.
Para se iniciar o processo de inculturação é necessário fazer uma identificação antropológica e teológica da cultura a ser evangelizada. O critério é sempre o ser humano e o homem Jesus de Nazaré com sua mensagem e testemunho de vida. É preciso também identificar naquela cultura o que oprime, mata, destrói a pessoa, a comunidade, a cultura e a natureza. Só depois dessa identificação é que passamos para o anúncio propriamente dito
da Palavra e do projeto de Deus, para o seu povo. Nesta fase as pessoas já têm condições, elas mesmas, de discernir e descobrir a Boa Notícia, a novidade cristã, o dom dado por Deus àquela cultura para ser partilhado com a humanidade. Paulatinamente, homens e mulheres daquela cultura percebem que a fé em Cristo não é para ser vivida individualmente, mas em comunidade, como grupo cultural específico aberto à catolicidade. Esse processo nos leva a uma crescente inculturação da fé. 37
Cremos que a fé cristã deve penetrar todas as culturas para elevá-las e salvá-las, de acordo com o ideal do evangelho. 38Se o processo de inculturação for encarado de forma superficial, corremos o risco de cair em um sincretismo que confunde e mistura fé cristã e tradições culturais antropológicas.

7. Definindo inculturação litúrgica
O Concílio Vaticano II preparou o caminho para o que hoje chamamos inculturação litúrgica (SC 37-40).
Tal processo deve passar primeiro por princípios gerais de adaptação. Por “adaptação litúrgica” a SC entende “a administração na liturgia de elementos tirados das culturas e das tradições que, graça a um processo de purificação,  poderão servir de veículo da liturgia para a utilidade ou a necessidade de um grupo particular”.39
O processo de inculturação litúrgica tem amadurecido a cada dia como experiência comunitária da fé. A busca de uma espiritualidade litúrgica inculturada capaz de alimentar as pessoas e a comunidade tem sido uma constante.
A inculturação está no centro das preocupações no mundo e na América Latina. “Evangelizar e celebrar sem inculturar significaria reduzir o alcance da adesão a Cristo, uma vez que a cultura faz parte da identidade de um povo”.40 Num primeiro momento a constituição Sacrosanctum Concilium sugere que sejam adaptados os sacramentos, os sacramentais, as procissões, a língua litúrgica, a música sacra e a arte litúrgica (SC 38-39). Tais adaptações devem ser acompanhadas pelos bispos e presbíteros e não dependem de consulta à Santa Sé. Em um segundo momento (SC 40) propõe uma “adaptação mais profunda da liturgia” que depende de confirmação da Sé Apostólica.
Tanto o número 37 quanto o 40 da SC mencionam que na liturgia podem ser admitidos tradições, costumes, qualidades e dotes de espírito dos vários povos, podendo inclusive admitir elementos culturais no rito romano.41
A realidade pluricultural do Brasil e a abertura dada pelo Concílio Vaticano II (SC 37-40) nos impelem a buscar para a liturgia novos símbolos de esperança que sejam interpretados sem dificuldade pelo povo brasileiro.
Tais símbolos já estão no meio do povo. Temos o papel de descobri-los, resgatá-los e encaixá-los onde melhor possam expressar o mistério pascal.
O documento de Puebla (31-39) e o documento de Santo Domingo (178) afirmam que na evangelização precisamos levar em consideração as diferentes culturas. Não podemos celebrar a liturgia com os mesmos cânticos, a mesma linguagem, o mesmo ritmo e utilizando os mesmos instrumentos musicais no mundo todo, como
aconteceu por séculos em que foram ignorados as etnias, as culturas e os povos. É preciso haver sim a “comunhão de diferenças compatíveis com o Evangelho” para proteger as legítimas diversidades e vigiar “para que as particularidades ajudem a unidade e de forma alguma a prejudiquem.” 42 Quem une em primeiro lugar é o Cristo em seu mistério de morte e ressurreição. “a inculturação é necessária para restaurar o rosto desfigurado do mundo”
(SD 13). “Com a inculturação da fé, a Igreja se enriquece com novas expressões e valores, manifestando e celebrando cada vez melhor o mistério de Cristo.” ·.
O processo de inculturação litúrgica no Brasil deve respeitar a coexistência de diversos grupos culturais atuando em nossas igrejas, cada um trazendo sua história que é única e diferente e como tal necessita ser considerada. Somos o país onde a diversidade está naturalmente presente, portanto o processo de inculturação litúrgica deve incorporar na liturgia os ritos, os símbolos, expressões religiosas, música e instrumentos que ajudem
a celebrar a fé (SD 248). Segundo a IV instrução para uma correta aplicação da constituição conciliar (SC 37-40) “a Liturgia da Igreja não deve ser estrangeira em nenhum país, nenhum povo, para nenhuma pessoa e, ao mesmo tempo, terá de superar todo particularismo de raça ou de nação”.43
Chupungco, 44 interpretando a SC 37-40, diz que há três etapas na adaptação litúrgica. São elas:
1. “Acomodação”: nesta fase há o interesse pelos elementos celebrativos utilizados pela assembléia
litúrgica, sem, contudo haver necessariamente a preocupação de uma adaptação cultural;
2. “Aculturação”: esta fase é de natureza cultural e pode ser descrita como um processo capaz de incorporar na liturgia romana elementos culturais que possam substituir os do rito romano, salvaguardando não só o significado original do Rito Romano, como também o verdadeiro sentido desses elementos culturais;
3. “Inculturação”: esta fase também é de natureza cultural e supõe a transformação do rito pré-cristão à luz da fé cristã celebrada pela liturgia romana. Isto é, um rito pré-cristão passa a ter um significado cristão. A igreja não altera o rito em si, mas dá a ele um sentido cristão para que possa exprimir o mistério pascal.
8. Conclusão
Concluindo, podemos afirmar que o louvor ao Senhor ao som dos atabaques, a oração comunitária sustentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia e os valores culturais afro-brasileiros adaptados à liturgia contribuem para uma celebração mais inculturada e propiciam em nossa vida a experiência do encontro com o Cristo morto e ressuscitado, fazendo com que nos apaixonemos cada vez mais por Ele, nos tornando assim,
discípulos e discípulas missionários afro-brasileiros.
1 Documento de Aparecida n.88; O Atabaque na Igreja: a caminho da inculturação litúrgica em meios afro-brasileiros, p. 39.
3 Cf. Documento de Aparecida, n.89.
4 Idem, n.96.
5 Idem, n.99b
6 Idem, n.94
7 Cf. Vera L. Lopes. In: Curso de Verão – ano XXI p.68.
8 Etimologicamente a palavra grega “LITURGIA” significa “ação em favor do povo” ou “serviço prestado ao povo”. Por isso destaquei as
palavras “ação” e “povo”. Também destaquei as palavras “rito” e “símbolos” porque estão intimamente ligadas ao culto e ao povo.
9 Cf. Documento de Aparecida, n. 525 e 533.
10Cf. Catecismo da Igreja Católica, n.1140 e 1144; SC 26.
11Cf. Documento de Aparecida, n.532.
12Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1145 e 1158.
13 Cf. SC 37-40
14 Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1147, 1148 e 1149.
15 Idem, n. 1104. 16 Cf. Gabriel BINA, O atabaque na igreja, p. 77.
17 Cf. Documento de Aparecida, n.533
18 Idem, n. 89.
19 Cf. José Ariovaldo da Silva, A liturgia que nossos índios e negros tiveram de “engolir”. E agora, o que fazer?Revista de liturgia, 26
(159): 4.
20 Cf. CNBB, Inculturação da liturgia, p. 14.
21 Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1204.
22 Idem, n.1205 e SC 21.
23 Cf. SC, n. 37-40 e 120.
24 Cf. SC, n. 11 e 14.
25 Cf. Jo 10,10.
26 Cf. Marcelo de C. AZEVEDO, Dicionário de teologia Fundamental, p. 465.
27 Cf. Franz KÖNIG, léxico das religiões, p. 282.
28 Cf. Hervé CARRIER, Dicionário de teologia fundamental, p. 472.
29 Cf. Marcelo C. AZEVEDO, Dicionário de teologia Fundamental, p. 464.
30 Cf. Hervé CARRIER, Dicionário de teologia fundamental, pp. 474-5.
31 Cf. Gabriel BINA, O atabaque na igreja, p. 46.
32 Cf. Hervé CARRIER, Dicionário de teologia fundamental, p. 472.
33 Idem, p. 466.
34 Cf. C. di SANTE, verbete “Inculturação”, in: Dicionário de liturgia, p. 277
35 Cf. A. PISTOIA, verbete “Criatividade”, in: Dicionário de liturgia, p. 262.
36 Cf. Marcelo C. AZEVEDO. Dicionário de teologia fundamental, p. 467.
37 Cf. Marcelo C. AZEVEDO, Dicionário de teologia fundamental, p. 471
38 Cf. CONCREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO, A liturgia romana e a inculturação, n. 19.
39 A. CHUPUNGCO, verbete “Adaptação”, in: Dicionário de liturgia, p. 8.
40 D. Clemente ISNARD, in: CNBB, Inculturação da liturgia, p. 2
41 Cf. A. CHUPUNGCO, in: Dicionário de liturgia, verbete “Adaptação”, p. 9
42 JOÃO PAULO II, Ecclesia in África, nn. 6,11 e 20.
43 CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO, A liturgia romana e a inculturação, n. 18.
44 Cf. A. CHUPUNGCO, in: Dicionário de liturgia, verbete “Adaptação”, p. 9.
Bibliografia
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TAVARES, Sinivaldo S. (Org.). Inculturação da fé. Petrópolis: Vozes, 2001.
Padre Gabriel Gonzaga Bina
É pároco da paróquia Nossa Senhora Aparecida em Santa
Isabel- SP, mestre em Teologia Dogmática com especialização
em liturgia e professor na Faculdade Paulo VI na Diocese de
Mogi das Cruzes.

E-mail: gabrielbina@ig.com.br

Um pensamento sobre “CULTURA NEGRA E LITURGIA INCULTURADA à luz do Documento de Aparecida

  1. Nossa, quanta conclusão absurda sobre o que diz de fato o Concílio!!!Na boa, eu não vejo nenhum afro-descendente no Brasil andando com essas roupas ou jogando pipoca e rodando feito peru tonto fora dos centros de macumba… ou seja, não são coisas católicas!Hoje somos todos brasileiros e não africanos! Vivemos na cultura brasileira, da qual a africana tem influência. Mas não tem lógica nenhuma querer mudar um rito, que é universal para a Igreja ocidental, com a desculpa de preservar uma cultura mas com fins, na realidade, de anarquizar a Igreja de Cristo. Independente de cultura ou "raça", o respeito e disciplina pela liturgia valem para todos… é questão de Direito Canônico! Então sejam fiéis a Igreja e ao Papa! Não inventem um rito litúrgico que não existe!Santa Bakhita, rogai por nóis!Paz e Bem!

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