Política e direitos humanos

A COR DA CIÊNCIA

Telefone celular, ar-condicionado, elevador, geladeira. Indispensáveis, esses itens são parte de uma extensa lista de invenções e descobertas de cientistas negros. São tantas que a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), ligada à Presidência, resolveu promover algumas delas no estande montado na Esplanada dos Ministérios, durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, em outubro.
De acordo com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, nos últimos dez anos a produção científica nacional cresceu 200%, passando de 10 mil para mais de 30 mil estudos publicados em revistas especializadas internacionais. Mas a população afrodescendente não é contemplada por esse salto.
Pesquisa da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros detectou, entre 705 entrevistados, que 82% têm formação em ciências humanas, como Educação, Sociologia, História, Letras,  Geografia. Racismo, ausência de políticas públicas, dificuldade de acesso à educação pública de melhor qualidade e baixa autoestima estão entre os fatores que inibem a presença do negro em cursos que abrem as portas para a carreira científica.
O físico Ernane José Xavier Costa, pesquisador do Departamento de Ciências Básicas da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP de Pirassununga (SP), é direto: “É preciso que as instituições admitam que a ciência e a tecnologia no Brasil têm cor. E é branca, feita por brancos e para brancos”. Ele coordenou o primeiro simpósio no país sobre a população negra na ciência e na tecnologia. A ideia surgiu em uma das viagens a Angola, onde participa de um projeto em parceria com uma universidade. “Embora o Brasil tenha inúmeros projetos na África, ouvi de um africano que eu sou o primeiro cientista brasileiro negro visto por lá.”
Ernane lembra que foi preciso bater em muitas portas até conseguir apoio para o evento. E, se não fossem relações pessoais, não teria conseguido sequer espaço para divulgação na agência de notícias da universidade em que trabalha. O resultado foi muito bom, apesar de nenhum dos pró-reitores da maior universidade pública brasileira ter comparecido.
Graduado em Administração Pública pela Universidade Federal da Bahia, com mestrado em Ciência Política pela Federal de Pernambuco, Carlos Augusto Sant’Anna Guimarães é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife. Para ele, o racismo é o principal entrave à entrada de pretos e pardos em cursos como Medicina, Ciências Biológicas e Engenharia, portas para a nata da pesquisa, como aquelas feitas em biotecnologia, células-tronco, nanotecnologia. “O racismo é estruturante da sociedade brasileira e o fator econômico é um fenômeno que se junta a outros”, afirma. “Os negros são pobres porque são discriminados, e não discriminados porque são pobres.”
Para ele, acentua as desigualdades o fato de a ciência ser considerada senhora da verdade e da razão, um bem social de grande valor. E, nessa perspectiva, o cientista estaria acima do bem e do mal, porque busca a verdade e trabalha com fatos. “Em última instância, é chamado para dar a palavra final, ocupando assim posição de destaque, prestígio e poder.”
O pesquisador, que não encontrou 20% de pretos e pardos durante toda a sua vida acadêmica e não lembra de ter tido professores desse grupo, conta que há apenas três pesquisadores de pele negra entre os mais de 100 que atuam na fundação em que trabalha. Como diz, a questão racial está enraizada no Brasil, em todos os espaços, trazendo implicações sociais, econômicas e psíquicas que geram um grupo de indivíduos que se sente superior a todos e outro que se sente inferior.
“É preciso romper com essa ideologia racista na qual nem mesmo o negro militante percebe que está sendo alvo. E o pior é a naturalidade dos que a praticam. Ao cruzar com um negro, a pessoa logo pensa se tratar de um bandido. E ainda acha que isso não é racismo”, dispara. “Até que se prove o contrário, o branco é bom e o negro é mau, fracassado, sem cultura, sem educação, que não pode estar em determinados espaços, como a iniciação científica e a seleção para mestrado e doutorado.”
A química Denise Alves Fungaro, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, tem dados que quantificam a afirmação de Guimarães. Com base num levantamento que fez para uma reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ela diz que, dos 6 mil doutores titulados a cada ano no Brasil, somente 1% é negro e menos de 1% das pesquisas focalizam assuntos de interesse dessa população. Em 2001, quando a USP realizou um censo, apenas 9,64% dos seus alunos eram negros, enquanto essa população no estado de São Paulo correspondia a 34,3%. “Estudos sobre inserção desse grupo no ensino público superior brasileiro constataram que 0,4% dos docentes em universidades públicas são pretos e pardos. Se nada for feito, a projeção para os próximos 170 anos é que esse percentual atinja, no máximo, 1%”, adverte. 

Questão de oportunidade

Com pós-doutorado pela Universidade de Coimbra, Portugal, e sete prêmios pela pesquisa sobre tratamento de água poluída, Denise atribui seu ingresso na carreira científica à educação pública de qualidade, à renda familiar adequada e à oferta de bolsa de pós-graduação. “Desde pequena quis ser cientista. Minha sorte é sempre ter gostado de estudar.” Filha de zelador, não desprezou o privilégio de morar na região central da cidade e poder frequentar um colégio público de referência, o Caetano de Campos. Chegou ao ensino médio quando a educação gratuita entrava em crise. Com a ajuda dos pais, fez cursinho pré-vestibular durante o último ano e ingressou no Instituto de Química da USP. Se praticamente não havia negros nas fases anteriores, na faculdade menos ainda. “Ter me destacado nos estudos, sempre, me nivelou aos demais colegas. Acho que por isso nunca me senti discriminada.”
A dedicação aos estudos, aliás, é a maneira encontrada para furar o cerco. O físico Cláudio Elias da Silva, professor do Instituto de Física da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é filho de pai feirante e mãe artesã. Criado na Baixada Fluminense, seu currículo inclui cursos na Europa e mais de um ano e meio como pesquisador na Agência Espacial Americana, a Nasa. “Ainda criança, percebi que não me encaixava no padrão dos meninos preferidos pelas meninas. Descobri o estudo como aliado para superar essa desvantagem quando passei a dar aulas de reforço para uma menina, bonita, que só passou a olhar para mim depois que soube que eu era bom em matemática”, lembra Cláudio.
Reconhecido e admirado, ele passou a estudar mais e mais. Fez colégio técnico e, durante o estágio numa empresa de telefonia, percebeu que os técnicos faziam faculdade à noite e não eram promovidos quando se formavam. Com o fim do estágio, investiu o tempo nos estudos e em aulas que dava num cursinho. Passou no vestibular da universidade onde hoje leciona e, depois de graduado­, deu aulas numa particular.
Fez mestrado, doutorado, estudou na Itália. Racismo, mesmo, só sentiu nos Estados Unidos. “Notei que um engenheiro que trabalhava na mesma sala não respondia a minhas perguntas quando estávamos a sós, apenas em reuniões. Além de negro, eu era o latino-americano que ameaçava seu emprego. Na Itália, talvez por causa do meu preparo acadêmico, nunca me senti discriminado e fiz muitas amizades. Quando adolescente, na Baixada, eu só via racismo quando o menino negro queria namorar a menina branca”, conta.
Estudar com afinco marcou a trajetória de Sonia Guimarães, de São José dos Campos (SP). Filha de tapeceiro, ela foi a primeira mulher a lecionar no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), onde chegou em 1993.
Hoje, Sonia divide seu tempo entre os laboratórios e a gerência de um projeto de um dispositivo estratégico para a defesa das fronteiras no Instituto de Aeronáutica e Espaço. Com graduação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mestrado na USP e doutorado em Bolonha, na Itália, a pesquisadora foi recebida com desconfiança por parte de muitos colegas, principalmente de alta patente militar. “Meu currículo e a fluência em duas línguas estrangeiras pareciam não significar nada”, afirma. Para ela, faltam incentivos e facilidade de acesso para a carreira científica. E isso vale também para o branco.
Na infância, a criança é desestimulada a estudar Física, por exemplo, porque não terá onde trabalhar. “O sonho já é morto logo que nasce”, diz Sonia. E depois, já na adolescência, falta apoio para o ritmo intenso de estudos e o tempo passa a ser dividido, em muitos casos, entre festas, passeios e diversão. “O estudo deixa de ser a meta principal. Como vamos conseguir ir bem no curso e obter os melhores empregos?”, questiona. “Como fazer isso indo a festas em plena segunda-feira à noite?” Para piorar, segundo ela, o Estatuto da Igualdade Racial, sancionado em julho passado pelo presidente Lula, não prevê cotas para negros em universidades, empresas e candidaturas políticas.
A falta de educação pública de qualidade, bem como de expectativa de ingresso na universidade e na pós-graduação, são outros obstáculos, na opinião de Paulino de Jesus Francisco Cardoso. Vice-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e pró-reitor de Extensão, Cultura e Comunidade da Universidade Estadual de Santa Catarina, ele diz que, além dos problemas estruturais, a escola pública brasileira, sem condições para lidar com as diferenças, é mais excludente para o negro. “A cultura disseminada em festas não contempla os costumes e religiões, por exemplo. E, quando isso acontece, é de maneira equivocada e preconceituosa”, afirma. “Com poucas condições de permanecer no ensino fundamental e médio, como vão pensar em universidade?”.
Ele diz que o sistema de cotas é positivo mas insuficiente, uma vez que a adesão ao sistema é questão de orientação de governo e das universidades, e não política de Estado. “Devem ter entrado este ano entre 150 e 200 alunos pelas cotas na Universidade Estadual­ de Santa Catarina, o que é muito pouco”, argumenta. Graduado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com mestrado e doutorado pela PUC de São Paulo, Paulino conta que os únicos negros que vê na faculdade são africanos.
O neurocientista paulistano Miguel Nicolelis é hoje um dos cientistas de maior destaque em todo o mundo. Só neste ano ganhou dois dos mais importantes prêmios concedidos pelo governo americano. Para ele, que dirige também um centro de neurociências em Natal, a séria questão racial no âmbito científico reflete principalmente a baixa qualidade do ensino público, no qual estão os negros, e é agravada pela falta de capilaridade da produção científica brasileira. “A produção está concentrada em São Paulo e não é compartilhada como deveria, indo ao interior do Piauí, por exemplo, para que a criança a conheça e se interesse”, afirma. Para Nicolelis, a ciência tem de sair do pedestal e deixar de lado o ranço aristocrático. “Pouco adianta aumentar investimentos, chegando aos 4% do PIB que queremos, se o conhecimento científico e tecnológico não for compartilhado igualmente por todos os brasileiros.”

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