Política e direitos humanos

O VOTO RACIAL


1) Embora temas controversos da atualidade – como religião e aborto – tenham dominado o debate no segundo turno, a questão racial nem sequer foi tocada pelos candidatos durante a campanha na TV. Isso em pleno ano de aprovação do Estatuto da Igualdade Racial!

2) Esse merece análise mais criteriosa. É sobre uma pesquisa do Ibope que, pela primeira vez, considerou o voto racial brasileiro. Os dados demonstraram que, mesmo quando avaliados o nível escolar, renda e região, o eleitor negro em nosso país se diferenciou do eleitor branco e do amarelo, fator decisivo no rumo da pesquisa. Resumindo: a análise detectou que houve preferência entre negros e pardos por Dilma Rousseff . Já entre brancos e amarelos, José Serra levou vantagem.

Fatores como religião, escolaridade, ocupação e moradia pesam na hora do voto, mas no voto racial não houve tanta influência. Exemplo: considerando apenas os eleitores que frequentaram o ensino médio ou superior, Dilma tinha 38% dos votos dos brancos e amarelos e 51% entre pretos e pardos. Serra tinha porcentuais inversos: 52% brancos e amarelos e 42% entre os negros e pardos.
Entre os eleitores com renda acima de cinco salários-mínimos, Dilma só conquistava 36% dos votos de brancos e amarelos, mas crescia para 51% entre negros e pardos. Serra, na mesma faixa, obtinha 52% dos brancos e amarelos e caia para 40% entre os negros. Com os menos afortunados, a diferença continuava quando a renda era de até dois salários- mínimos. Dilma vencia seu adversário com diferença de até 20 pontos no voto dos negros e empatava com Serra nos eleitores brancos e amarelos da mesma faixa salarial.

A pesquisa não mostra o porquê da diferença, mas uma análise mais conjuntural do impacto que a economia e alguns programas sociais do governo obtiveram neste segmento nos dão algumas pistas. A ascensão da classe C e D, formadas predominantemente por negros nos últimos anos, é um dado. Outro elemento foi a influência que os programas sociais tiveram nessas eleições. O bolsa-família, por exemplo, atendeu diretamente os mais excluídos da sociedade e, nessa faixa, onde somos a maioria, nos últimos 8 anos entraram mais negros nas universidades pelo sistema Prouni e programas de cotas em universidades federais que em todo o século passado. Esses dados entrelaçados sinalizam a tendência do voto negro, mas não são conclusivos porque no Brasil, ao contrário da alguns países do primeiro mundo, poucas pesquisas consideram o fator étnico racial em suas análises.

O estudo deve agitar partidos, candidatos, estrategistas de campanha e interagir com a nova bancada de negros em Brasília, que terá a volta de Benedita da Silva como deputada federal pelo Rio de Janeiro; a eleição de Valmir Assunção, na Bahia, liderança nacional do MST que faz um elo substancioso entre a luta dos sem-terras no Brasil e a questão racial; a reeleição de Edson Santos, ex-ministro da Igualdade Racial, pelo Rio de Janeiro; e de Vicentinho, Janete Pietá e a eleição de Vicente Cândido, por São Paulo – todos comprometidos com o voto racial – e mais: os 7,8 milhões de votos obtidos por Netinho de Paula em São Paulo (que esteve próximo de se tornar o primeiro senador negro do maior centro financeiro do país). Há de se considerar, também, os dezenove milhões de votos de Marina Silva, que se posicionou em sua campanha, categoricamente, como candidata negra à presidência da República.
Se o resultado disso será um ganho político ou, mais uma vez, eleitoreiro momentâneo, os novos governos – federal e estaduais – que assumirão em janeiro de 2011, poderão responder quando mostrar a nova cara dos ministros e secretários que vão acentuar o novo rumo político e administrativo do país.


fonte: revista RAÇA

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