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ENTREVISTA EXCLUSIVA


Jardim das folhas sagradas, por seu diretor 

O longa-metragem Jardim das Folhas Sagradas, dirigido por Pola Ribeiro, estará na jornada cinematográfica promovida pela Fundação Cultural Palmares para comemorar o Dia Nacional da Cultura, nesta sexta-feira, dia 5 de novembro. A exibição do filme integra a programação do seminário Qual é a face negra da mídia?, que contará também com a mostra dos filmes Trampolim do Forte, de João Rodrigo Mattos, e Bróder!, de Jéferson De. Cada uma dessas produções aborda temas estreitamente ligados ao cotidiano dos afro-brasileiros.
Os dramas sociais retratados na tela serão objeto de debate, com a presença de artistas, profissionais ligados à cultura e público em geral. O evento será realizado em Brasília (DF), no Museu Nacional Honestino Guimarães, a partir das 9h. Em entrevista exclusiva ao site da Palmares, Pola Ribeiro falou sobre a questão racial presente no filme; contou sobre o processo de pesquisa para construção do roteiro; e comentou o tema central do evento, Qual é a face negra da mídia?.
Confira a entrevista na íntegra.
Sob qual perspectiva o longa aborda a questão racial?
Os personagens negros do filme tratam as questões raciais do ponto de vista da afirmação e superação, pois abordar apenas sob o aspecto da tolerância não gera convivência sadia. As pessoas têm de ter interesse de verdade. Sentimentos não podem ser incubados, jogados para debaixo do tapete, pois comumente vêm à tona em situações de crise. O filme evidencia crises e possibilidades que, a partir dos conflitos, possam estabelecer novas relações. Expõe dissimulações e confrontos diretos, por conta da cor da pele ou pela força do comportamento e cultura.
Como foi a construção da história de Jardim das Folhas Sagradas?
Sempre tive o interesse de me aprofundar em um mundo complexo e desconhecido, mas com o qual eu me relacionava em Salvador desde pequeno. A presença e a complexidade com que se expressava a cultura negra na Bahia direcionava meu olhar e minha escuta para a presença do outro. Cada gesto, cada som, cada traje, comida, conceito e religião. A convivência com um mundo que se protegia nos seus fundamentos e que era ao mesmo tempo tratado como invisível pela mídia e pela sociedade, aguçava os meus sentidos. Na minha própria família, de formação católica, a presença do conhecimento, da cultura e da religião sempre esteve próxima. Minha tia mais velha é a “Cota” (termo com que os bantus denominam seus entes mais velhos). Minha mãe veio ao mundo pelas mãos da mesma parteira dos filhos de Mãe Menininha do Gantois e nas festas de São Cosme e Damião, sob os panos do altar, sempre estavam as oferendas aos Ibejis (aos gêmeos). Com a decisão de abordar essas questões em um filme, me coloquei muito mais como veículo deste diálogo do que o que se debatia de fato nos terreiros e nos movimentos negros.
Desde que Mãe Stela afirmou que “O que não se registra o vento leva”, o direcionamento do movimento se modificou e hoje temos campanhas de afirmação de cor e de credo nos censos e pesquisas de opinião. O tema de fundo da história do filme vem de uma provocação do Ministro Juca Ferreira, quando ainda era Secretário de Meio Ambiente da Prefeitura de Salvador e me convocou para fazer um documentário sobre as relações do candomblé com o movimento ecológico. O filme não saiu, mas a sugestão ficou marcada. Depois, em conversas com Antonio Risério e Gustavo Falcón, pude compreender melhor o ambiente por onde gostaria de transitar nesta proposta de ficção.
Passei a frequentar com mais intensidade os eventos, jornadas, festas e ambientes do candomblé e da política. Gozar do convívio com amigos negros de maneira mais focada, desenvolvendo entrevistas gravadas e fotografando ambientes e possíveis locações. Ganhei uma bolsa de artes da Fundação Vitae e isto me deu condições de aprofundar meus estudos.
Julio Braga e depois Raul Lodi foram meus professores e primeiros consultores. Então formei uma equipe com pessoas de conhecimento prioritariamente diversificado e aprofundado da cultura para que eu errasse o mínimo possível. Aproveitei um documentário que estava fazendo para a Fundação Palmares e SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) sobre o acarajé para aprofundar minhas pesquisas e o contato com pessoas conhecedoras desta cultura, seja pela experiência de vida ou trabalhos de pesquisa. Por fim, discuti o roteiro, que não parava de crescer “culpa do enorme entusiasmo e aprendizado que fui desenvolvendo”, com os amigos.
Certo dia, uma Yalorixá me disse “Quanto mais você aprende, mais ignorante você fica, não é meu filho”?. Este era exatamente o meu sentimento! Junto com meu coroteirista, e com apoio dos meus colaboradores, fechamos a estrutura do que seria o roteiro definitivo a ser filmado.
O filme tem fortes laços com a cultura e o cotidiano soteropolitanos. Quais elementos da trama dialogam com plateias de outros lugares?
Nas pesquisas que realizei, senti que este era um momento e movimento vivido pelos negros do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Pessoas de Pelotas, no Rio Grande do Sul, se mostraram inteiramente motivadas pelo filme e quiseram trabalhar em sua divulgação. Pelotas é a maior cidade negra do Sul do País e ninguém sabe disso, pois faz parte do preconceito de tornar invisível tudo o que é da comunidade negra. Preciso de uma sala de cinema para exibir o filme lá e creio que esta experiência será ótima!
Um parceiro no processo de distribuição do filme, que tem bastante trânsito na Europa e América do Norte é entusiasmado com o filme, pois acha que o que discutimos é exatamente o que debatem os negros de Paris e de Nova York. O filme toca mais em questões do negro do que em questões regionais. O negro está em todo o mundo e dá sua contribuição em assuntos que são do interesse de todos, como questões relacionadas à maneira de encarar a vida e o mundo; a cultura e modo como festeja a vida; o respeito à natureza e a convivência com a diversidade.
O candomblé dá uma lição incrível de conhecimento e respeito dos fenômenos naturais e coloca, frente-a-frente, a questão da sustentabilidade no planeta. Isto amplia o diálogo e a identificação com centenas de outros grupos étnicos, a exemplo das populações indígenas e grupos de ecologistas que refletem sobre processos de conservação em geral. Enfim, o filme se aprofunda na província, mas sem perder seu caráter universal – marco da existência e da convivência neste planeta.
Na sua avaliação, reproduzindo a questão central do seminário, qual é a face negra da mídia?
A grande mídia é cada vez mais comprometida com uma elite que opta por se fechar em suas próprias verdades e crê que tudo o que produz caracteriza a opinião pública.
A face negra está surgindo de processos colaborativos que ampliam o espaço da diversidade e da convivência, espaços horizontalizados e produzidos de modo independente, por jornalistas e intelectuais negros ou pessoas comprometidas com um mundo sem preconceitos, mas generoso e solidário, com capacidade para ouvir e curiosidade em aprender.
A face negra está nos festivais de diversidade sexual e étnica, nos veículos como o jornal Iroin, Mídia Étnica, Revista Raça, além dos jornais produzidos nos terreiros e blocos de carnaval e afoxé, na produção dos Pontos de Cultura e programação dos cineclubes. A face negra está ainda no fortalecimento das várias TVs e rádios públicas, nas transmissões via web e, certamente, em filmes como o Jardim das Folhas Sagradas.
Sinopse
Dirigido por Pola Ribeiro, Jardim das Folhas Sagradas aborda espiritualidade, ecologia e conflitos do cotidiano urbano. Oferece ainda o debate sobre bissexualidade, intolerância religiosa e preconceitos étnicos, ao mesmo tempo em que expõe nuances do Candomblé e discute a degradação das áreas verdes nas cidades vitimadas pela especulação imobiliária.
A obra é o resultado de um amplo projeto de pesquisa a respeito da religião afro-brasileira. E um de seus grandes desafios é retratar de maneira respeitosa as tradições dessa religião e torná-la acessível aos espectadores que não conhecem seus rituais. Além disso, a película estabelece contrapontos entre a tradição e a modernidade.
A ficção gira em torno da história de Bonfim, bancário bem sucedido, negro, bissexual e casado com uma mulher branca e de crença evangélica. O personagem vive na Salvador contemporânea e recebe a incumbência de montar um terreiro de Candomblé no espaço urbano.
Para isto, enfrentará a especulação imobiliária numa cidade de crescimento vertiginoso, o preconceito racial e a intolerância religiosa. Este homem, embora questione a tradição da própria religião, tem a missão de montar um ambiente sagrado e de respeito à natureza, superando as contradições e conflitos trazidos pela modernidade.
FICHA TÉCNICA 
Diretor: Pola Ribeiro 
Roteiristas: Póla Ribeiro e Henrique Andrade 
Elenco: Antônio Godí (Miguel Bonfim), Harildo Deda (Martiniano), Evelin Buchegguer (Ângela), João Miguel (Castro); Aurístela Sá (Cora), Sérgio Guedes (Jairo) e Érico Brás (Bará)
Site: 
http://www.jardimdasfolhassagradas.com.br 
Blog: 
http://blog.jardimdasfolhassagradas.com 
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=r2frtxS8WiU  


fonte:http://www.palmares.gov.br/

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