Fatos e acontecimentos/Política e direitos humanos

O ULTIMO TIRO

A metáfora, perfeita, é da autoria de Ailton Ferreira, hoje Secretário Municipal da Reparação: “ quando o Jornal Nacional anuncia a morte de algum jovem negro e favelado, a bala que ceifou sua vida foi apenas o último tiro. O primeiro ocorreu quando do seu nascimento, certamente de uma mãe solteira, num barraco sem água encanada e sem luz ,na periferia; o segundo, quando ele ingressou em uma escola pública do bairro, sem material escolar, com professores que lá não apareciam e um currículo completamente defasado; o terceiro, quando, sem qualificação, bateu à porta de várias empresas e lhe foi negada a vaga, com o argumento de que não correspondia ao perfil exigido. Sem perspectivas, por volta dos dezenove anos, recebe uma proposta irrecusável do tráfico de drogas.Topa.Aos vinte e cinco, no máximo, a polícia invade o morro e lhe dá o tiro de misericórdia. O último” .
Agora entro eu: a polícia dá o tiro, mas é a nossa omissão que aperta o gatilho.Não vou falar da secular omissão histórica, porque nesse caso, durante quinhentos anos, ela foi política de estado: escravidão, abolição sem cidadania, exclusão social contínua, racismo e negação.
Quero me reportar à pouca velocidade, ao ritmo lento com que certas ações governamentais e atitudes da sociedade civil abordam a questão.Claro que vai aqui o reconhecimento a programas como Bolsa-família, Prouni,Pró-Jovem, Promimp, Cotas universitárias e tantas outras iniciativas de um presidente-operário-nordestino, que nasceu pobre, e, portanto, conheceu na pele a negritude social.
Mas a tarefa de inclusão do negro no sistema da sociedade brasileira é uma tarefa hercúlea, gigantesca, o verdadeiro projeto de construção da nação, que ainda não somos.E aí eu falo de prefeituras de capitais, prefeituras do interior, Ongs, igrejas,terreiros, sindicatos e lideranças comunitárias.
Proposta: vamos começar oferecendo uma oportunidade a esses jovens negros exatamente na linha divisória entre o sonho e a desistência? Vamos criar “ vietnãs educacionais” nos bairros populares, que os preparem para ingressar no Cefet( os que estão na oitava série) ,e na universidade(os que concluíram o ensino médio)?
Prefeitura, empresas, entidades civis e ONGs: a educação de qualidade pode ser o primeiro passo para que evitemos o último tiro.

De : Jorge Portugal
Um negro em movimento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s