Pastoral Afro

TOLERÂNCIA E DIVERSIDADE RELIGIOSA

Das lembranças que remetem a minha infância, as que giram em torno da religiosidade diversa na qual meus familiares e a comunidade do Bairro Jardim Santo André, periferia da Grande São Paulo, vivenciavam há pouco mais de 30 anos, são, sem dúvidas, as mais marcantes. Meus país, católicos não praticantes, viviam ao lado de outros familiares evangélicos da Assembleia de Deus, denominação religiosa entre as primeiras a se fixar no país. No mesmo bairro havia espíritas e uma benzedeira, que curava os males de dor de barriga das crianças com galhos de arruda, uma oração que misturava rezas católicas e invocações de orixás, num convívio harmonioso.
A quebra da rotina só se dava quando alguns primos evangélicos iam escondidos assistir conosco seriados de TV como Tarzan, Zorro etc. Quando meus tios descobriam, havia uma ou outra discussão, já que naquela época os pastores aconselhavam a não assistir televisão. Minha mãe sempre ia em defesa do direito ao lazer e diversão das crianças, afinal, todos éramos filhos de Deus.
Muitas coisas no campo religioso mudaram desse tempo pra cá. Hoje, o país, que se orgulhava de ter uma maioria católica, já não pode mais ostentar esse absolutismo. As denominações religiosas que aconselhavam seus fiéis a não assistirem televisão, agora são donas de produtoras, programas e até emissoras de TV. Cresceram para diversas áreas da atividade social. Basta dizer que a bancada evangélica em Brasília é das mais ativas e esteve representada, inclusive, na disputa presidencial com a candidata evangélica Marina Silva. O crescente avanço evangélico, potencializado pelo surgimento dos neo-pentecostais, mexeu com a estrutura social que antes era exclusivamente católica. E nessa gigante disputa por fiéis, um novo elemento tem se apresentado nos últimos anos: a intolerância religiosa.
“O CRESCENTE AVANÇO EVANGÉLICO, POTENCIALIZADO PELO SURGIMENTO
DOS NEO-PENTECOSTAIS, MEXEU COM A ESTRUTURA SOCIAL QUE ANTES
ERA EXCLUSIVAMENTE CATÓLICA”
Arriscaria dizer que o início dessa nova fase se deu quando um pastor resolveu chutar a imagem de Nossa Senhora da Aparecida pela TV, ato repudiado no país inteiro e amplamente divulgado por alguns meios de comunicação. A partir dali, e talvez por conta da repercussão negativa, o alvo principal passou a ser as religiões de matizes africanas que, sem meios de comunicação para se defenderem, tiveram que recorrer a um ou outro artifício jurídico ou ação isolada. O resultado dessa ação ininterrupta pode ser sentido em um trabalho realizado por Denise Carreira, na área da educação. A pesquisadora se deparou com casos de intolerância religiosa em todo o Brasil, onde crianças, famílias e professores adeptos de religiões de matiz africana – como candomblé e umbanda – são discriminados e hostilizados cotidianamente. Alunos pedem transferência ou até mesmo abandonam as escolas em razão da discriminação.
Detectou-se também violência física (socos e até apedrejamento) contra estudantes; demissão ou afastamento de profi ssionais de educação adeptos de religiões de matiz africana ou que abordaram conteúdos dessas religiões em classe. E mais, proibição de uso de livros e do ensino da capoeira em espaço escolar; desigualdade no acesso a dependências escolares por parte de lideranças religiosas; omissão diante de discriminação ou abuso de atribuições por parte de professores e diretores. São dados assustadores, encaminhados para organismos internacionais e divulgados recentemente em relatório no Rio de Janeiro. Se pensar que, há pouco mais de 30 anos, o que geraria uma discussão mais áspera no campo religioso era o direito ou não das crianças assistirem televisão, veremos que as crianças de hoje estão muito mais ameaçados que antes, principalmente se o problema não for enfrentado com seriedade pela sociedade brasileira.

fonte: revista RAÇA

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