racismo

VIOLÊNCIA RACISTA ONTEM E HOJE: STEVE BIKO, PRESENTE!

Aqueles que lutam contra o racismo e as diversas formas de discriminação estão, de certa forma, condenados ao esquecimento. No último dia 12 de setembro, o assassinato de Stephen Bantu Bico, ou Steve Biko, um dos maiores lutadores do movimento negro mundial, completou 33 anos. Ofuscada ainda mais a partir de 2001 pelas lembranças do 11 de setembro estadunidense, a data permanece desconhecida.
A questão racial está longe de ser encarada como problema estrutural da nossa sociedade. Por ironia, este é um dos pontos de convergência no discurso político-ideológico da esquerda, do centro e da direita. Mais uma vez a Pesquisa Nacional por amostragem de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE), comprovou uma denúncia que o movimento negro faz ano após ano. Segundo os dados divulgados nesta sexta-feira, 17 de setembro, os pretos e pardos ganham, em média salários 40% inferiores aos brancos. E pior, essa lógica se repete em todos os graus de escolaridade.
O movimento de cursinhos comunitários tem sido um importante instrumento de luta pelo acesso ao ensino superior. Embora o Estado se recuse a assumir o compromisso institucional de promover ações reparatórias pelas sequelas deixadas pelo racismo, a juventude organizada conseguiu colocar as cotas na pauta do Congresso e até mesmo do Supremo Tribunal Federal (STF). Hoje, cerca de cem universidades já adotam algum tipo de ação afirmativa. Sabemos que está longe do ideal, mas é preciso reconhecer que algumas conquistas são reais.
Apesar de a correlação de forças sempre impor um rebaixamento das bandeiras de luta do movimento negro, vivemos num contexto tão perverso quanto aquele que vitimou Steve Biko, um dos fundadores e inspiradores do Movimento Consciência Negra, na década de 1970, na África do Sul. Esta organização era dirigida especialmente pela juventude negra, que se preparava para uma nova fase de luta pela liberdade. A idéia que estava por trás do Movimento Consciência Negra era romper com as antigas atitudes negras em relação às lutas pela libertação e restabelecer a autoconfiança e dignidade para os negros como uma atitude que levasse a novas iniciativas.
Em dezembro de 1968, um grupo de estudantes negros se reuniram em Marianhill, na África do Sul e, formaram uma nova organização de estudantes negros, pois a União Nacional dos Estudantes Sul- Africanos (NUSAS) uma organização multirracial, embora com 90% de brancos, elegeu um comitê executivo totalmente branco. A nova entidade recebeu o nome de Organização dos Estudantes Sul-Africanos (OESA) e Steve Biko foi o seu primeiro presidente, desenvolvendo um programa que transformou a luta do povo sul-africano com audácia e energia que não se via desde o banimento do Congresso Nacional Africano e o Congresso Pan-Africanista de 1960.
Em março de 1973, no ápice do regime de segregação racial (apartheid), Steve Biko foi “banido”, o que significava que estava proibido de comunicar-se com mais de uma pessoa por vez e, portanto, de realizar discursos.
Durante sua detenção Biko foi torturado na sede da Divisão de Segurança e alojado no que era então conhecido como o edifício Sanlam em Port Elizabeth. Foi durante este período que Biko, vitima de violência, sofreu uma hemorragia cerebral maciça. No dia 11 de setembro 1977 Biko foi transportado para a prisão central de Pretória – uma viagem de doze horas, nu, sem escolta médica, na parte de trás de um Land Rover da polícia. Biko morreu no chão de uma sela vazia no Presídio Central de Pretória no dia 12 de setembro.
A mesma violência do Estado racista e da policia dirigida ao líder africano se mantém na África e nos países de grande população negra. No Brasil não é diferente. O subemprego, o desemprego, a falta de moradia, os serviços precários de saúde e educação, a falta de oportunidades e o desumano e permanente preconceito e discriminação racial em todo e qualquer ambiente social contribuem para a manutenção de um projeto eugenista iniciado ao final da escravidão.
Quando essas artimanhas falham, o aparelho repressivo do Estado se coloca contra um conjunto de indivíduos que já é majoritário em termos populacionais. Herança do trato escravocrata, o Estado e suas policias mantém uma atuação coercitiva, preconceituosa e violenta dirigida a população negra. Desrespeito, agressões, espancamentos, torturas e assassinatos são práticas comuns dessas instituições. Comuns nos mais de 350 de escravidão. Comuns na pós-abolição. Comuns nos períodos de ditaduras. Comuns em nossos dias., se não, veja:
Conforme relatório da Organização das Nações Unidas para execuções sumárias e extrajudiciais, apresentado à ONU em maio de 2008, os policiais militares e civis brasileiros matam em serviço e fora de serviço; No ano de 2008, em São Paulo, foram atribuídos a “resistência seguida de morte” 431 homicídios; no final do ano de 2009 a Human Rights Watch, ONG internacional de direitos humanos, divulgou relatório dando conta de que a execução extrajudicial de suspeitos se tornou um dos flagelos das polícias no Brasil, em especial no Rio de Janeiro e em São Paulo; Em julho de 2009 a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, UNICEF e o Observatório de Favelas divulgam resultados de sua pesquisa, e os dados são ainda mais estarrecedores: 33,5 mil jovens serão executados no Brasil no curto período de 2006 a 2012. Os estudos apontam que os jovens negros têm risco quase três vezes maior de serem executados em comparação aos brancos.
Recentemente, a OMS (Organização Mundial de Saúde) anunciou que todos os anos mais de 2 milhões de jovens morrem por causas que poderiam ser evitadas. A depender dos projetos políticos que estão em pauta no Brasil, na próxima legislatura não veremos nenhum esforço no sentido de se criar uma rede de proteção social que garanta aos jovens o direito de passar com dignidade por todas as etapas do amadurecimento.
O Estado e a polícia assassinam potenciais “Steves Bikos” a cada minuto. Mas, ao mesmo tempo, milhares outros de “Steves Bikos” ocupam as ruas, as salas de aulas de cursinhos comunitários e seu lugar no movimento de luta popular e pelos direitos das mulheres. Steve Biko é um exemplo de luta e compromisso com a causa do povo negro. Sua história segue inspirando lutadores populares em todo o mundo. E é esse espírito guerreiro e solidário de Steve Biko que nos acompanha. E com ele, seguimos no combate ao capital e ao racismo que, afinal, segundo o próprio líder Sul Africano, “…são faces da mesma moeda”.

by Douglas Belchior

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Chegará o dia

Não renuncieis ao dia que vos entregam os mortos que lutaram.

Cada espiga nasce de um grão entregue à terra,
e como trigo, o povo inumerável
junta raízes, acumula espigas,
e na tormenta desencadeada
sobe à claridade do universo.

Pablo NERUDA

fonte: ADITAL

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