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BRÓDER

Jeferson De realiza seu primeiro longa-metragem fugindo da obviedade ao colocar um ator branco – Caio Blat – no papel principal. Bróder é um filme dirigido por um negro e que fere, logo de cara, um dos itens do Manifesto do Dogma Feijoada, que o cineasta ajudou a criar em 2000 

 

Jeferson De no Capão Redondo, na periferia de São Paulo
Apesar de ser reconhecidamente um cara dado a polêmicas, o cineasta Jeferson De é gentil, inteligente, extremamente bem-humorado e que fala de tudo um pouco. Durante a entrevista, percebemos o arsenal de referências culturais que possui. Sua educação foi acompanhada de perto pelos pais, que não deixaram o menino esmorecer nos estudos um segundo sequer, nem quando ele ficou tentado em ser jogador de futebol. Hoje, Jeferson sabe que eles estavam certos, mesmo quando diz brincando que “se tivesse virado um jogador de sucesso, já teria feito mais filmes”. Com Bróder, Jéferson vem colecionando prêmios e excelentes críticas por onde quer que passe. Foi assim nos festivais de Berlim, Paulínia e, principalmente, Gramado, onde foi consagrado. Radiante com os cinco Kikitos conquistados com o filme, ele já pensa alto e vai lutar para que Bróder seja indicado para representar o Brasil no Oscar 2011. “Ele merece estar lá”, diz o diretor.
Sua estreia como diretor de longa-metragem veio recheada de expectativas. Isso, de alguma forma, te atrapalhou?
Acho que não. A questão mais difícil é dominar a ansiedade, minha própria ansiedade em assistir ao filme. A gente sabe que em um longa a coisa é muito demorada. A questão do lançamento não depende mais do diretor, do roteirista, nem do produtor. Duas grandes empresas – Globo Filmes e a Columbia Pictures – são responsáveis por vários filmes de sucesso no Brasil, e eu confiei a elas o lançamento do Bróder. A expectativa, graças a Deus, era muito boa em relação ao meu projeto. Mas de certa forma foi aplacada. Quando o filme foi escolhido para o Festival de Berlim, tive muito receio de que fosse uma questão de umbigo, que dissesse respeito simplesmente à minha existência e a de minha família, que só os meus amigos fossem gostar ou apenas quem tivesse visto meus curtas iria entender. Aí, de repente, veio Berlim dizendo: “Pôxa, a gente te compreende. Esse teu filme é universal”. Isso pra mim foi uma grande surpresa.
Você estava num ônibus, indo para Universidade de São Paulo (USP), quando recebeu a notícia de que Bróder tinha sido selecionado para o Festival de Berlim, dentro da mostra Panorama.
Me lembro exatamente como foi. Nesse sentido a memória cinematográfica ajuda muito. Era um dia de verão, e chovia muito. Quando recebi a notícia, não teve como segurar o choro e a satisfação plena. Meu produtor falou por telefone e eu não pude segurar o grito: “Berlim? O filme foi selecionado para Berlim?”. Comecei a gritar e a chorar dentro do ônibus, com todos me olhando, surpresos.
Quando você assistiu ao filme Os Trapalhões no Planalto dos Macacos, e viu o cartaz no final da sessão, ficou com a autoestima machucada ao observar que o Mussum estava abraçado a uma macaca. Hoje, que leitura você faz dessa experiência?
Meus heróis de infância na televisão eram o Mussum e o Saci Pererê, do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Aí eu fico pensando e começo a questionar, hoje, com minha leitura contemporânea: quem era o Mussum? Um negro barrigudo, alcoólatra, que falava errado e sempre se dava mal na história. Então, você imagina o que é ver esse filme num domingo e depois ir para a escola na segunda-feira. Todo mundo se identificava com o Didi ou com o Zacarias. Eu me identificava com aquele cara, que no cartaz do filme estava abraçado a uma macaca. Esse era o meu herói. Meu outro grande herói de infância era um menino sem perna, que usava aquele boné horrível vermelho e que fumava. Eu tinha asma, nem podia pensar em fumar, tinha duas pernas e odiava aquele boné horrível dele. Não tinha esse grau de identificação.
O que você herdou desses heróis? 
Do Mussum, herdei a minha paixão pelo cinema, porque, bem ou mal, assisti a todos os filmes dele. A maneira que ele tratava a língua portuguesa era muito original. Essa coisa do “Cacildis”, e toda a terminologia que ele criava marcaam muito a minha infância. Do saci, herdei esse meu espírito de inquietude.
“O FILME TEM UMA RELAÇÃO AMOROSA E AFETIVA MUITO FORTE. ALGUÉM JÁ DISSE NESSES TESTES DE AUDIÊNCIA QUE É UM FILME DE ABRAÇOS”

Negro, pobre e morador na periferia, mesmo assim, você se formou em Cinema na USP, tem um ótimo nível cultural e hoje é considerado uma das grandes promessas do cinema nacional. Isso se deve muito a criação que você recebeu de seus pais, não é?
Confesso que fiquei muito magoado. Só recentemente, foi que perdoei meus pais (risos). Eu queria ser jogador de futebol, de verdade. Se eu tivesse me transformado num grande jogador e jogasse duas Copas do Mundo, hoje eu seria milionário e daria para fazer vários filmes (risos). Entrei no time dente de leite do Taubaté e frequentava os treinos. Um dia não fui convocado para um campeonatozinho qualquer da minha cidade. Nessa época, eu estava indo mal na escola e minha mãe me proibiu de ir aos treinos, pois tinha que tirar notas boas no colégio. Eu tinha pais muito presentes que nunca me deixaram abandonar a escola.
Fale um pouco de seu pai. 
Ele era metalúrgico e para distrair os colegas da empresa onde trabalhava, ia até a cidade vizinha, Caçapava, e trazia um projetista para Taubaté. Na empresa, estendiam um lençol branco no pátio e, com o equipamento do projetista, exibiam filmes em 16mm. Me lembro que um dos primeiros filmes que assisti foi A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski, que me causou um terror absurdo na época. Adoro esse filme. Saiu recentemente em DVD e fui correndo comprar. Vi e chorei muito, pois aquele tinha sido o primeiro filme que assisti e que ficou na minha lembrança de infância. Tinha uma coisa mágica nessa história do meu pai. Lembro que ele me levava, de vez em quando, até Caçapava no seu fusca. Eu voltava no banco de trás, perto da caixa do projetista. Olhava aquela caixa e via apenas uns rolos e equipamentos. Quando chegávamos ao local onde ia ser exibido o filme, ficava observando o projetista tirar a caixa do banco de trás do carro, montar o projetor e colocar aqueles rolos de filmes. De lá saia uma luzinha, que colocava imagens em movimento no lençol que eles haviam colocado na parede. Aquelas imagens, para um menino de seis para sete anos, era uma coisa maluca.
Qual é o nome de seu pai?
Meu pai tem um nome tão complicado que, às vezes, eu não falo para que ninguém coloque na matéria o nome dele errado. O nome dele é Orberlino. É a única pessoa que tem um nome assim. Ele era uma grande figura. Morreu em 1989, bem na hora que eu ia começar a pensar em fazer cinema. Meu pai era um doidão. Ele morreu alcoólatra.
Um doidão beleza? 
Completamente doido. O mundo não cabia dentro dele. Devia ser um artista que não virou artista por causa das circunstâncias da vida. Morreu na rua. Era aquele alcoólatra que vai morrendo, vai definhando, sem mexer com ninguém, sem perturbar ninguém. É uma coisa maluca! Quem assistir Bróder vai encontrar semelhanças entre o personagem do Ailton Graça e meu pai. O filme, talvez, tenha sido para mim a terapia mais cara que alguém já vez. Pensei nisso recentemente no Festival de Paulínia. Comentei com a minha mulher: “Que terapia cara foi essa?”. Mas descobri que Woody Allen, Glauber Rocha e outros diretores faziam isso com seus filmes. Portanto, não estou sozinho nessa “autoanálise fílmica” (risos). Por conta disso, no próximo filme, vou contar outra história para me livrar um pouco desse peso que o Bróder me trouxe.
Bróder é um filme muito família.
Muito família, sim, todo cercado de mãe, pai (padrasto), irmã, padrinho, madrinha, igreja e amigos. O filme tem uma relação amorosa e afetiva muito forte. Alguém já disse nesses testes de audiência, que é um filme de abraços. É um filme que talvez mais tenha abraços. Um filme de manos, de meninos, ao mesmo tempo um filme de meninos e de abraços, abraços afetivos. Mas não é uma relação de homossexuais.
Quando a questão racial entrou na sua vida?
Tardiamente. Eu me liguei sobre essa questão racial quando fui estudar na USP. Cheguei lá e conheci pessoas que falavam em reparação. Imagina a minha incompreensão sobre isso. Era um mundo que eu não conhecia. Na periferia não existia isso. Essa conscientização política, da condição de nossa gente, eu só fui conhecer, de fato, na USP.

Agora, a história é outra!

foto Eliane Coster

Outros olhares da periferia

foto divulgação
Jonathan Haagensen (Jaiminho) e Silvio Guindane (Pibe) também estão emBróder

Um dos pontos que mais incomodavam Jeferson De era a maneira como esvaziavam a questão da identidade e dos valores do negro dentro da cinematografia nacional. Segundo ele, os negros viravam objetos da trama e não sujeitos dela e, na maioria das vezes, resolvendo seus problemas através da violência. Em Cidade de Deus, por exemplo, o único personagem negro que tem uma história positiva é o fotógrafo, porque ele é salvo por um branco e, na vida real, na maior parte das vezes, isso não acontece. No caso de Bróder, a periferia de São Paulo é retratada de forma mais humanizada. Os personagens não orquestram a violência como solução para a falta de perspectiva de suas vidas, apesar de que a violência, mesmo não sendo explícita, se faz sentir, e muito, pela vida oscilante e sem rumo de Macu (Caio Blat). Jeferson queria ir além dessa relação simbiótica de exclusão-violência, negro-violência, periferia-violência, pontuando a relação do protagonista Macu com sua família e amigos, pelo viés do afeto. E o mais importante: mostrar o negro como sujeito, em que o branco não é o seu salvo-conduto, pelo contrário. A violência se faz presente sim, mas dentro de outro contexto. Tal maturidade trouxe a Jeferson muitos questionamentos acerca das opiniões que ele foi formando e cristalizando ao longo de 10 anos de carreira. Ao que parece, suas verdades foram colocadas em xeque, para serem confirmadas ou não. Se antes ele queria entender a gênese do negro no cinema nacional, agora quer mostrá-la por outros ângulos, olhares e possibilidades, além de expurgar seus fantasmas do racismo. “Esse fantasma é uma relação da falta de ver personagens negros na tela, como heróis, como personagens positivos”, afirma. E para quem acha que a escolha de Caio Blat foi motivada por concessões do diretor, devido à parceria com a Globo Filmes e a Columbia Pictures, verá que ela foi uma das coisas mais acertadas de Bróder, e a maneira que seu realizador encontrou para ampliar a discussão sobre o que é ser negro num país de mestiços e o conceito de “branquitude” na sociedade brasileira atual. Em Bróder, Jeferson queria mostrar que, atualmente, na periferia de qualquer cidade brasileira, o branco, o negro e os mestiços vivem como se fossem “iguais”. Que muitos brancos agem como se fossem negros (com suas gírias, roupas e comportamento). Quando Jeferson De mandou o roteiro para Caio Blat analisar, recebeu do ator uma resposta inusitada: “Sempre quis ser negão”. Ali, certamente, o diretor teve a certeza do que pretendia fazer, mesmo com as futuras polêmicas. Parceria de manos
 Jeferson De sabe aonde quer chegar. Mesmo que tenha que rever alguns dos seus conceitos e ideias, ele não se faz de rogado em mudar seus pontos de vista, até porque é sempre bom lembrar, o artista é feito de contradição, e esse lema ele segue à risca. Ao escolher o protagonista, Jeferson já havia intuído que Caio Blat iria entrar de cabeça na figura trágica e atormentada de Macu (que não consegue enxergar possibilidade, para além dos limites do seu bairro, o Capão Redondo). A parceria entre os dois deu muito certo, desde o primeiro documentário do diretor, 
Apenas mais um. Quando Bróder começou a ser mostrado nos festivais brasileiros, logo após a bem-sucedida passagem pelo último Festival de Berlim, eles não se cansam de elogiar um ao outro, principalmente depois dos prêmios do Festival de Cinema de Gramado (melhor filme, diretor, ator, trilha sonora e montagem). “Fiquei feliz principalmente pela consagração do filme, que merece um grande lançamento para chegar a todos os públicos, e pela consolidação do Jeferson como o maior diretor negro do Brasil, nosso Spike Lee”. O cineasta, por sua vez, expressa sua satisfação em ter escolhido Caio como protagonista, mesmo sabendo das polêmicas e da ciumeira de alguns atores negros. “Não ligo para ciúmes de atores, sejam brancos ou negros. O que me leva a escolher um ator é sua capacidade de entrega ao projeto e, principalmente, ao personagem. Caio foi exemplar nisso”, disse o diretor.
Representante da cultura retratada
Foto Edson Vara/Press foto

Caio Blat é um incansável desbravador de almas, assim como foram os irmãos Villas-Boas – um dos personagens que ele dá vida no novo filme de Cao Hamburguer que está sendo rodado no Xingu. Nos últimos anos, o ator vem colecionando personagens marcantes no cinema. Sua entrega é tão intensa ao ponto de ele mudar drasticamente sua própria vida pessoal. Foi assim em Bróder, quando decidiu morar no Capão Redondo, reduto do seu personagem Macu, para tentar mergulhar no seu universo Além de ir morar no Capão Redondo, que outras fontes você usou para compor o personagem Macu?
Principalmente as histórias que ouvi dos moradores, as pessoas que conheci, e as letras dos Racionais e do Rosana Bronk’s, que são as verdadeiras crônicas da periferia. Sempre me senti representando aquelas pessoas.
O Macu foi originalmente escrito para ser interpretado por um ator negro. Você se sentiu pressionado?
Acho que a escolha de um personagem branco que vive na cultura negra é a maior afirmação que o Jeferson poderia fazer da sua cultura. Na periferia, todos são iguais. Como no filme, é comum um jovem branco chamando um senhor negro de pai, outros jovens negros de irmão, sem distinção.
“Ninguém é apenas branco no nosso país, a miscigenação vem de muito longe, é isso que precisa ser reconhecido. Todo o preconceito racial é nojento e merece punição severa”
Qual a sua opinião sobre o preconceito racial no Brasil?
O Brasil seria um país medíocre sem os negros, sem sua força, sua música, sua ginga. Ninguém é apenas branco no nosso país, a miscigenação vem de muito longe, é isso que precisa ser reconhecido. Todo o preconceito racial é nojento e merece punição severa.
E sobre as cotas?
Acho uma medida paliativa, válida para diminuir antigas diferenças, mas o ideal é que nossa sociedade se mova no sentido de oferecer as mesmas oportunidades a todos os jovens pobres, desde o início da vida. As mesmas condições de saúde, educação e lazer, para que os pobres e os negros, em especial, conquistem o lugar a que têm direito por seus próprios méritos. O negro tem talento para competir por qualquer espaço na sociedade e tem que receber essa chance.

Na época, você foi discriminado em um restaurante em São Paulo, por estar caracterizado como Macu. O que aconteceu realmente?


Entrei num restaurante pequeno na Bela Vista e o dono me estranhou, recusou-se a me servir. Eu estava bem-vestido, mas com a aparência cansada e usando o típico corte “escovinha”. Não acreditei que aquilo pudesse acontecer com qualquer pessoa, fiquei indignado. Quando cheguei à filmagem e contei o caso aos colegas, eles disseram: “Bem-vindo ao clube!”. Todos já haviam sofrido o mesmo tipo de preconceito. Pensei em denunciar, em quebrar o restaurante, mas decidi colocar toda a raiva no personagem. Ver o filme brilhar é minha vingança. De Frei Tito, em Batismo de Sangue, passando por um playboy da periferia de Recife em Baixio das Bestas e, agora, um “mano” no filme Bróder, composições completamente distintas. Como você enxerga esses personagens e quais foram os desafios ao interpretá-los?
Me sinto sempre um representante da cultura retratada, um mensageiro. Procuro conhecer o local e as pessoas com humildade para ter o direito de contar a história delas na tela. Sou como um intruso, que invade o bairro e leva essa cultura para o mundo todo pela tela de cinema. Preciso do aval dos moradores.
O que você acha da exclusão social brasileira e, por tabela, da violência?
Enquanto todos não receberem as mesmas oportunidades, nosso país será sempre medíocre, pois tem muito talento sendo desperdiçado. O Brasil tem urgência de uma revolução na educação para capacitar a nova geração para o crescimento que v em por aí.
Mano Brown e Racionais?
O rap dos Racionais mudou a consciência de toda uma geração no Capão e em todas as periferias. Durantes os anos mais duros da década de 90, eles foram como um expurgo, uma voz de protesto, de alerta. Tudo com muito talento. Hoje, vejo as músicas mudarem de tema, falarem da irmandade, de lealdade, de superação. A molecada não quer mais ser bandido, quer ser rapper, isso é tudo.

Fonte: revista RAÇA

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