Uncategorized

LIVROS E MÚSICA no combate ao racismo

Livros e música
No combate ao racismo

POR ROSE CAMPOS | FOTO DIVULGAÇÃO

Um projeto premiado, criado na periferia de São Paulo, sugere que a infância é um momento bastante propício para lutar contra o racismo, com muita informação e arte que estimulem crianças a se servirem de livros, respeito mútuo e criatividade

O termo combate ao racismo muito provavelmente nos impele a pensar, além de políticas afirmativas, em leis rigorosas feitas para punir pessoas adultas de pouca tolerância e nenhuma sensatez. A realidade, no entanto, tem mostrado para muitos educadores ou adultos mais atentos, que as primeiras manifestações do preconceito começam ainda na infância (certamente um arremedo do que faz e pensa o adulto) e podem gerar conflitos entre crianças e adolescentes. O comportamento, às vezes surge de forma agressiva, numa discussão, e outras, em situações mais sutis, de modo inocentemente equivocado. “Certa vez uma garotinha de pele clara demonstrou surpresa por eu beijar a face de outra menina, de pele negra”, exemplifica a bibliotecária educadora Luciane Lima, que trabalha como contadora de histórias na fundação Julita, uma ONG no Jardim são Luiz, zona sul de são Paulo, uma das regiões mais carentes da cidade. Marcelo Gabriel da silva, músico, professor de percussão e pesquisador de maracatu, trabalha na mesma instituição e não consegue ficar impassível quando presencia alguma discriminação, muitas vezes vinda de um garoto negro contra seu colega, também negro. ele enxerga aí uma boa oportunidade para orientar os pequenos. “Diante de cenas como essa, eu chamo o aluno de lado e procuro mostrar que o que ele está dizendo é uma ofensa e um desrespeito não só para o seu colega de classe, mas contra ele próprio e sua negritude, que deveria conhecer melhor e da qual deveria se orgulhar”, explica.

Maracatu: Ferramenta de ensino

Atentos a essa realidade comum a qualquer ambiente onde convivam crianças e jovens, Luciane e Gabriel resolveram criar um projeto que pudesse ser aplicado por eles na instituição onde trabalham e com os recursos que dominam, ou seja, os livros e a música. Assim surgiu o Projeto Maracatando. O nome é uma referência ao maracatu – manifestação artística que reúne música e dança, nascida no Brasil pelo poder criativo dos negros africanos. O maracatu é o fio condutor do projeto, que inova em sua proposta de agregar música, literatura, contação de história e expressão teatral, com o objetivo de “desmistificar o racismo e o preconceito que acompanham nossa sociedade desde seus primórdios e fomentar a curiosidade em relação à leitura e ao conhecimento de nossa história”, descrevem seus organizadores. A intenção foi fazer com que os educandos se apropriassem mais do espaço da biblioteca e, com isso, a leitura passasse a fazer parte de suas vidas. De que modo? Com um convite ao mundo do conhecimento, da imaginação e da fantasia, onde poucas crianças – e adultos – resistem: a contação de histórias. Para isso, criaram dois personagens, Mariamma Kariman, boneca negra de origem baiana, e Kissu, um príncipe africano. A bibliotecária e o músico interpretam os personagens. Luciane, que é branca, pinta o rosto de preto e trança os cabelos com lã, à moda africana.
Marcelo, negro, usa coloridas vestes africanas e improvisa com seus dreads uma espécie de coroa em sua cabeça. É o príncipe Kissu quem desperta a boneca falante com a música do seu instrumento de percussão, e a boneca, muito bem informada, interage com o outro personagem e com o público usando como ponto de partida a comemoração do 13 de maio e a história mal conhecida de tudo que existe por trás desta data. Assim, abordam temas como abolição da escravatura; a escravidão e o modo como os negros africanos foram trazidos ao Brasil; as influências africanas em nossa cultura; a história do maracatu; preconceitos e questões inter-raciais.
É claro que os livros ajudaram a arquitetar o texto. Luciane usou como base três obras dedicadas ao público infanto-juvenil: Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado (Ática), que retrata a questão do preconceito; De alfaia a zabumba, de Raquel Náder (Paulinas), que conta as raízes e evolução do maracatu, e Meu tataravô era africano, de Giorgina Martins (DCL), uma abordagem sobre a escravidão. O maracatu e suas muitas variações, que floresceram em nosso país, completam a apresentação, recheada de cantigas africanas fáceis de serem acompanhadas pela plateia, comumente atenta e participativa.
“No fundo, queremos ensinar, além de nossa história e suas muitas referências na cultura africana, a importância do respeito às diferenças e do respeito às crianças de maneira geral”, resume Luciane.

Criatividade premiada

Em março, o Maracatando esteve entre os nove projetos vencedores do IX Prêmio Biblioteconomia Paulista Laura Russo. A premiação, instituída em 1998, é uma iniciativa do Conselho Regional de Biblioteconomia do Estado de São Paulo e tem como objetivo dar reconhecimento a bibliotecários, estudantes e instituições que desenvolvam ações significativas de incentivo à leitura, à pesquisa e à organização de bibliotecas e outros espaços culturais gerenciados por bibliotecários. O tema da última edição era Empreendedorismo Social. “Ganhar este prêmio foi algo mágico, porque consagra o trabalho do bibliotecário como educador social. Para mim, especialmente, foi um prêmio na vida”, comemora Luciane. A premiação também serve de incentivo para dar continuidade e ampliar o projeto. Em 2010, o Maracatando deverá ser apresentado a mais 120 novos educandos e, embora ainda não existam recursos para isso, a vontade de seus criadores é de levarem a ideia para outros lugares, se possível para outras instituições de ensino público em regiões carentes da cidade de São Paulo e, quem sabe, também para outros estados brasileiros. Enquanto isso não acontece e paralelo à sua atuação na ONG, Marcelo faz o trabalho de formiguinha improvisando apresentações nas comunidades por onde passa. “Eu chego ao lugar e converso com quem for preciso, ainda que seja alguém do movimento do tráfico, e peço licença para levar o meu trabalho”.

Fascínio pelo conhecimento

Feito para atender cerca de 80 crianças na faixa de 7 a 12 anos, oMaracatando funcionou tão bem que atraiu, além delas, a atenção dos grupos de terceira idade frequentadores da ONG e alcançou, em 2009, um público estimado em 270 pessoas. Uma das principais características dessa iniciativa é não ser estática. Sendo assim, o projeto não se esgota nas apresentações e seu principal êxito tem sido fazer as crianças se interessarem pelos livros e buscarem, por iniciativa própria, mais conhecimento. A certa altura, uma visita ao Museu Afro Brasil também ampliou as ações e o alcance do projeto.
“O mais interessante foi perceber que as crianças e adolescentes passaram a tirar suas próprias conclusões e a traçar paralelos entre as histórias ouvidas por eles na biblioteca da Fundação Julita e as informações que iam recebendo dos monitores do museu”, relata a bibliotecária. Outro ponto de identidade com o projeto foi a música. A primeira coisa que chama a atenção da garotada é a apresentação dos instrumentos, seus nomes africanos, a história de cada um deles e – lógico! – sua sonoridade.

Logo a meninada se tornava íntima da alfaia (espécie de tambor), da caixa, do gonguê, do agogô, do mineiro (também chamado ganzá) e do abê (chocalho). Aprendeu ainda, que macumba era antigamente o nome dado a um instrumento – parecido com a alfaia – de onde se conclui que, provavelmente, por ser bastante utilizado em rituais religiosos africanos, seu nome passou a designar o próprio ritual. Assim, por meio do conhecimento, aos poucos, começa-se a diluir o preconceito e o estigma dos quais se encontra cercada nossa herança cultural africana e passa-se a perceber sua importância.

fonte: revista RAÇA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s