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DE CHICA DA SILVA À MITOLOGIA MAKONDE


POR OSWALDO FAUSTINO
 

Já se passaram 22 anos desde que a atriz Dirce Thomaz interpretou Chica da Silva no teatro, sob direção de Antunes Filho. Os aplausos e elogios da crítica e do público não estimularam a atriz a trilhar caminhos fáceis através de espetáculos de sucesso garantido de bilheteria, com personagens clássicos, hilários, leves. Ao contrário, a cada novo trabalho, Dirce mergulha mais e mais num teatro menos convencional, em temas mais contundentes, em sua própria negritude. O infanto-juvenil A Precursora das Ideias, seu espetáculo atual, traz a mitologia Makonde, de Moçambique. Diretora do grupo teatral Os Invasores(www.invasoresciaexperimental.blogspot.com) a leonina Dirce Thomas é graduada em Letras pela PUC/SP, mestranda em Antropologia e se dedica profundamente a garimpar e lançar luz à profundidade, tanto da alma da mulher afro-brasileira quanto de culturas africanas, ainda desconhecidas pela dramaturgia nacional. Dirce atuou na incômoda peça Os Negros, de Jean Genet, e em Nenhum Alguém em Lugar Algum, adaptação do insólito romance de Inácio de Loyola Brandão, Não Verás País Nenhum. Foi a Mãe Ubu, em Ubu Presidente, e A Mulher do Chapéu. Produziu e dirigiu Os Sinos Dobram por Elas, sobre a violência sofrida por mulheres negras, e também uma releitura sob ótica negra de Os Lusíadas, de Luís de Camões, intitulada Pedaços de Mim, além de O Drama de AméliaUma Horta Encantada e Negras Narrativas. Em A Precursora das Idéias, Dirce Thomaz vive três personagens: uma velha contadora de histórias, a Escultura Mágica e aMenina Noite.
A interligação entre esses três personagens vai nos revelando a concepção de algumas etnias africanas sobre a criação do mundo, dos vegetais, dos animais e dos seres humanos, além da relação dos elementos terra, água, fogo e ar. Uma dramaturgia dinâmica e cativante que fala em diáspora, na riqueza cultural africana trazida para o Brasil e na esperança de que nossas crianças e jovens valorizem e deem continuidade a esse tesouro. Um espetáculo imperdível, com uma atriz que enegrece mais, a cada espetáculo.
Sabe que tempo foi esse?

“No tempo que jogava no Andaraí / Nossa vida era mais simples de viver…”

fotos divulgação/reprodução
Está aí uma curiosidade: o Dondon, cantado por Nei Lopes, no samba também gravado por Zeca Pagodinho e Dudu Nobre, foi realmente um craque? E seu tempo era mesmo melhor que o nosso? A bem da verdade, nascido em 1942, Nei nunca viu o zagueiro Dondon – Antonio da Paula Filho – jogar pelo Andarahy Athético Club, time alvi-verde fundado em 1909 e extinto na década de 70, que teve certa glória na década de 30. Foi vice-campeão do campeonato carioca de 1934, perdendo para o Botafogo. O atleta fez parte dessa equipe, entre 1932 e 1938. Mas a prova de seu talento está num álbum de figurinhas do futebol carioca, de 1938: Dondon era figurinha carimbada. O Dondon de quem Nei Lopes foi amigo utilizava as pernas não no gramado, mas nas pistas de gafieira, como o compositor descreve: “Era elegante e impecável no samba, em passos como o cruzado e o puladinho. Um lorde sambista carioca. Gostava de contar histórias que sempre iniciavam com ‘no meu tempo’. Daí a inspiração para o meu samba”. Nascido em Magé, o zagueiro-dançarino morou em Vila Isabel com a esposa Dona Santinha e a filha Elza, por mais de 30 anos. Deixou este planeta em 1993.
N o tempo de Dondon, segundo o samba, as coisas tinham outros nomes e Nei acredita que “era um tempo mais calmo, de menos competições, de mais espiritualidade”. Devia ser um tempo como aquele cantado na Praça da Alegria, pelo humorista Lilico (Olívio Henrique da Silva Fortes), com seu inseparável bumbo: “Tempo bom, não volta mais. Saudade! Quanto tempo faz!”.

Marabaixo, a cultura negra do Amapá

fotos divulgação/reprodução

Ao se falar de cultura negra no Brasil, todo mundo, não por acaso, aponta a Bahia. Quando muito também se aceita o Maranhão. Mas a afro-brasilidade está presente em todo o território nacional e é impossível não aceitar que a diáspora africana se encarregou de cultivar a negritude pelas Américas, de ponta à ponta. Lá, no topo do território brasileiro, o Amapá, em plena Amazônia, não é exceção. Um estado com a predominância da cultura negra, desde o século 18, quando nos pegis (toscos santuários em senzalas), as imagens dos santos católicos dividiam espaço com “pedras, galhos de árvores, ervas, conchas, insígnias, água e contas” (Araujo, 1996). Na capital Macapá, os negros foram transferidos da região do Trapiche Municipal e do estaleiro para o bairro Laguinho, no norte da cidade, para a Favela e o Líderes comunitários, como o Mestre Julião Tomaz Ramos, Sacaca, Ladislau e a parteira Mãe Luzia contribuíram para a formação cultural de Macapá, mantendo viva, entre outras, a tradição afro do Marabaixo. A festa começa no domingo de Páscoa, no Laguinho, depois da missa na Igreja de São Benedito. O povo dança de manhã e à tarde na casa do festeiro, em cujo quintal, cinco semanas depois, são “plantados” dois mastros com as bandeiras do Divino Espírito Santos e da Santíssima Trindade, com ramos de uma planta cheirosa chamada murta, responsável pela limpeza espiritual dos brincantes. Tudo isso em meio a cantos, danças e espocar de fogos. Seguem-se 18 dias de novenas, ladainhas e danças. E mais uma semana de festejos, até o domingo, quando os mastros serão derrubados. Eta povo festeiro! Homens de branco, mulheres com saias multicoloridas e fitas, ora abraçados, ora separados, em filas (duas ou três), improvisam passos ao som de tambores. É ali que o sagrado e o profano de engendram. Não tem como separá-los. É assim que a gente é! Igarapé das Mulheres.
Letras e negritude

Dedilhando o órgão na missa de domingo ou o teclado de uma velha máquina de escrever (hoje também do computador), o jornalista e escritor Oswaldo de Camargo deixa a sensibilidade aflorar às últimas consequências. Aos 74 anos, ele completou 50 anos de vida literária dedicada às questões relacionadas com a vivência e a alma afro-brasileiras. Um dos maiores conhecedores da literatura negra brasileira e internacional, Camargo é, antes de tudo, poeta. E foi com uma publicação intituladaBreve Antologia de Poemas, patrocinada pela Coordenadoria dos Assuntos da População Negras (Cone), da Prefeitura de São Paulo, que ele comemorou suas bodas de ouro literária. Nascido em Bragança Paulista, em 1936, ainda pré-adolescente queria ser padre e foi estudar num seminário em São José do Rio Preto, onde ficou até 1954. Apaixonado por música sacra e erudita, dedicou grande parte de sua vida ao estudo de piano e à teoria musical. A paixão pela música só foi superada pela voltada à literária e pela preocupação com seu povo, razão pela qual dirigiu e integrou o núcleo dos artistas e intelectuais da Associação Cultural do Negro, que funcionava no mais elegante prédio do centro da cidade de São Paulo, o Edifício Martinelli.
Militante da Imprensa Negra, participou, dentre outros, dos jornais O Novo Horizonte O Mutirão, além de editar a revista Níger, da própria Associação. Estreou na literatura com o livro de poemas Um homem tenta ser anjo, em 1959. Quatro anos antes, tornou-se revisor do jornal O Estado de S.Paulo, onde ficou até aposentar-se. O diretor-proprietário do jornal, Ruy Mesquita, o fez revisor exclusivo de seus editoriais, concedendo-lhe mais que “um grama” de confiança. Erroneamente, Mesquita escrevia “uma grama”, mas nenhum revisor tinha coragem de corrigi-lo. Camargo rompeu essa tradição e conquistou o respeito do patrão. Atual coordenador de literatura do Museu Afro-Brasil, ele escreveu, ainda, 15 Poemas Negros (1961),O Carro do Êxito (1972), A Descoberta do Frio (1979), O Estranho (1984), O Negro Escrito – Apontamentos sobre a Presença Negra na Literatura Brasileira (1987) e Solano Trindade, poeta do povo – Aproximações(2009), além de ter organizado A Razão da Chama: Antologia de Poetas Negros Brasileiros (1986). Pois é, “xará”, que bom termos você como espelho para nos refletirmos e admirarmos o reflexo de um dos melhores dentre nós.

fonte: revista RAÇA

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