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Hip-Hop e Candomblé: base da contestação negra em Cuba

Hip-Hop e Candomblé: base da contestação negra em Cuba
Por: Redação – Fonte: Afropress – 9/5/2010
Salvador – O movimento de contestação negra contra o regime cubano, se expressa hoje em um amplo movimento de contra-cultura da juventude com base no Hip-Hop que conta com mais de seiscentos grupos de diferentes tendências, com como da Santería (o Candomblé de Cuba) que reúnem cerca de 85% dos cubanos brancos e negros.

A opinião é do etnólogo e cientista social cubano, exilado no Brasil, acusado de subversão racial, Carlos Moore, na terceira e última parte da entrevista que concedeu ao editor e jornalista responsável por Afropress, Dojival Vieira.

Segundo Moore, o Movimento Negro se manifesta diretamente por meio de entidades como o Movimento pela Integração Racial (MIR), o Comité Cidadão pela Integração Racial (CIR), o Movimento Cultural Afro-Cubano Juán René Betancourt, o Movimento de Integración Racial Juán Gualberto Gómez, o Centro Juán Bruno Sayas para a Saúde e os Direitos Humanos -cujo presidente, doutor Darsi Ferrer, está na prisão desde Julho de 2009 – e a Confraria Negritude, entre outros.

“Atualmente são mais de vinte e cinco dessas agremiações anti-racistas especificamente negras que o regime se nega a reconhecer. Elas estão crescendo em número e adesões constantemente, apesar da crescente repressão e agressividade da ditadura bicéfala que, conjuntamente, Raúl e Fidel Castro comandam“, acrescenta Moore.

Na entrevista, o etnólogo – que vive exilado em Salvador, acusado pelo regime de subversão racial – disse que “o pior para o regime é que, contrariamente aos anos sessenta, esse movimento tem se diversificado e ampliado”. “Ou seja, que o sistema repressivo já não pode agarra-lo e destruí-lo”, enfatiza.

O etnólogo afirmou que respeita a posição, porém discorda, do Presidente Luis Inácio Lula da Silva, que estava em Havana no dia da morte de Orlando Zapata e que depois comparou a greve de fome de dissidentes cubanos com presos comuns.

Ele acrescenta que não estranha a posição da esquerda brasileira em relação às denúncias de violação dos direitos humanos na Ilha. “Pessoalmente, compreendo que a esquerda brasileira, que é uma das esquerdas mais reacionárias deste continente, adote a posição que ela adota com respeito a ditadura da minoria branca em Cuba“, afirma.

Eles defendem a sua “família”, na realidade. Eu chamo a esquerda – especialmente esta da America chamada “Latina” – da cara sorridente da direita!”, acrescenta.

Leia a terceira e última parte da entrevista de Moore à Afropress.

Afropress – A Revolução em Cuba, que empolgou e influenciou gerações de jovens em todo o mundo, inclusive no Brasil, teria caído em mãos de contrarrevolucionários?

Carlos Moore – A Revolução cubana morreu há bastante tempo. Há muito tempo que essa é a realidade, embora muitos não o saibam, ou finjam não sabê-lo. Há uma grande diferença entre os homens que governam Cuba hoje, e aqueles que tomaram o poder em 1959, embora sejam as mesmas pessoas físicamente.

Mentalmente eles não são os mesmos e a relação que tem com a população também mudou radicalmente; eles são opressores do povo.

No 13 de março passado, o diário espanhol El Mundo, publicou uma entrevista com o cantor afro-cubano Pablo Milanés, amado no mundo inteiro e reconhecido revolucionário. A pergunta que o jornal colocou para ele foi: “O que fizeram os revolucionários com a Revolução?” E ele respondeu, sem hesitar: “Eles ficaram atrás com o tempo. E a história deve avançar, com idéias e homens novos. Eles têm se convertido em reacionários em relação as suas próprias idéias. É por isso que eu digo, precisamos de uma outra revolução, pois temos pequenas manchas. O enorme sol que nasceu em 1959 tem ido coletando pequenas manchas na medida que ele foi envelhecendo.”

E, alguns meses antes, em uma entrevista à revista espanhola “Público”, publicada o 29 de dezembro de 2008, Milanés desabafou: “Eu não confio mais em nenhum dirigente cubano que tenha mais de 75 anos, porque todos, a meu ver, tem ultrapassado seus momentos de glória, que foram muitos, mas que agora estão prontos para serem aposentados.

Há que repassar a testemunha para as outras gerações, para que estas façam outro tipo de socialismo, porque este socialismo já se estancou. Ele já deu tudo o que podia dar, momentos de glória, coisas imperecíveis que ainda se mantém na memória e no cotidiano dos cubanos, mas teremos que fazer reformas em muitíssimas frentes da Revolução, porque os nossos dirigentes já não são capazes de fazê-lo.

As idéias revolucionárias que eles tinham antes, tem se tornado reacionárias e essa reação nos impede de continuar, não deixa avançar à nova geração que chegou, para implantar um novo socialismo, uma nova revolução que há que se fazer em Cuba”. Foi o que disse Pablo.

Afropress – O senhor concorda com as opiniões de Pablo Milanés?

Moore – Concordo plenamente com tudo isso que o Pablo disse, pois corresponde à realidade que nós, os cubanos, estamos vivenciando. Qualquer pessoa honesta que visita Cuba e que tem a possibilidade de ver exatamente o que está sucedendo lá; que tome o tempo de falar com o cubano normal da rua; ou que faça uma análise de classe do regime cubano, chegará facilmente às mesmas conclusões que Milanés.

Ou seja, que em Cuba não há mais aquele Governo no qual todos acreditavam, como nos anos sessenta. Não estou dizendo que no inicio tudo era ideal, mas pelo menos podíamos admirar e respeitar aquele regime dos anos sessenta, a pesar dos excessos totalitários e os desmandos racistas que estavam presentes desde o inicio.

Na medida em que esse regime dos anos sessenta ainda estava realizando reformas que beneficiavam o povo, dava para respeitá-lo. Mas, a partir da década de setenta as coisas mudaram drásticamente e uma monstruosa ditadura emergiu.

E, hoje, o que temos no poder é uma máfia de puros reacionários e corruptos que se escondem por trás de uma retórica anti-ianque para manter as ilusões. Na realidade, se trata de uma ditadura de mão dura conformada por muitos ex-revolucionários, hoje conservadores, e que sempre foram racistas.

Estes, segundo parece, confundiram o socialismo com o facismo. É uma máfia política e ideológica que temos no poder em Cuba. Só há que olhar para o panorama atual de Cuba para se dar conta disso.

Afropress – Qual é, na sua opinião, esse panorama?

Moore – Foi somente a partir de 1995 que, realmente, temos tido acesso às estatísticas que nos permitem compor o quadro que se apresenta em Cuba, 50 anos após a chegada dos irmãos Castro ao poder?

Vou citar as próprias estatísticas fornecidas pelos diversos órgãos do poder, recompilados no livro, “Los Desafios de la Problematica Racial en Cuba”, do economista do regime, doutor Esteban Morales Dominguez. Segundo essas estatísticas, em 1995, 66% da população negra ativa se encontrava desempregada.

Ora, para esse mesmo período a população branca usufruía de pleno emprego (65.8%), embora ela represente menos de 30% da populaçao total. Com o agravamento constante da crise econômica cubana, estima-se se que a cifra de desempregados negros ultrapassou a faixa de 70% em 2009.

A situação no setor agrícola é, também, equivalente ao resto do quadro de profundas desigualdades sócio-raciais. Os negros constituem uma exígua minoria do setor agrícola privado (2%), comparativamente aos brancos (98%); nas cooperativas de Estado, os negros representam somente 5%, enquanto os brancos somam 95%. Por que isso?

Afropress – Qual é a participação real dos negros nas instâncias de direção do país?

Moore – No topo do comando do país (Comité Central do Partido Comunista, Conselho de Estado, Conselho de Ministros, Estado Major das Forças Armadas) a proporção de brancos ultrapassava 92%, em 2005. Em todos os níveis e instâncias de poder, desde a chefia das empresas até a direção do Estado, do Governo, do Parlamento e do Partido Comunista, os quadros dirigentes (sejam técnicos ou políticos) são majoritáriamente brancos em nível nacional (71%). No que diz respeito aos quadros técnicos e os cientistas do país, 72,7% deles são brancos.

Afropress – E na educação superior?

Moore – Há muita controvérsia quanto a isso, pois geralmente se fala do excelente sistema educacional cubano. Não duvido que, globalmente seja verdade, como não duvido que as universidades brasileiras sejam de excelente qualidade. A minha preocupação é de como tudo isso se traduz em termos sócio-raciais. E nesse terreno que as coisas têm outro aspecto.

Muitas pessoas ainda se iludem pensando que a educação em Cuba é algo que tem produzido mudanças miraculosas para a população negra. Qual é a situação concreta? Em 2009, meio século após a chegada de Castro ao poder, o porcentual de estudantes negros matriculados nas universidades cubanas chegava apenas a 3% (ou seja, mesma proporção que no Brasil).

Isso, porque tanto em Cuba como no Brasil, aliás, os brancos se mostram preofundamente hostis às políticas públicas de ações afirmativas. Lá como cá, dizem que se trata de favorecer negros e discriminar os brancos. Assim, os grandes desníveis herdados da escravidão se perpetuaram sob a Revolução e aumentaram com ela, em puro beneficio dos brancos.

E, hoje, eles são os verdadeiros donos de Cuba, em todos os níveis e em todas as instâncias, incluindo – claro – o ensino superior. Ora, a mesma situação acontece com a saúde: é a população negra que apresenta os índices mais catastróficos, apesar dos programas instaurados com a Revolução. Nessa área como na educação, os negros são os grandes perdedores quando comparados globalmente aos brancos de Cuba.

E hoje, com a crise econômica, uma grande parte da população negra cubana já não está mais coberta pelo sistema de saúde (alguns militantes negros afirmam que mais de um milhão de afro-cubanos não tem mais cobertura social). Essa situação fez necessária a constituição de clínicas alternativas, pelo doutor Darsi Ferrer (aprisionado pelo regime em julho de 2009).

Essas clínicas (abertas em garagens, em casas privadas, em armazéns) estavam dando assistência às populações pobres carentes, até que o regime, constrangido, acabou com a experiência. O doutor Darsi Ferrer continua na prisão.

Afropress – Que tipo de convivência interpessoal existe hoje em Cuba?

Moore – Essas relações são complexas, mas tudo isso está saindo à luz ultimamente. A questão deveria ser: tem os brancos revolucionários (marxistas) cubanos mudado suas atitudes para com a maioria negra da população após 50 anos de Revolução? Aqui também nos defrontamos com resultados surpreendentes.

Segundo as pesquisas feitas pelo Departamento de Antropologia da Universidade de Havana, a situação nesse campo é a seguinte: 58% dos brancos cubanos entrevistados em 1995 consideravam que os negros “eram menos inteligentes” que os brancos; 65% dos brancos acreditavam que os negros “não têm os mesmos valores e decência” que os brancos, e 68% dos brancos cubanos rejeitam categoricamente o casamento inter-racial. Eu pergunto: de que “Revolução” estamos a falar?

Ora, todos esses dados são facilmente acessados na obra “Desafios de La problemática racial en Cuba” (La Habana: Fundación Fernando Ortiz, 2007), do economista Esteban Morales Dominguez, membro do Partido Comunista e antigo diretor do Centro de Estudos sobre Estados Unidos (CESEU).

Afropress – Essas desigualdades sócio-raciais se estendem às Forças Armadas que lutaram no continente africano?

Moore – Na realidade, são as Forças Armadas cubanas que representam os índices de desigualdade mais chocantes de toda a pirâmide racial cubana.

Para se ter uma idéia do que está acontecendo no universo militar cubano, há que consultar o estudo feito pelo pesquisador, Hans de Salas del Valle, “Afro-Cubans: Powerless Majority in Their Own Country” (Relatório do Institute for Cuban and Cuban-American Studies. University of Miami-UM, in: CUBA FACTS. Vol. 49, dezembro de 2009).

Nesse estudo, se analisa que apenas 10% dos oficiais de alta patente das FAR são negros. As Forças Armadas cubanas contam 100 mil homens, mas em 2009, somente um dentre os dez Generais de Divisão do Comando Central das FAR era negro: o Gen. Raúl Rodriguez Lobaina.

E essa situação não está prestes a mudar, a menos que aconteça um golpe militar. Ora, estima-se geralmente que, hoje em dia perto de 75% das tropas do Exército de terra são negras, devido em grande parte à necessidade que teve o regime de mobilizar pessoas especificamente negras para a condução das guerras na África, nas décadas dos anos setenta e oitenta.

O total de homens que Cuba enviou para lutar somente em Angola ultrapassou 350 mil homens, segundo especialistas sérios que têm se debruçado sobre esse envolvimento massivo de Cuba.
E sabemos que Cuba já tinha enviado mais de 40 mil homens para combater na Etiópia em favor da ditadura genocida comandada pelo Hailé Mariam Menguistu.

Ora, que aconteceu com todos esses militares negros quando voltaram? A composição racial da alta patente das Forças Armadas mudou? Nada disso. Esses antigos militares estão hoje nessa grande massa de desempregados negros que conformam 70% do país. E o dissidente Guillermo Fariñas – atualmente em greve de fome até a morte – é um desses antigos militares, veteranos das campanhas africanas que se deram conta que tinham sido utilizados como bucha de canhão.

Entretanto, a situação continuará sendo essa enquanto a dinastia dos Castro e a elite íbero-hispânica que a sustenta se mantenha no poder.

Afropress – É fato, então, que o poder em Cuba, mudou significativamente nos últimos 50 anos?

Moore – Indubitávelmente. Agora temos ostentando os cargos de direção do país, pessoas altamente corruptas, profundamente racistas e inimigos da maioria do povo cubano trabalhador.

Afropress – O senhor mantém algum contato com o Movimento dos Direitos Humanos na Ilha?

Moore – Francamente eu só estou em contato com alguns movimentos dos Direitos Humanos e dos Direitos Civis, e com um dos partidos políticos, o Partido Arco Progressista (PARP), que é uma formação social-democrata dirigida pelo historiador negro, Manuel Cuesta Morúa. Considero Morúa um dos mais lúcidos dirigentes da oposição interna, homem de um alto nível cultural e de uma grande sofisticação política.

Mas, de maneira geral, sempre me mantive distante, voluntariamente, dos outros grupos dos Direitos Humanos surgidos nos anos oitenta e que eram preponderantemente brancos. Muitos deles mantinham estreitas relações com os grupos de esquerda (também brancos) de cubanos exilados nos Estados Unidos.

Não me sentia bem com eles, por uma série de motivos, um dos quais era que evitavam como a peste a questão racial. Inclusive, até negavam a sua existência. Mas reconheço que pessoas como Elizardo Sánchez Santa Cruz, presidente de la Comisión Cubana de Derechos Humanos y Reconciliación Nacional, tem feito um bom trabalho.

Afropress – Como o senhor vê a tendência da esquerda, inclusive, no Brasil, de considerar qualquer protesto  e movimento por liberdades democráticas em Cuba, como parte de uma conspiração orquestrada pelos Estados Unidos?

Moore – A esquerda perdeu, se alguma vez teve, seu monopólio sobre a ética social. Não há praticamente nenhuma linha de divisão entre a esquerda e a direita sobre o racismo e os direitos humanos: ambas violam nesses direitos e combatem com igual vigor qualquer tentativa por parte dos negros e dos indígenas deste hemisfério de buscar soluções estruturais capazes de remediar sua catastrófica condição sócio-racial.

Assim, eu, pessoalmente, compreendo que a esquerda brasileira, que é uma das esquerdas mais reacionárias deste continente, adote a posição que ela adota com respeito a ditadura da minoria branca em Cuba. Eles defendem a sua “família”, na realidade. Eu chamo a esquerda – especialmente esta da America chamada “Latina” – da cara sorridente da direita.

Afropress – Como o senhor viu a postura do Governo brasileiro, em especial de Lula, que comparou o movimento dos presos de consciência em Cuba, com presos comuns, encarcerados no regime prisional brasileiro?

Moore – O presidente Lula disse o que ele pensa; eu respeito a sua opinião, mas discordo daquilo que ele diz. Pessoalmente, eu sempre tive grande respeito pelo Lula. O respeitei antes dele chegar ao poder, por causa de sua grande luta em favor dos desfavorecidos.

E continuo respeitando-o hoje pelo que ele fez para os desfavorecidos durante seus dois mandatos. Mas discordo dele totalmente quando ele desqualifica os opositores em Cuba como sendo “criminosos”.

Os prisioneiros políticos cubanos estão no cárcere por terem cometido delitos de opinião, não por serem “criminosos”. Eles estão na prisão porque combatem um regime tão tirânico e racista quanto o regime militar que oprimiu o Brasil outrora.

Reconheço que hoje o Brasil é um país politicamente democrático, embora não o seja no tocante ao sócio-racial; um país no qual as pessoas podem expressar as suas opiniões sem ir para prisão. Mas, nem sempre foi assim.

Houve no Brasil, até 1985, uma ditadura fascista de direita que oprimiu o povo da mesma maneira que a ditadura – também facista, mas de esquerda – oprime atualmente o povo de Cuba. O que aqueles que pertencem à oposição democrática e antiracista em Cuba querem é mudar – pela via pacífica – aquele regime “facistóide” que nós temos em Cuba. E isso também é o direito democrático deles.

Afropress – Por que Lula, que foi preso político, inclusive fez greve de fome adotou essa posição?

Moore – Haverá que perguntar ao próprio presidente Lula porque ele pensa como pensa e diz o que diz. Sei, no entanto, que no próprio Brasil existem forças anti-racistas e pro-democráticas que discordam totalmente dessas declarações que ele fez.
Felizmente no Brasil, as pessoas têm o direito de falar o que eles pensam, e mesmo discordar das opiniões do seu presidente, sem temor de serem presos como acontece em Cuba.

Afropress – Como está o Movimento Afro-Cubano e que contribuição pode dar ao processo de democratização na Ilha?

Moore – O movimento democrático e anti-racista em Cuba está em pleno auge; é por isso que o regime está assustado. O perigo para eles não é a oposição anti-castrista radicada nos Estados Unidos, que não tem apoio dentro de Cuba e que é integrada na sua quase totalidade por brancos cubanos.

Eles representam a velha oligarquia derrubada, a ordem podre, segregacionista anterior. Essa oposição branca perdeu toda a sua força na década dos anos oitenta e agora busca, sem êxito, subir ao carro das forças emergentes em Cuba. Fidel Castro reprimiu violentamente o movimento negro no inicio da Revolução e pensou que o tinha erradicado para sempre.

Mas, a partir de 1980, esse movimento começou a se reconstituir clandestinamente. Hoje, trata-se de uma força que o regime não consegue mais controlar. O pior para o regime é que, contrariamente aos anos sessenta, esse movimento tem se diversificado e ampliado. Ou seja, que o sistema repressivo já não pode agarrá-lo e destruí-lo.

Por exemplo, o movimento de contestação negra se expressa através de um amplo movimento de contra-cultura da juventude cubana com base no Hip-Hop. E hoje temos em toda a Ilha mais de seiscentos grupos diferentes de Hip-Hop. Ele se manifesta também através das confrarias religiosas da Santería (ou seja, o Candomblé de Cuba), que se insurgem contra as tentativas de folclorização e de prostituição turistica urdidas pelo governo.

Algo como 85% dos cubanos, brancos e negros, pertencem a essas confrarias. O movimento negro se manifesta diretamente através de entidades como o Movimento pela Integração Racial (MIR), o Comité Cidadão pela Integração Racial (CIR), o Movimento Cultural Afro-Cubano Juán René Betancourt, o Movimento de Integración Racial Juán Gualberto Gómez, o Centro Juán Bruno Sayas para a Saúde e os Direitos Humanos (cujo presidente, doutor Darsi Ferrer, está na prisão desde Julho de 2009), a Confraria Negritude etc. Atualmente são mais de vinte e cinco dessas agremiações anti-racistas especificamente negras que o regime se nega a reconhecer.

Elas estão crescendo em número e adesões constantemente, apesar da crescente repressão e agressividade da ditadura bicéfala que, conjuntamente, Raúl e Fidel Castro comandam.

Afropress – E a influência da direita?

Moore – Claro, nem todos os que se opõem ao regime castrista dentro do país são democráticos, anti-racistas ou progresistas. Pelo contrário: há opositores internos que estão profundamente ligados à contra-revolução externa. Geralmente, se trata de gente que tem suas famílias nos Estados Unidos e na Espanha.

Os anti-castristas de Miami e de Espanha querem derrubar o governo, mas para reinstalar o regime que eles mantiveram antes de 1959. No entanto, é um erro grave dizer que os únicos opositores cubanos são aqueles que estão ligados aos direitistas que moram nos Estados Unidos e na Espanha e que recebem apoio dos americanos. Isso é uma pura mentira.

A oposição democrática e anti-racista com a qual eu me identifico – ou seja, a oposição social-democrata, a oposição do movimento dos direitos civis e a oposição socialista autônoma – quer encaminhar Cuba pelos caminhos de uma democracia multi-racial, aquém de um sistema socioeconômico que garanta o bem estar da população, que provenha o povo os direitos politicos elementares que os brasileiros usufruem.

Enfim, queremos uma sociedade que ponha fim ao sistema de racismo e de discriminação racial que impera em Cuba atualmente sob a tirania política comandada pela dinastia familiar dos dois Castro. Mas tudo isso deve ser feito pacífica e progressivamente, pois senão desembocaremos em uma contenda civil, a qual seria um desastre para todos.

Há que levar em consideração a opinião de todos dentro do país, inclusive a daqueles que são de direita. Por que pensar que a esquerda tem o monopólio da verdade quando temos visto o exemplo desastroso dos países comunistas de Europa, da Ásia e da África?

Eu defendo a idéia de que os opositores de direita tem o direito de manifestarem as suas opções livremente e se organizarem, desde que o façam pacificamente e que não recorram à violência para fazer triunfar as suas idéias. Eu quero ver uma Cuba onde todas as tendências se confrontem pacificamente, através de um processo de eleições livres e democráticas.

Afropress – E a esquerda em tudo isso?

Moore – A esquerda é o que ela é. Não penso que ela mude, como também não penso que a direita mude. Ora, não há mil soluções: ou o regime cubano é realmente socialista, ou ele não é. Se ele é socialista haverá que explicar por que ele se comporta como um regime fascista. E se ele não é socialista, então haverá que explicar de que tipo de regime se trata.

Quando se trata da questão racial, do racismo e da reivindicação histórica dos negros, não vejo tão grandes distinções entre as posições da esquerda e da direita.

Em Cuba, a esquerda tem perdido o prestígio que ela teve e que lhe permitiu, em certo momento, ter a adesão de mais de 90% da população. O Partido Comunista de Cuba está quase totalmente desacreditado em Cuba; poucos acreditam ainda no comunismo.

Cada dia mais, o regime perde adeptos e militantes; está se afundando. Dentro de pouco, não poderá mais governar, mesmo utilizando o máximo de repressão. Como no Brasil, temos chagado ao momento em que o povo já não teme mais perder sua vida para derrubar um regime tirânico.

Afropress – O que tomaria o seu lugar?

Moore – Temos visto a evolução rápida da China e do Vietnam para um capitalismo selvagem e impiedoso. Esse não é o tipo de sociedade que almejamos. A maioria da população afro-cubana não quer um retorno ao capitalismo, como o regime raulista está fazendo neste momento, embora de maneira sigilosa.

A situação atual de “reformas” raulistas que consolidam as forças favoráveis à economia de mercado, cria novos perigos: a saber, o fortalecimento das opções favoráveis ao retorno ao passado e ao restabelecimento de laços de dependência com Estados Unidos e a Europa ocidental.

Por causa dessa possibilidade, a minha política de oposição sempre foi de estar sempre disposto a ajudar o regime atual a sair por uma porta honrosa, sem violências e sem tragédia.

Afropress – Como sería a transição em Cuba, violenta ou pacifica?

Moore – A oposição democrática e anti-racista quer que essa mudança aconteça gradativamente, em etapas, e sem violência. Não queremos outra revolução violenta, pois abriria o caminho para muitas coisas imprevisíveis, inclusive uma Guerra civil.

Não há que esquecer que em Cuba há ainda, pelo menos, 15% à 25% de pessoas que são totalmente favoráveis ao regime. Na minha própria família, estamos divididos pela metade: tenho a metade dos meus irmãos e irmãs que são comunistas.

É por isso que se faz necessário trabalhar para que a mudança aconteça gradativamente, passo a passo e sem sangue. A ditadura mono-racial cubana terá que ceder, pois stá crescendo a pressão popular, no sentido de uma mudança para uma democracia multi-racial e social-democrática.

Os cubanos, especialmente os negros, que são os mais agredidos e desfavorecidos, estão do saco cheio com essa ditadura racial e pequeno-burguesa. Na realidade, é só uma questão de tempo para o regime desabar.

Já temos visto como os regimes totalitários da esquerda e da direita têm colapsado, todos nos últimos 25 anos, sob a pressão popular. Do lado da esquerda marxista, hoje só ficam realmente Cuba e a Coréia do Norte, pois o Vietnam e a China já viraram capitalistas.

Isso é o que está acontecendo nestes momentos. Ora, o regime pode em qualquer momento decidir pela solução de Tienanmen o querer massacrar a população, como foi feito em 1912, quando os negros pegaram em armas.

Se for o caso, resistiríamos, mas desta vez o resultado final não irá ser aquilo que o regime antecipa. Pessoalmente, continúo acreditando na possibilidade para Cuba evoluir pacificamente para um regime democrático que preserve as conquistas sociais. Em todo caso, é nesse sentido que eu milito.

Em resumo: quero a extinção do regime castrista, mas de maneira pacifica e evolutiva, afim de não abrir uma brecha por onde as forças do passado possam voltar a dirigir os destinos de Cuba. É por isso que eu sempre tenho advogado por uma política de oposição responsável.

E por isso, sempre esteve disposto, pessoalmente – como cidadão que sou desse pais-, até a cooperar com esse regime totalitário e racista, dialogar com ele, e ajudá-lo a ir embora da maneira menos traumática possível para o povo de Cuba.

Afropress – Qual o futuro para Cuba?

Moore – Não quero especular sobre o futuro; não é prudente fazer isso. Não é bom, nem em política nem como pesquisador, fazer vaticínios.

Posso falar, sim, daquilo que eu não gostaria ver: a saber, um colapso como se fez na Rússia, na Romênia, na Alemanha do Leste e nas outras ditaturas totalitárias de esquerda do bloco soviético.

Isso seria catastrófico, no caso de Cuba, pois desencadearia uma contenda civil. Uma queda violenta do regime pode criar situações nas quais a oposição de direita, radicada nos Estados Unidos e na Espanha, e contando com sólidos aliados no interior de Cuba, pode tentar voltar ao poder.

Não há que esquecer que essa oposição reaccionaria tem sólidas conivências no pais, especialmente dentro do próprio governo (a metade das famílias dos governantes cubanos vivem no exterior). Mas, pessoalmente, não vejo como esse regime que temos agora possa se sustentar ainda por cinco anos a mais, considerando o nível de descontentamento que ela enfrenta nestes momentos.

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