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Lições fundamentais de um baluarte negro sobre racismo e imprensa negra no Brasil

Lições fundamentais de um baluarte negro sobre racismo e imprensa negra no Brasil

por Isabel Clavelin*
Numa tarde escaldante do verão do Rio de Janeiro, tivemos a oportunidade de conversar com Abdias do Nascimento – baluarte negro, em sua residência, no bairro da Glória. Mais que declarações para um trabalho de pesquisa, ganhamos lições presenciais raras de um mestre negro, cujo pensamento está eternizado em diversas publicações. Tivemos a oportunidade preciosa de nos emocionarmos com um militante negro e suas declarações sobre um recorte da sua militância negra através da imprensa negra, além das já conhecidas atuações como senador da República, secretário de Estado, produtor cultural, professor, pintor, poeta, e, sobretudo, ativista do Movimento Negro.
Fomos atrás do jornalista negro que fez imprensa negra e nos deparamos com um incansável militante que diz “é preciso ter muita coragem para chegar aos 96 anos, como eu tô chegando, e continuar lutando” e que se apequena diante da situação dos negros brasileiros: “o que eu tinha pra fazer é muito pequeno diante da situação que o negro enfrenta nesse país”.
O motivo do encontro com o mestre Abdias do Nascimento foi a busca de informações sobre imprensa negra. Como já fizemos, nosso propósito era incorporar seu depoimento à pesquisa do mestrado, tendo em vista a escassez de produção acadêmica sobre a imprensa negra nos cursos de Comunicação. Situação diferente em outras áreas de conhecimento, tais como História, Sociologia e Antropologia em trabalhos como o da jornalista negra Ana Flávia Guimarães Pinto, de 2006, do escritor negro Oswaldo de Camargo, do sociólogo e jornalista negro Clóvis Moura, de Miriam Nicolau Ferrara, Roger Bastide, entre tantos outros. Nesse sentido, nossa pesquisa se insere entre as tentativas de compreensão do fazer jornalístico da imprensa negra e seu significado para a imprensa brasileira. Esforço que contamos com a valiosa contribuição de Abdias do Nascimento, como veremos nos principais trechos da entrevista.
Ìrohìn – O senhor olha pra trás e se sente um vencedor?
Abdias do Nascimento – 
Vencedor eu não acredito que seja. Olho pra trás e vejo que sou um grande trabalhador. Vejo os outros, muitos e muitos, que começaram comigo ou começaram depois e foram companheiros de luta, já desistiram há muito tempo. Já foram embora há muito tempo. E eu continuo acreditando, continuo falando com um esforço tremendo para fazer alguma coisa. Deixar alguma coisa feita. É preciso suar muito. Eu não gosto de pensar muito nessas coisas porque dá um estremecimento dentro da gente. Porque também dizer que a gente não fez nada, seria injusto comigo mesmo. Mas eu não fiz tudo o que eu queria fazer. O que eu tinha pra fazer é muito pequeno diante da situação que o negro enfrenta nesse país.
Ìrohìn- Como o senhor começou a fazer imprensa negra?
Abdias 
– Eu fundei O Quilombo, que existiu durante dez números. O propósito do jornal era envolver cada vez mais a própria comunidade e fazê-la participar de todo o movimento do jornal. Mas acontece que os recursos eram muito pequenos, assim que as tiragens do jornal e o raio de influência dele era muito pequeno. Quase não tinha meios para tirar uma grande tiragem do jornal. A tiragem pequena dificultava. Assim que a influência do jornal era muito pequena, era simplesmente quase que a influência doméstica, os amigos, os conhecidos, os colaboradores, os parcos e minguados. Mas em todo caso eu tenho certeza que o jornal exerceu alguma influência na época.
Ìrohìn -Por que o senhor decidiu fazer um jornal negro?
Abdias 
– Para aumentar a sociabilidade da nossa influência. Começar do jornalzinho O Quilombo que nós tínhamos, aumentar a influência dele e tentar ter algum resultado desse trabalho. Esse trabalho nós víamos resultado, mas era muito pequeno. Era muito além da expectativa, dos objetivos e do esforço que se despendia para tirar o jornal. Porque mesmo sendo pequeno, para nós era um grande esforço pagar o jornal. Era um grande esforço, porque nós todos éramos pobres trabalhadores. Não tínhamos dinheiro para sustentar o jornal.
Ìrohìn-Na época o senhor trabalhava com o quê?
Abdias 
– Num período era revisor de jornal. No outro período, eu era repórter, assim sempre em funções de ganho pequeno.
Ìrohìn-O senhor trabalhava na grande imprensa e editava jornal da imprensa negra?
Abdias
 – É.
Ìrohìn-Na imprensa negra, a sua capacidade de trabalho e de proposição eram diferentes do que na grande imprensa? Como a temática racial aparecia no seu trabalho na grande imprensa e imprensa negra? Existia alguma diferença?
Abdias – Existia. Na imprensa normal, a grande como você diz, a notícia sobre questões negras era esporádica, era de vez em quando. Para publicar, para sair, era preciso um grande empenho junto a secretário do jornal, ao diretor mesmo. E no outro jornal, não. A gente resolvia publicar, dava o destaque que se queria dar. Não tinha ninguém que se opusesse, né? Mas na grande imprensa era diferente.
Ìrohìn- Como o senhor e seus colegas conversavam sobre os temas que iam colocar no jornal O Quilombo? Distribuíam as tarefas? O senhor fazia tudo no O Quilombo?
Abdias – Não tinha assim essa divisão tão detalhada, como você está pensando. Nós conversávamos, assim como estamos conversando nós dois aqui, e cada um fazia aquilo que tinha lá mais familiaridade. Tinha mais conhecimento do assunto, né? Não era um trabalho dividido. Era muita camaradagem, muita amizade. Não tinha assim, tarefas.
Ìrohìn- Vocês conseguiam trazer novas pessoas para se engajarem no projeto do jornal? Não só no caso de ter mais gente para fazer o jornal. Mas no sentido de formar mais pessoas?
Abdias – Esporadicamente. Se você me pedir para citar uma pessoa, eu não seria capaz. Faz muito tempo e eu não me lembro mais. Em geral, é assim acadêmicos, pessoas que trabalhavam em algum outro jornal. Podia fazer uma notícia, podia se comprometer em fazer uma coluna. Mas era muito difícil, uma vida muito sacrificada. Era uma coisa quase que milagrosa a gente conseguir encontrar alguém que pudesse ajudar a fazer alguma coisa no jornal. Porque não eram tarefas para qualquer um. Não se tinha pessoas capazes de escrever, formular uma nota ou fazer uma reportagem. Agora tem alunos de todo o jeito de jornalismo e de outras matérias, que são capacitados para fazer notícia. Mas naquele tempo era muito difícil.
Ìrohìn- Como era a relação com o público leitor de O Quilombo? Como era a distribuição do jornal?
Abdias – Era quase que pessoal. Por exemplo, eu estudava Economia através de lá no curso de Economia os estudantes que conversavam comigo, em geral, eram leitores do jornal. E também no trabalho. Era muito esparso. Era muito difícil. Não tinha um lugar nem um grupo de leitores. Vamos reunir com os leitores da zona tal. Não havia isso.
Ìrohìn- O jornal enfrentava resistência pelas temáticas, pela denúncia do racismo? Como as pessoas reagiam?
Abdias – Em geral, as pessoas da raça queriam O Quilombo.
Ìrohìn- As pessoas negras queriam O Quilombo?
Abdias – Queriam O Quilombo. Mas acontece que nós não tínhamos bens para satisfazer essa necessidade de O Quilombo por todos os lados. Não tínhamos. Assim havia falta de jornal para atender essa demanda. E tinha também os não da comunidade que se interessavam ou achavam pitoresco por tratar de dar notícia da comunidade negra. Para grande parte da sociedade, era pitoresco, era engraçado.
Ìrohìn- Engraçado? Tinha algumas expressões que as pessoas falavam?
Abdias – Claro que para nós, não. Mas entre eles achavam engraçado e comentavam. Isso chegava para nós através de terceiros.
Ìrohìn- O que o senhor sentia em fazer um jornal negro? Qual era a sua relação com a imprensa negra?
Abdias – A minha relação com o jornal era de muito orgulho de fazer algo que é difícil de fazer e que tinha, exercia uma certa influência na comunidade e fora da comunidade. E eu que estava no centro de tudo isso. Claro que eu sentia um certo orgulho de estar podendo contribuir. Claro que a gente sabia que tinha uma certa influência, porque antes de fazer jornal a gente já percebia e já verificava esse vácuo. Como agora que há necessidade de um jornal que saia com regularidade e que com uma certa distribuição regular. Não assim, como um jornal que sai e depois não sai mais. Sai um dia e depois não sai no outro. Isso tudo a gente sente, mas era preciso levar como se fosse possível levar a tarefa. E íamos tocando, assim com marchas e contra-marchas, quedas e levantes, íamos indo. Sempre foi assim na comunidade negra e sempre foi assim em todos os degraus, todos os escalões da luta negra. Vai daqui, vai acolá e vai levando à frente. Até que vai chegar o dia, e isso eu acho que não vai demorar muito, a comunidade negra vai ter um jornal com regularidade, com dia certo de sair, com boa apresentação gráfica e sem esses desvãos que há na nossa distribuição. Nossos jornais não têm distribuição regular. É impossível manter uma distribuição regular, quando o jornal não tem saída certa. Sai ou não sai na data marcada. Tudo isso tem que ser organizado é como empresas organizadas. Por isso é difícil. Aí sai assim ao Deus dará, quando é possível.
Ìrohìn-O senhor conhece o jornal Ìrohìn [a saber, destacamos o jornal Ìrohìn por compor o objeto da pesquisa que estamos desenvolvendo]?
Abdias – Conheço.
Ìrohìn-O que o senhor pensa do jornal Ìrohìn?
Abdias – Acho extraordinário o esforço daquela gente. Acho extraordinário porque é um jornal que tem peso. Ele não perde tempo, ele não perde espaço. Tem um peso mesmo, tem influência. Só publica coisa que tem sentido. Não é brincadeirinha de fazer jornal. Porque já houve muito jornal negro que é só brincadeira, papagaiada. Não tinha nada o que dizer, era mais passatempo.
Ìrohìn- Não entravam na luta política?
Abdias – É raro. Mas o Ìrohìn entra na luta mesmo e faz a notícia pra valer. Acho admirável o que faz o Ìrohìn. É um jornal sério. Faz as coisas sérias, faz com responsabilidade. A gente vê que a matéria ali é analisada, é realmente examinada. Não publica as coisas gratuitamente. Não há gratuidade no Ìrohìn. Faz com responsabilidade. É pra valer. E acho a orientação do Ìrohìn perfeita, perfeita. É jornal que se tem de tirar o chapéu. Tem que ter respeito pelo que se faz no Ìrohìn. É uma execução e é uma responsabilidade. Não se vê brigar com ninguém, não se vê fazer chacotas ou pra fazer gracinha. O jornal, quando sai, é porque é coisa séria. Eu gosto muito do Ìrohìn.
Ìrohìn- Como senhor vê a cobertura da grande imprensa com relação à temática racial? E da incapacidade de enxergar o negro como integrante do país?
Abdias – Isso aí tudo é parte da estratégia de deixar o negro no seu lugar. Porque você vê que é impossível pelo volume de negros que tem o país, que ele já não pudesse ter tido um avanço muito maior se houvesse realmente respeito. Já não digo nem apoio, mas respeito de que o negro faz. Mas não há respeito. O negro tem que fazer muito, se desdobrar com a coisa pra ter uma repercussão na sociedade. Fazem tudo ao contrário do que o negro precisa. Assim que a gente só tem que achar que a sociedade é, no seu núcleo principal, no seu cerne, é uma sociedade racista mesmo. Uma sociedade que não quer o negro organizado, que o negro cresça. Porque as iniciativas mais generosas que sejam com a sociedade, por mais idealistas que elas sejam, encontra uma barreira. Encontra um paredão. E indiferença e desprestígio, de menosprezo. É difícil ir pra frente. Eu fico admirado que o Ìrohìn ainda está batalhando, porque realmente o que se faz é desprezo, é desdém, é desapreço. A imprensa é um setor onde não tem havido trégua contra as iniciativas do negro. Não tem havido trégua. É um desapreço total. Tem que achar uns pioneiros que enfrentem esse acúmulo de dificuldades e consigam levar adiante uma iniciativa de jornalismo negro para vencer  essas barreiras todas e se firmar realmente como um líder da raça que está faltando.
Ìrohìn-Como foi a relação do TEN com a grande imprensa? 
Abdias – Por isso que lhe falei. Eu pude ter essa experiência ampla e por isso digo que a sociedade brasileira é muito racista mesmo, porque tive bem com o Teatro Experimental do Negro a oportunidade de testar bem a sociedade brasileira. Porque tinha tão somente a experiência do espetáculo e o público, como também os meios de divulgação, dos jornalistas. A gente tinha um trânsito, uma forma de tratar o outro que a gente via como era difícil. Muito difícil fazer qualquer coisa. Era o que se passava nesse nível e acontece em outros níveis também, né? Vai falar em associações negras, vai falar em jornal negro, vai falar em clubes. Sempre a maneira de tratar as coisas do negro é uma só: é se afastar dele, é desprezar e se possível fazer tudo para que aquilo não dê certo. Essa é que a verdade, fazem de tudo para que as coisas do negro não dêem certo. Desprestigiam. Não há apoio.

* Jornalista, aluna do curso de mestrado do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, onde desenvolve pesquisa sobre imprensa negra e grande imprensa na linha Jornalismo e Sociedade.

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