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Memória: Antônio Aparecido da Silva (Padre Toninho)

Memória: Antônio Aparecido da Silva (Padre Toninho)
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IHU – Unisinos *
Adital –

Padre Antônio Aparecido da Silva, mais conhecido como Padre Toninho, faleceu dia 17 de dezembro, às 21h30min, em consequência de um AVC sofrido em 12 de dezembro. Pe. Toninho se destacou pelo combate a toda e qualquer forma de discriminação racial. Nascido em Lupércio, pequena cidade do interior de São Paulo, viveu uma boa parte de sua infância e juventude em Parapuã, outra pequena cidade do interior de São Paulo, onde foi sepultado. Tinha 33 anos de vida sacerdotal e pertencia a Ordem Religiosa da Pequena Obra da Divina Providência [Orionitas]. A seguir, a IHU On-Line celebra a memória do Padre Toninho publicando um depoimento e duas entrevistas. O blog do Instituto Humanitas Unisinos – IHU também repercutiu a sua vida e obra.

Confira.

Combativo e generoso: nos passos de Padre Toninho
A seguir você confere o depoimento de Afonso Maria Ligorio Soares, refletindo o legado de Padre Toninho. Ele é presidente da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – Soter, membro e sócio-fundador do Centro Atabaque de Teologia e Cultura Negra. Graduou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR, mestre em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma – PUGR, Itália, e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo – Umesp. É pós-doutor pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio – e livre-docente pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP. De sua produção bibliográfica, destacamos Negros, uma história de migrações (2. ed. São Paulo: Centro de Estudos Migratórios, 1996).
Confira o artigo.
“A primeira vez que vi Padre Toninho foi numa conferência que proferiu em uma Semana Filosófica na PUC de Curitiba, no início dos anos 1980. Ainda estudante de filosofia, fiquei impressionado com aquele jovem presbítero, negro, de fala mansa e bem-humorada, que tinha o dom de fazer as denúncias mais duras sem perder a leveza, como se estivesse numa roda de amigos contando anedotas.
E não era nada irrelevante o tema de Toninho naquela manhã. Era dura e crítica a sua fala. A plateia por várias vezes não conteve o riso, graças à maneira daquele padre militante recordar os casos de racismo que ele ou conhecidos seus haviam passado e ainda passavam em seu dia-a-dia. O riso era nervoso e o recado calava fundo, porque não era fácil admitir que além de toda a discriminação sofrida pela comunidade negra brasileira, durante e após o escravismo, até mesmo dentro das igrejas cristãs, principalmente na Igreja católica, negros e negras tinham sido e seguiam sendo alijados como gente de segunda classe.
Só mais tarde me dei conta da figura ímpar daquele homem combativo e generoso, e da dimensão de seu envolvimento com a causa do povo negro. Assessor e incentivador, junto à CNBB, das discussões em torno de uma atenção pastoral à questão negra, ele esteve presente na criação dos Agentes de Pastoral Negros (APNs) em 1983, batalhou pela visibilidade e pelo combate ao drama do racismo nas assessorias que prestou ao episcopado durante as Conferências de Puebla e Santo Domingo, e manteve-se como principal liderança da Pastoral afro nos últimos 30 anos.
Lembro-me de quão decisiva foi, para o desabrochar da consciência negra junto aos estudantes, a sua gestão à frente da atual Faculdade de Teologia da PUC-SP. Além disso, ele também presidiu a Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – Soter em um período delicado para a consolidação da reflexão teológica latino-americana. Depois, no final de 1990, Padre Toninho reuniu um pequeno grupo de militantes da causa negra – homens e mulheres; leigos e presbíteros; católicos, protestantes e iniciados na tradição dos orixás; filósofos, educadores, teólogos e terapeutas – e juntamente com estes fundou o Grupo Atabaque de Teologia e Cultura Negra (hoje, Centro Atabaque). O Atabaque, sob a liderança e sustentação diuturna de Toninho, firmou-se como uma ONG ecumênica que se reúne até hoje com o propósito de subsidiar a reflexão e a prática dos APNs, intensificando também o intercâmbio com grupos e entidades internacionais envolvidos com a luta pela cidadania plena de todos os afro-descendentes.
Que legado nos deixa Toninho? Num dos últimos balanços que fez sobre a prática e a reflexão teológica em nossos dias, ele apontava, como um dos temas recorrentes, a superação de preconceitos em busca do necessário diálogo afro-religioso, e projetava, para a próxima década, cinco temas particularmente importantes: teologia, fé e práticas afro-religiosas; teologia feminista afro-americana; Bíblia e comunidades negras; comunidade negra e nova ordem mundial; ecumenismo e macroecumenismo (ecumenismo integral) na perspectiva afro. Detendo-se nesse último, Padre Toninho direcionava sua reflexão para a inculturação, esclarecendo, porém, “não se tratar de um processo descendente, cujo protagonismo caiba à mensagem ou ao mensageiro, mas de uma prática em que é dada prioridade ao povo, com suas culturas que, por certo, não superam os evangelhos, mas integram sua mensagem no próprio viver”. Para mim, esse trecho soa como síntese e desafio lançado aos que seguimos na caminhada.
Mas é difícil ainda pensar a frio, a poucos dias desta despedida definitiva. Parecem sobrar as palavras que repetem como ele foi importante para o diálogo inter-religioso e para a conversão da Igreja no Brasil à defesa de plataformas antidiscriminatórias de qualquer espécie. Toninho tinha o dom da conciliação no melhor dos sentidos. Não lhe interessava o conflito pelo conflito nem a crítica destrutiva aos tremendos pecados da Igreja católica contra nossos ancestrais africanos. Ele sempre viu e nos pregou que as Igrejas, não obstante seus erros, eram portadoras de uma mensagem evangélica que as ultrapassava. E em nome dessa convicção de fé, vivida na esperança pascal, e posta em prática em seu amor pelos mais pobres, Toninho consumiu sua vida até os últimos instantes.
Nestes dias, as igrejas cristãs e, nelas, as comunidades negras de todo o Brasil estão de luto, mas seguem na luta. O coração ecumênico e inter-religioso deste nosso “Patriarca” (era assim que, carinhosamente o chamávamos – mas ele não gostava muito, por receio de que alguém confundisse com patriarcalismo) permanecerá conosco, seus filhos e filhas espirituais, onde quer que passemos”.
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Um compromisso com a causa dos pobres
A seguir, você confere duas entrevistas, realizadas com Vilson Caetano de Sousa Júnior e Irene Dias de Oliveira. Ambos conviveram intensamente com Padre Toninho, e por isso recuperam aspectos de sua trajetória na construção da Pastoral do Negro e suas lutas em prol de uma humanidade mais justa e fraterna.
Vilson é doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP – e pós-doutor em Antropologia pela Universidade Estadual de São Paulo – UNESP. É professor adjunto da Universidade Federal da Bahia – UFBA, iniciado no Candomblé e membro do Centro Atabaque de Cultura Negra e Teologia. De sua produção bibliográfica, citamos O Banquete Sagrado: notas sobre a comida e o comer em terreiros de candomblé (Salvador: Atalho, 2008).
Irene é teóloga e filósofa, graduada pela Pontifícia Faculdade Teológica da Itália Meridional, onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia. É autora, entre outros, de Identidade negada e o rosto desfigurado do povo africano (os Tsongas). (São Paulo: Annablume, 2002).
Confira as entrevistas.
IHU On-Line – Qual é o principal legado de Padre Toninho?
Irene Dias de Oliveira – O seu principal legado foi sua luta e seu compromisso com a causa dos pobres entre os mais pobres. Tem sido um dos principais atuante no combate à discriminação racial e toda forma de exclusão religiosa e social. Pe. Toninho se destaca pela sua grande contribuição na Igreja Católica por ter fundado a Pastoral do Negro; por ter sido um dos grandes intelectuais da Teologia Negra no Brasil e fundador do grupo Atabaque de Cultura Negra e Teologia cujo objetivo é pensar, discutir os temas emergentes das comunidades negras, publicar, oferecer cursos, assessorias e subsídios aos grupos e comunidades comprometidas com a causa dos povos negros.  Além disso,  Pe. Toninho tem sido para todos e todas que tiveram o privilégio de conhecê-lo, um testemunho vivo de amorosidade, respeito, solidariedade e ternura. Sua herança místico-teólogica é uma riqueza ímpar para a Igreja Católica e para a Comunidade Negra que tanto ele amou e acolheu.
Vilson Caetano Júnior – Acredito que o principal legado do Pe. Toninho tenha sido a Teologia Negra Latino Americana. Uma Teologia que procurou ir além do texto do Êxodo 3, 7-8 que inspirou a Campanha da Fraternidade de 1988. Depois dessa Campanha, a igreja, particularmente do Brasil, nunca mais foi a mesma. O pensamento teológico negro representado pelo Pe. Toninho juntamente com outros teólogos como o Pe. Batista, Edir Soares e Heitor Frizotti desafiou a igreja a pensar que o oprimido tinha rosto, era negro(a). Era pobre porque era negro, indo além da perspectiva da teologia negra até então produzida pelos teólogos(as) norte americanos. A fim de sistematizar este pensamento, Pe Toninho juntamente com outros companheiros(as) criou o Grupo Atabaque de Cultura Negra e Teologia, atualmente chamado de Centro Atabaque de Cultura Negra e Teologia, grupo interdisciplinar e macroecumênico. A partir do Centro Atabaque de Cultura Negra e Teologia, o Pe. Toninho incentivou a sistematização de questões específicas sobre gênero,bíblia e diálogo inter-religioso, presidindo três Consultas de Teologia e Culturas Afro-Americanas e Caribenhas. Outro legado do Pe. Toninho foi a Pastoral, seja através dos Agentes de Pastoral Negros, a Liturgia incultura, chamada de Missa Afro. Pe. Toninho deixou também outro legado: a vida religiosa. Várias vezes ele representou a CRB e foi um dos fundadores do Instituto Mariama que reúne presbíteros, diáconos e bispos negros, sem falar no GRENI, grupo de religiosos e religiosas negras e indígenas. Toninho nos deixa ainda um legado acadêmico enorme. Diretor da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, professor do Instituto Teológico São Paulo – ITESP.  Pe. Toninho era especialista em Teologia Moral, assim dialogava com tranquilidade com diversos campos de saber entre eles a Filosofia, a História, a Sociologia e a Antropologia.

IHU On-Line – Como as suas lutas ajudaram a solidificar o diálogo inter-religioso e o respeito pelas diferentes crenças?

Irene Dias de Oliveira – Reconhecendo e fazendo reconhecer nas vozes dos pobres e oprimidos e em sua lutas um patrimônio espiritual comum, dom de Deus para todos juntamente com todas as histórias de fé dos vários povos e religiões, Pe. Toninho, ao longo de sua vida, enquanto teólogo e sacerdote, tem se dedicado a mudar o olhar da Igreja e da Teologia em relação às religiões de matriz africana permitindo dessa forma espaços de aproximações, ensaios inter-religiosos e respeito incondicional ao outro, ao diferente e àqueles(as) que professam outras crenças e credos. Ao longo de sua vida, ele tem valorizado as múltiplas expressões de fé que, segundo ele, mostram-se através do rosto de um Deus afro. Neste sentido, destacam-se suas obras e publicações sobre o tema da Inculturação.
Vilson Caetano Júnior – Isso foi algo muito particular na trajetória de vida do Pe.Toninho. Ele tinha um profundo amor pela igreja, pelo ministério que assumiu e, várias vezes, ouvi dizer que se houvesse a possibilidade de retornar a esta vida, ele queria ser padre novamente para visitar as famílias, esta junto dos pobres, rezar missas, que adorava… Mas ele tinha a concepção de que esta igreja de Jesus de Nazaré deveria está aberta para outras experiências religiosas, para outras vivências da espiritualidade que certa vez resumiu como três: a dos romeiros, a dos espíritas e a dos terreiros. Assim Toninho, desde cedo, esforçou-se para demonstrar que, se a igreja de Jesus quisesse de fato cumprir a sua função missionária no mundo, deveria estar cada vez mais aberta a estas vivências do sagrado. Assim quando alguns sacerdotes diziam que não se importavam com a presença de pessoas do candomblé nas suas paróquias, a menos que estas estivessem com suas vestes litúrgicas, acredito ter sido o Pe. Toninho o primeiro presbítero que convidou um babalorixá e uma ialorixá para concelebrar com ele. Isso para nós, pertencentes às religiões de matriz africana, foi muito bom. Era um gesto que ia além do respeito e do diálogo, pois nos reconhecia, reconhecia também o nosso ministério. Isso é apenas um exemplo. A partir desse fato, o Pe. Toninho foi lançando desafios para toda Igreja que, disposta a seguir Jesus, ganhava mais consciência de que ela deveria ser cada vez mais negra e indígena.
IHU On-Line – Em que aspectos Padre Toninho promoveu a valorização da cultura negra brasileira?
Irene Dias de Oliveira – Pe. Toninho tem se destacado por sua luta contínua para o resgate da herança afro-brasileira, especialmente através de sua matriz religiosa e cultural, dando ênfase especial ao respeito e ao acolhimento da cultura, das expressões de fé das comunidades afro-brasileiras; lutando contra as injustiças cometidas contra as populações negras não apenas no Brasil mas também fora dele.
Vilson Caetano Júnior – Em todos os aspectos. Seja através da filosofia, da teologia moral, da história e demais campos de saber. Toda sua vida foi dedicada à promoção e valorização dessa realidade. Fiel ao Carisma da Congregação fundada por Dom Orione, Toninho soube desde cedo que eram os negros aqueles que estavam na linha de risco, atingindo os picos da fome e da miséria. Ele mesmo enfrentou todos os preconceitos que recaem sobre qualquer descendente de africano que traz no corpo os traços que os definem como inferior ou lhe recobre de estereótipos. Através do engajamento e diálogo com os vários segmentos da sociedade, Pe. Toninho, a partir da sua experiência de vida como um semeador, foi abrindo caminhos e depositando sementes, fortalecendo a cada dia os elementos civilizatórios africanos, mantenedores de nossa identidade e responsáveis pela nossa permanência no mundo.
IHU On-Line – Quais são as principais lembranças que você tem da pessoa Padre Toninho? Quais eram as suas marcas registradas?
Irene Dias de Oliveira – Sua solidariedade para com os pobres, sua compaixão, seu grande espírito de compreensão, acolhimento e sua abertura e seu profundo senso de comunidade. Não me lembro de ter ouvido uma crítica negativa, um comentário que não fosse para motivar, incentivar, iluminar e um convite à compreensão e ao perdão das fragilidades humanas. Pe. Toninho deixa uma lacuna muito grande no âmbito da reflexão teológica negra inculturada e especialmente no âmbito da Comunidade Negra. De outro lado, a certeza cristã nos ilumina e nos leva a acreditar de que ele, agora um grande ancestral, continua conosco reforçando nossa esperança e nossos sonhos em um mundo melhor, solidário e terno.
Vilson Caetano Júnior – Sou suspeito para falar sobre isso, pois conheci Pe. Toninho ainda quando fazia teologia numa sala de aula na disciplina teologia moral, há quase vinte anos. Entreguei a ele um texto que havia acabado de escrever sobre as religiões de matriz africana, e em seguida ele me convidou para participar do Grupo Atabaque de Cultura Negra e Teologia. Pe. Toninho era muito sereno. Nos últimos anos, eu brincava com ele dizendo que ele era do mundo do bem, e eu do mundo do mal. Outra lembrança que tenho é que quando havia uma discussão, ele sempre falava por último. Eu nunca gostava de falar depois dele, pois ele era sempre conciliador. Pe. Toninho era um homem muito bom. Onde ele encontrava alguém numa situação de risco, acolhia como Maria acolheu Jesus no seu ventre. Diante dos pobres, dos negros, de situações limites, ele dizia sempre sim. Acho que por isso é que ele, nos últimos anos, sofreu muito. Pe. Toninho não era de gritar, desabafar, não se queixava de nada, estava sempre sorrindo. O tempo foi passado, e pena que percebemos isso muito tarde, quando as lágrimas rolavam no seu rosto e nem ele mesmo percebia. Toninho tinha um profundo amor por Nossa Senhora, a negra Mariana de nós negros. Tinha um profundo amor pela sua igreja, a qual se consagrou quando presbítero. Tinha um profundo respeito pelas religiões de matriz africana e uma paixão eterna pela cidade de Parapuã, onde foi sepultado. É tudo isso que permanece hoje em nós responsáveis a dar continuidade a seu legado teológico. Isso é Ressurreição.

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